|
|
|
|
Publicado em 09/04/2008 De volta para o aconchego![]()
Metalúrgico trocou a agitação da cidade pelo transporte de laticíniosTexto e fotos: Jorge Carvalho Entre as década de 60 e 70, milhares de nordestinos deixaram suas casas e famílias para buscar a sorte em outras regiões do País. Nessa época, devido à seca e miséria que assolavam o Nordeste, um contingente muito grande de nordestinos rumou, principalmente para o Sudeste, na esperança de melhorar de vida. Afinal, a industrialização da região, em especial em São Paulo, era intensa e a capital paulista era conhecida como a “terra das oportunidades”. No meio da multidão que veio para São Paulo estava Jeneci Alves de Barros, nascido em Sanharó, cidade com cerca de 17 mil habitantes, localizada na agreste de Pernambuco. O ano era 1974 e Jeneci, com 21 anos, como muitos migrantes, também veio tentar a sorte na capital paulista. Nas mãos, a mala com as poucas roupas e na cabeça, planos e sonhos. ![]()
A sorte estava ao seu lado e não demorou para encontrar um emprego como metalúrgico em uma empresa que fabricava vergalhões usados para a construção civil. A empresa ficava em São Caetano do Sul, na região do ABC. “Naquela época era bem mais fácil arranjar emprego. Bastava ter vontade de trabalhar. Hoje, sem experiência não se consegue nada.” Jeneci trabalhou por seis anos na empresa e chegou a pegar o começo do movimento sindical, que tinha como principal nome o hoje Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. “Vi toda a agitação, como as greves e os comícios, mas não participava. Não gostava daquele tumulto todo. Queria fazer meu trabalho e voltar para casa.” Ele conta que a rotina e a agitação da cidade não lhe traziam alegrias, pelo contrário, o deixavam cada vez mais cansado. Um belo dia, já cansado da rotina, decidiu voltar para sua cidade natal, onde tornou-se caminhoneiro. Comprou um pequeno caminhão e passou a transportar a produção de laticínios da cidade, além de produtos agrícolas. Vale destacar que Sanharó é conhecida pela produção de queijo coalho e pelo grande número de laticínios ali instalados. Mas não era só isso. Ele também transportava pessoas que precisavam ir para os municípios vizinhos, principalmente, estudantes da rede pública. “As estradas eram muito ruins e não havia ônibus. Aliás, só um caminhão conseguia passar por aquele monte de buracos”, diz rindo. Foram dez anos neste cotidiano, até que ele decidiu lidar com transporte de cargas. Jeneci diz não ter carga certa. Afinal, quem vive de frete não pode escolher trabalho. “Levo o que me pagaram para levar, porque tenho família para sustentar.” Casado há 29 anos e pai de três filhos, orgulha-se de ter encaminhado a filha do meio para o curso superior. Hoje é formada em Ciências Contábeis. Agora, com as entregas que faz com seu caminhão Mercedes-Benz, 1620, ano 2000, paga os estudos do filho caçula no curso de Direito. “Quero que meus filhos tenham uma vida melhor do que a que tive. Não reclamo da minha vida, é boa, tanto que estou proporcionando condições para que eles estudem e tenham o diploma universitário. O resto depende deles”, diz orgulhoso da sua trajetória. Se os dois filhos menores optaram pelo curso superior, o mais velho optou por seguir os passos do pai e ser caminhoneiro. “Se ele está feliz, eu também estou. Cada um deve fazer o que tem vontade. A vida na estrada é difícil, mas também tem seu lado bom, como em qualquer outra profissão.” Leia mais
|