Anunciar Meu Cadastro Acesso Integral Loja Virtual Notícias Ajuda
Escolha sua região:
Buscar:

Publicado em 28/11/2007

Nos passos do pai

Por inexperiência, em sua primeira viagem que deveria levar dez horas; fez em dois dias

Com duas irmãs e sendo o caçula de uma família paranaense, Rodrigo Raimundo da Silva, conta que desde menino observava o pai carregar o caminhão, despedir-se da família e sair ganhando a estrada.

No olhar de criança existia a admiração por vê-lo ir à luta, ficar dias longe da família, porém proporcionando a todos segurança e provendo-os das necessidades básicas. Hoje já mais velho, o pai de Rodrigo trocou o frete e as estradas pela segurança das ruas e avenidas de Londrina, cidade do norte do Paraná, dirigindo ônibus municipal. Dessa forma está presente no dia-a-dia e com a certeza de ter salário garantido, horário de trabalho e mais tempo com os familiares. O olhar de criança existe até hoje, e é dessa forma que Rodrigo analisa o pai: um vencedor.

Já adolescente, Rodrigo guardava para si o sonho de ser caminhoneiro, como o pai, mas como a idade era pouca, precisava trabalhar; e foi ser auxiliar de serviços gerais em uma oficina mecânica da cidade. “Eu fazia um pouco de tudo, desde o atendimento ao balcão até uns trabalhos simples de mêcanica”, conta.

Segundo ele conta, os negócios na oficina não iam bem e o movimento começou a cair. “Acabei perdendo meu emprego e o transporte de carga foi a solução imediata para eu voltar a ter uma ocupação profissional”. Ele recorda da primeira viagem que fez a trabalho: Entregar um elevador da Atlas Schindler em Curitiba. “Não conhecia a estrada e a viagem se tornou um pesadelo. O trajeto deveria durar umas dez horas e eu levei dois dias! Me perdi um monte de vezes; qualquer barulho que o caminhão fazia eu achava que ia ‘pifar’ ou que um pneu ia sair rolando”, diz rindo, completando ainda que a qualquer som estranho ele parava para checar.

Hoje com mais experiência, dirige um Mercedes-Benz 1113, ano 1979 e afirma que já conhece as estradas e caminhos. “Quem se espanta mesmo é minha mulher, que às vezes me acompanha nas viagens. Ela fica impressionada com as dificuldades enfrentadas nas estradas”.

Em um balanço geral, Rodrigo diz que de toda a sua história, o que acha mais difícil é a constatação de que a vida na estrada é muito mais dura do que imaginava. Entre os desencantos que tem vivido está a desvalorização gradual do frete.

Segundo ele, alguns colegas aceitam qualquer valor para realizar uma entrega, principalmente, aqueles que estão em outras cidades e desejam voltar para casa. “Eles aceitam um valor que cobre apenas os gastos com combustível e com os pedágios. É evidente que vão ficar com a entrega”.

De acordo com sua explicação, se um outro caminhoneiro quiser negociar um valor melhor para ter algum lucro não terá sucesso. “Se um aceitou por um valor abaixo da média ficamos sem argumento. E isso, infelizmente, é mais comum do que se imagina”.

Para o rapaz, os gastos com os pedágios colaboram para diminuir os ganhos da categoria e são um verdadeiro desestímulo.

Rodrigo explica que o gasto de uma viagem entre Santos e São Paulo é de R$46 com a cobrança de pedágio, o que considera um absurdo. “Com a privatização as condições das rodovias melhoraram, mas quem depende do caminhão para trabalhar e sobreviver paga um preço muito alto”.

Segundo ele, caminhoneiro sofre, mas não larga da profissão. “É algo que corre nas veias. Não me vejo fazendo outra coisa, apesar de tudo”, diz concluindo que um dia, se tiver um filho que desejar ser caminhoneiro, irá apoiá-lo da mesma forma como seu pai fez. “Meu pai foi meu grande incentivador”.

Texto e fotos: Jorge Carvalho

<<voltar

 Envie esta página para seus amigos


Enviar