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De agricultor a caminhoneiro

Manoel Suriano não discrimina o tipo de carga e tem saudades da época em que a concorrência no setor era menor

É verdade que boa parte dos caminhoneiros que circulam pelas estradas do País entrou na profissão por influência da família ou por sonho de criança. A estatística é grande, porém há exceções. Manoel Suriano é uma delas. O caminhoneiro viu no transporte de cargas uma forma de se “libertar”, e de certa forma, não ter mais patrão. Ele é da cidade de Amaporã, no Paraná, próxima à Londrina e conta que antes de se tornar caminhoneiro trabalhou na agricultura. “Fui operador de máquinas agrícolas em uma fazenda na minha cidade”.

Manoel não reclama da profissão, afinal foi com ela que ganhou o sustento por vários anos. Mas, admite que não queria mais ser empregado. “Juntei dinheiro e comprei meu primeiro caminhão”, diz orgulhoso do seu Scania 111, ano 1978. Faltando 18 prestações para quitar o caminhão, diz que transporta de tudo em seu veículo, de grãos a eletrodomésticos. “Com a família para sustentar não dá para escolher carga. Levo de tudo”.

Nas duas décadas que trabalha com o transporte de carga, ele afirma que muita coisa mudou na profissão. Diz que se por um lado as condições de muitas rodovias melhoraram com as privatizações, por outro, o valor dos pedágios é um absurdo. Manoel revela um certo saudosismo sobre a atividade. “Quando comecei tinha bem menos gente lidando com o transporte de carga. Além disso, o valor do frete era melhor naquele tempo”.

Segundo ele, a concorrência gerada pela grande quantidade de caminhoneiros de hoje jogou o valor do frete para baixo. O que também contribuiu para isso foram as empresas de transporte que cobram valores abaixo da média. “Se não bastasse concorrer com os colegas autônomos é preciso disputar também com as empresas que estão dominando tudo”. Ele se refere, por exemplo, ao fato das empresas, que chegam a ter 20 caminhões, cobrarem R$ 2 mil por um trabalho com frete de R$ 3 mil. No caso dos autônomos, acontece de muitos pegarem uma entrega por menos do que é oferecido só para não ficarem esperando muito tempo nos terminais. “Muitos ficam esperando até uma semana para poder voltar para casa ou para ir a um local onde existe um frete certo. Neste caso, eles acabam levando prejuízo, mas pegam o serviço. Isso acaba jogando o preço do frete cada vez mais para baixo”.

No meio da correria diária pode haver imprevistos e até sustos. Manoel lembra de quando quase perdeu as notas fiscais dos produtos e assim, não poderia descarregar o veículo. Ele estava em São Luís do Maranhão e não percebeu que deixou os documentos cair no pátio de uma empresa, só se deu conta quando chegou ao destino. “Refiz o caminho na memória e voltei ao ponto de partida. Ainda bem que era perto. Quando cheguei encontrei as notas sujas e molhadas. Sequei e segui para o meu destino”. Foi muita sorte, se as tivesse perdido, teria que esperar uma segunda via envida por sedex. “Mesmo assim, perdi a vez e tive que esperar uma semana para descarregar. Tudo por causa da burocracia ou da minha distração, diz rindo.

por Jorge Carvalho

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