|
|
|
|
Virando a mesa Com 21 anos, caminhoneiro já tem experiência na estrada e o compromisso com a família: sempre telefonar quando chegar ao destino
É comum encontrar profissionais insatisfeitos com suas ocupações. Quando isso acontece, o ideal é virar a mesa e partir para outra. Sortudo é aquele que tem coragem de mudar de emprego, cidade e acertar na escolha. Foi assim com o paranaense de Ponta Grossa, Fabrício Gratão Canalis. Com pouco mais de 16 anos, trabalhava como entregador de eletrodomésticos. Era um trabalho braçal, coisa de carregar o caminhão nos CDs (Centros de Distribuição) e descarregar o produto na casa dos clientes. Filho de caminhoneiro, sabia muito bem que o trabalho, que lhe rendia R$ 900,00 por mês, mais a canseira e o estresse, não valeria a pena; ainda mais quando lembrava das histórias contadas por seu pai, que remetiam à liberdade de ir e vir. Eram momentos de reflexão... Passados dois anos, Fabrício atingiu a maioridade, já poderia inclusive, ter carta de motorista. Com 18 anos, tomou coragem, virou a mesa e foi ser caminhoneiro. “Meu pai é caminhoneiro e foi minha grande influência e incentivador”, afirma ao justificar a mudança para Dracena, interior de SãoPaulo. Aliás, na opinião de Fabrício, para quem faz transporte de cargas, a oferta de trabalho em Dracena é superior do que em sua cidade natal. “O forte é a produção agrícola e costumo transportar grãos. Mas como bom caminhoneiro não escolho trabalho. Afinal, é preciso pagar as contas”. Se questionado se está satisfeito com a virada de mesa e a guinada que deu em sua vida, responde sorrindo: “Hoje chego a ganhar três vezes mais do que ganhava como entregador e olha que nesse valor já está excluído os custos com a viagem, como pedágio e combustível”. Satisfeito conta que há três meses conseguiu comprar seu primeiro veículo, um Scania 111, ano 77, mas já faz planos de trocá-lo por um mais novo. “Quando for trocar meu caminhão, vai ser por outro Scania 113, só que bem mais novo, né? Esses caminhões não quebram e se quebrar é fácil de encontrar peças”.
Hoje, Fabrício tem 21 anos e se diz resolvido profissionalmente. Mas, até pela pouca idade, a família está sempre preocupada quando ele está distante; afinal todos sabem dos riscos que a profissão oferece. “Cheguei a ficar mais de um mês longe de casa, mesmo assim nos falamos todos os dias. Ruim é quando estou em um lugar onde o celular não tem sinal. Mesmo assim, não deixo de fazer contato. Aí, tem que ser pelo telefone público mesmo”. A idade pode ser pouca, mas tem sabedoria e compreensão de gente grande. Ele enumera as preocupações dos pais e irmãos: violência nas estradas, más condições das mesmas, motoristas que muitas vezes dirigem com sono, assaltos e mais uma listagem de situações, com direito inclusive, a uma história em que perdeu, em um assalto, um amigo de estrada. “Foi um dos primeiros amigos que fiz quando comecei na profissão e nos víamos com freqüência nas paradas. Um caso de violência com alguém próximo mexe muito com a gente”. Mesmo com todos os perigos que a estrada reserva, ele está decidido a tocar em frente. Outro problema para quem tem um caminhão e depende do veículo para trabalhar é o alto preço de um seguro. “Dependendo do caminhão o seguro pode chegar a R$ 1500,00. Quem pode pagar um valor destes? O negócio é ter coragem e confiar em Deus”. Texto e fotos: Jorge Carvalho |