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Mudança de hábito
Com medo das conseqüências, caminhoneiro que admite ter tomado “arrebites” para conseguir cumprir prazos, afirma ter mudado rotina de trabalho Que o sono é um grande inimigo do caminhoneiro todos nós sabemos. Os prazos curtos para cumprir, longas distâncias e realizar uma entrega - fazem com que estes profissionais tenham que dirigir por muitas horas sem parar para descansar. Afinal, todo caminhoneiro ganha por produção. Aliando-se às péssimas condições de muitas estradas do País, o sono pode provocar acidentes e colocar vidas em risco. Para poder agüentar a “bronca” e pôr comida na mesa de casa, muitos caminhoneiros apelam para os arrebites (estimulantes do tipo anfetaminas) que inibem o sono. O caminhoneiro Luiz Carlos Silva fez uso dos arrebites por cinco anos. Hoje, diz que optou por fazer viagens com trechos mais curtos para evitar dirigir à noite. “Cheguei a ficar dois dias e duas noites sem dormir para realizar uma entrega no prazo exigido pelo cliente. Agora só faço trajetos entre o Paraná e São Paulo”. Entre os efeitos sentidos na época em que fez uso da droga, ele diz que tinha alucinações enquanto dirigia. “Eu via animais na estrada e parava para evitar um atropelamento. Quando olhava melhor não havia nada no caminho. Além do mais, sabia que se usado por muito tempo a droga se torna um veneno para o organismo. Me livrei do mal a tempo”. Luiz Carlos é da cidade de Lapa, no Sul do Paraná, caminhoneiro há 12 anos, não sabe o que é ter outra atividade. Ao contrário de muitos caminhoneiros que seguem nesta profissão por influência de algum parente, ele afirma que sempre quis ser caminhoneiro, mas que não teve muitas chances de escolher.
“Aprendi a dirigir com 13 anos, e sempre quis ser caminhoneiro. Boa parte dos homens da minha cidade acabam seguindo essa profissão por falta de oportunidades”. Ele se refere ao fato de não existirem muitas opções de emprego em um município pequeno e com a economia voltada para a produção agrícola. “A necessidade de trabalhar e ajudar nas despesas da casa torna o transporte de carga a única alternativa para quem não quer trabalhar com agricultura”. Ele também recorda que na época em que começou a trabalhar o valor do frete era bem melhor que hoje. “Os valores estão congelados há cerca de sete anos, enquanto as despesas com a viagem, que saem do total pago pelo serviço sobem cada vez mais”. Mesmo assim, ele afirma que se pudesse voltar ao passado, optaria novamente pela profissão de caminhoneiro. “Não tive oportunidade de estudar e teria que seguir a mesma profissão. Infelizmente, pouca coisa mudou nestes anos e muitos jovens da minha cidade seguirão o mesmo caminho que eu e muitos de meus colegas de trabalho”. O fato de Lapa ser uma cidade onde existe muitos caminhoneiros torna cada parada um ponto de encontro de cidadãos lapenses. “Sempre sigo viagem com um ou dois caminhões me acompanhando”. De acordo com Luiz, viajar na companhia dos colegas ajuda a diminuir a solidão na estrada e dá uma sensação maior de segurança. “Outra vantagem é diminuir os custos com alimentação, pois compramos os ingredientes em grupo e tem sempre alguém para cozinhar nas paradas”, diz. Atualmente dirige um caminhão Iveco Eurotec, ano 2002, utilizado no transporte de grãos. Texto: Jorge Carvalho |