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Sonho de menino

Caminhoneiro afirma que nos últimos anos o valor do frete não aumentou, enquanto as despesas nas viagens dispararam

Cícero Pereira Leite não foge à regra da maioria dos caminhoneiros, que têm na profissão o sonho realizado de menino. Natural da cidade de Garça, interior de São Paulo, completou 35 anos atuando com transporte de carga. Por dois anos trabalhou em fazenda de gado em sua cidade, mas se tornou caminhoneiro assim que atingiu a idade necessária. “Quando completei 20 anos fui realizar o sonho de infância de ser caminhoneiro” diz, afirmando que na metade da década de 90 o sonho virou pesadelo.

Segundo ele, com o Plano Real, houve uma disparada no preço do óleo diesel e o valor do frete ficou estacionado. “Para se ter uma idéia, em 1999 o valor do litro do diesel não passava de R$ 55 centavos; hoje, custa quase 2 reais. Em contrapartida eu ganho o mesmo valor do frete daquela época”. Cícero também reclama do aumento dos pedágios nos últimos anos, pois se o frete ficou congelado, o valor pago no pedágio aumenta regularmente. “Tudo isso sai do bolso do caminhoneiro. O que ganho hoje praticamente cobre as despesas da viagem. O lucro mesmo, é mínimo”.

Tudo isso se soma a outros fatores como as más condições das estradas que provocam problemas mecânicos nos caminhões e representam gastos extras. Seu caminhão é um Mercedes-Benz 2013, ano 80, que segundo ele, tem manutenção barata. “Apesar de não trazer dores de cabeça, é um veículo antigo e precisa de manutenção constante. A sorte é que encontro peças de reposição facilmente quando necessário”, afirma. Por todos estes motivos, Cícero começa a pensar em se aposentar. Além do mais, ele sabe que o que ganha não permite que compre um caminhão mais novo. “Chega um momento na vida de todos que é preciso parar. Ainda não decidi a data, mas vou vender meu caminhão em breve”.

Em todos estes anos ele já passou por muita situações complicadas na estrada e tirou uma lição: nunca mais dirigir até tarde da noite. Isso não é por causa da falta de segurança que torna os caminhoneiros um alvo fácil para os ladrões, mas, em razão do sono; um inimigo mortal para quem trabalha com transporte de carga.

Assim, recorda de uma viagem quando estava saindo da cidade de Botucatu, interior de São Paulo, com uma carga de chapas de madeira aglomerada para entregar em São Paulo capital. Cícero conta que era cerca de 23 horas e estava no acesso para pegar a Rodovia Castelo Branco. Um carro de passeio fez uma ultrapassagem em alta velocidade. Quando estava quase entrando na rodovia, o motorista do carro foi surpreendido por um ônibus de viagem e teve que parar bruscamente. Para evitar um choque certo, Cícero jogou o caminhão para o acostamento. Mas não sabia que ali havia uma valeta.

Apesar de reduzir a velocidade, o peso da carga fez o caminhão descer vários metros vala a dentro e tombar. “Me machuquei no acidente, mas consegui sair com vida. Acredito que se não estivesse cansado e com sono teria reflexos para evitar o acidente e não cair na vala”. A partir desse dia, não dirigiu mais após às 22 horas. Quanto ao motorista do carro de passeio, foi embora, e provavelmente, não tomou conhecimento do que aconteceu.

Texto: Jorge Carvalho

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