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Caminhoneiro arrependido

Ele deixou a construção civil para ser caminhoneiro, mas agora quer voltar para o canteiro de obras

Por 16 anos, o paranaense de Foz do Iguaçu, Benedito Valença trabalhou em grandes obras da construção civil como barragens e usinas hidrelétricas. No entanto, os canteiros de obras estavam ficando cada vez mais longe de casa. “Como eram obras grandes, tinha que ir para outras cidades e chegava a ficar longe de casa entre seis a oito meses no ano. Vi uma possibilidade de passar mais tempo com minha família ao me tornar caminhoneiro”. Há 16 anos ele trabalha com transporte de carga e escolheu as rotas do Mercosul como itinerário habitual. Segundo ele, caminhoneiro não escolhe trabalho e precisa transportar de tudo para ganhar a vida. “Transporto de grãos de cereais a eletrodomésticos”.

Para Benedito, a profissão já foi melhor remunerada e hoje ele pensa até em voltar a trabalhar na construção civil. “A concorrência é muito grande e as transportadoras exigem muito de nós ao impor prazos curtos, longas distâncias e baixo valor de frete. O que sobra, mal dá para as despesas familiares”. Casado há 29 anos e pai de dois filhos, recorda que sua esposa não gostou da sua idéia de trocar de profissão. “A fama de aventureiro, farrista e mulherengo dos caminhoneiros a deixou preocupada. Mas quando ela descobriu que eu iria ficar mais tempo em casa acabou aceitando”.

De acordo com o paranaense, a única vantagem é o fato de ele mesmo determinar o tempo das suas viagens. “Fico no máximo, dez dias longe de casa”. Ele é proprietário de um Mercedes-Benz 1935, ano 92, mas nem o fato de ter o próprio caminhão proporciona melhores condições na disputa pelo trabalho. “No momento não tenho condições de ter um caminhão melhor e as empresas dão preferência para quem tem um caminhão mais novo”.

As histórias na estrada são muitas, mas entre todas as situações que viveu há uma em especial que Benedito não esquece. Em uma noite fria de 1999, ele passava com seu caminhão por uma rodovia na região do município de Pato Branco, no Paraná. Não havia casas naquele trecho da estrada e nem de longe se via outro veículo. De repente, ele percebeu alguém andando na direção do caminhão. “Quando cheguei perto pude ver que era uma menina”. Segundo conta, quando estava bem próximo, a menina se jogou na frente de caminhão. Por puro reflexo ele jogou o veículo para o acostamento. Mas o susto maior ainda estava por vir. Quando olhou para o lado viu que a garota estava agarrada à porta do lado de fora do veículo tentando falar com ele pela janela. “Parecia que ela estava pedindo ajuda, mas fiquei tão assustado que não quis ouvi-la. Liguei o caminhão e só queria sair de lá. Nem olhei para o lado e juro, alguns metros depois ela havia desaparecido. A imagem da menina era nítida demais. Até hoje lembro desse caso e fico pensando naquela noite assustadora”.

Texto: Jorge Carvalho

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