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Ossos do ofício

Publicado em 20/08/2008

Ossos do ofício

As longas viagens e a distância da família atrapalham um pouco a vida de José Antônio, mas ele não troca a vida na estrada por nada

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Josias Carrasco abraça o tio com a certeza que seu caminho não é a estrada

Texto e fotos: Jorge Carvalho

Apesar de não ter dado continuidade aos estudos e por ter começado a trabalhar muito jovem, José Antônio dos Santos sabe que fez uma boa escolha profissional. Caminhoneiro há 26 anos, foi lavrador em fazendas de café e laranja na região de Itápolis, interior de São Paulo, onde mora. “Fazia de tudo na lavoura. Capinava e semeava a terra, borrifava veneno nas plantações e colhia a safra. Era uma vida dura.”

Segundo explica, a rotina de trabalho o impediu de estudar além da 4ª série do primário, (hoje ensino fundamental). Mesmo assim, queria mudar de ares e deixar a dureza da vida no campo. Para ele, voltar para a escola aos 22 anos era algo impossível. Havia ainda o fato de não ter nenhuma qualificação profissional. “Nunca havia feito nada além de cuidar da roça. Não sabia nada de construção ou mecânica. Como já tinha habilitação, o jeito foi encarar a rotina na estrada.”

O primeiro contato com caminhão veio por meio dos primos e do cunhado que eram caminhoneiros. Sentiu que tinha jeito para o trabalho e não largou mais. “Depois que senti a febre da estrada não me curei mais. Além de gostar do trabalho logo de cara, descobri algo que sabia fazer bem.”

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O Mercedez-Benz 1513, ano 1983, leva metade do seu salário

Embora não esconda que adora o que faz, José reclama que seu trabalho sempre atrapalhou sua vida pessoal. As viagens constantes e os longos períodos longe da família representam o lado ruim da profissão. Hoje, com seu Mercedez-Benz 1513, ano 1983, optou por fazer rotas mais curtas e assim ficar mais tempo com a família. Ele recorda que chegou a perder compromissos importantes por estar viajando. “Foram muitas vezes, mas uma ocasião que me marcou foi quando não pude ser padrinho de casamento de um amigo porque não consegui chegar a tempo para a cerimônia. Tiveram que chamar um substituto às pressas.”

Lamentando o ocorrido, José Antônio diz que, apesar desses contratempos tem consciência que seria impossível conseguir outro emprego que trouxesse a mesma remuneração para sustentar a família dignamente. Ele diz que chega a ganhar por mês cerca de R$ 5.000,00. Do total, R$ 2.500,00 vão para manutenção e seguro do veículo. O restante é para as despesas familiares. “Se eu fosse trabalhar em qualquer outra área não teria esta renda. É por isso que não deixo a estrada”, diz.

Nesta última viagem, José Antônio teve a companhia do sobrinho. Técnico agrícola formado, Josias Carrasco trabalhou por um ano e meio em uma empresa da área de insumos agrícolas e está desempregado há quatro meses. Com o tio, o rapaz já esteve em algumas cidades do interior paulista como Barretos e Ribeirão Preto. Apesar de gostar da possibilidade de conhecer lugares novos, não tem planos de se tornar caminhoneiro. “Quero voltar para minha área. A rotina na estrada é muito dura. Essa vida não é para mim.”



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