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Morador da estrada

Publicado em 13/08/2008

Morador da estrada

Por passar tanto tempo viajando, Salmo Ferreira brinca ao dizer que sua casa é mesmo a cabine do caminhão

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O Mercedes 1113 ano 1978, o “velho companheiro”, nunca o deixou na mão

Texto e fotos: Jorge Carvalho

Caminhoneiro há mais de 20 anos, Salmo Ferreira é catarinense de Gaspar, cidade de Santa Catarina próxima ao Balneário Camboriú, litoral do Estado. Com seu caminhão Mercedes 1113 ano 1978, faz viagens freqüentes a São Paulo e grandes cidades do Nordeste como Recife e Fortaleza. Mas isso não acontece porque escolheu estes roteiros.

Segundo ele mesmo conta, o fato de ter um caminhão com trinta anos de rodagem impede que ele consiga mais trabalhos em seu Estado natal. Por isso vem muito a São Paulo, onde há maior oferta de trabalho para quem tem um veículo de carga que não importa se é novo ou antigo. “As transportadoras da região onde moro preferem contratar os serviços de quem tem um caminhão a partir de 1990. Quem depende de caminhão mais antigo, como eu, acaba tendo que procurar cargas em outros Estados.”Por passar tanto tempo longe de casa, ele até brinca ao dizer que só vai à Gaspar para passear, pois sua casa é mesmo a cabine do caminhão.

Em média, ele passa de três a quatro meses viajando para conseguir ganhar o pão da família. Nesta última viagem, para diminuir um pouco a saudade da família, Salmo trouxe o filho caçula, Gideão, de 11 anos, para acompanhá-lo.

O menino já viajou várias vezes com o pai e já faz planos de ser caminhoneiro quando tiver a idade certa. “Me criei no caminhão e acho que está no sangue da gente gostar da estrada. Conheço todos os problemas pelos quais passa um caminhoneiro e não ligo para as dificuldades”, diz com jeito de adulto.

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Gideão, de tanto acompanhar o pai, já decidiu: vai ser caminhoneiro

O pai, no entanto, não quer que o filho siga a mesma profissão e diz que fará o que puder para fazer o filho mudar de idéia. “Quero que ele estude e tenha uma profissão mais segura e tranqüila. Essa vida é muito dura e sofrida. Não quero isso para o meu filho.”

Mas apesar de todas as dificuldades, Salmo não reclama da vida que leva e nem do veículo que possui pois, embora esteja bem rodado, seu “velho companheiro” nunca o deixou na mão. “Como sou autônomo, a manutenção fica por minha conta. Mesmo sem ter os conhecimentos de um mecânico, sou muito curioso e mexo no que é necessário. Vou remendando e levando do que jeito que dá.”

Isso não quer dizer que os problemas não existam. Ele conta que recentemente teve um gasto de R$2.700,00 para trocar algumas peças do veículo. “O prejuízo sobra para quem é dono de caminhão e não pode comprar um novo. Mesmo assim, o jeito é ir em frente. Felizmente, estes gastos extras são eventuais. Além do mais, eu não poderia arcar com as prestações de um caminhão novo. Tenho outras prioridades.”

Ao falar do assunto, o catarinense cita o exemplo de amigos que compraram caminhões mais novos e não conseguiram arcar com as prestações. “Se atrasar uma só que seja, vira uma bola de neve. Prefiro ter o nome limpo e só arriscar uma troca quando for realmente possível.”

Se pudesse comprar um caminhão novo, compraria algum dos modelos da Mercedes-Benz. “Nem precisaria ser do ano, poderia ser um modelo entre 90 e 98. Mas são apenas planos.”

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