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Sério sim, mal-humorado nunca

Publicado em 09/07/2008

Preparado para mudança

Após perder o emprego de segurança, foi ser caminhoneiro para sustentar a família

Texto e fotos: Jorge Carvalho

Ter de mudar de atividade em razão do desemprego é uma coisa que pode acontecer a qualquer um. Foi assim que o pernambucano de Garanhuns, Márcio Xavier da Silva, tornou-se caminhoneiro. Ele é da cidade natal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nasceu quando o atual município de Caetés ainda era um distrito integrante de Garanhuns. O município também é conhecido como a “Suíça Pernambucana”, por causa de seu clima ameno no verão e temperaturas baixas no inverno, atípico da região onde está localizada.

Márcio tornou-se caminhoneiro há cinco anos. Antes disso foi segurança patrimonial em uma fábrica de tecidos em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Após trabalhar por vários anos na mesma área, perdeu o emprego na confecção e durante um ano tentou voltar a ser segurança, sem ter sucesso.

Seu primo, que também morava em São Paulo e já trabalhava como caminhoneiro, resolveu dar-lhe uma “força” e o chamou para trabalhar com ele como ajudante nas viagens. “Ele me dizia que trabalhar com transporte de carga seria bom, pois não me faltaria trabalho.” Diante da situação, Márcio aceitou. “Precisava trabalhar, tinha família para sustentar e arranjar emprego estava muito difícil.”

A primeira viagem, rumo a Curitiba, no Paraná, foi para conhecer como era a rotina na estrada. Por insistência do primo, acabou dirigindo o caminhão algumas vezes em trechos curtos. “Na primeira vez que ele me ofereceu o caminhão, fiquei trêmulo. Não sabia nem o que dizer, porque nunca havia pego no volante de um veículo daquele tamanho. Mas logo ao sentar no banco do motorista tive uma sensação muito prazerosa.”

Resultado da experiência: Em pouco tempo Márcio tirou a habilitação e foi trabalhar como caminhoneiro. “Deu certo mesmo. Arrumei emprego em uma transportadora como ‘cegonheiro’ e nunca mais parei.”

O pernambucano explica que o começo não foi muito fácil. Ele já estava acostumado a dirigir carros de passeio, mas com um caminhão era outra história. “As diferenças são enormes, a começar pela altura e a visão que se tem da pista. Além disso, um caminhão chega a ter 16 marchas, muito mais que um carro comum.”

Outra características que Márcio estranhou foi o sistema de freios. “Ao frear um carro a resposta é imediata. No entanto, um caminhão demora muito mais e vai percorrer cerca de cem metros antes de parar. Se tiver algum obstáculo na pista a batida é inevitável. Tive que me acostumar a tudo isso.”

A primeira viagem sozinho foi para Santa Catarina. O nervosismo era grande e para relaxar um pouco ele lembrava das orientações do primo que o incentivou a entrar no ramo. “Foi muito curioso, mas em certos momentos era como se ele estivesse ali, me dizendo o que fazer. No final das contas correu tudo muito bem.”

Hoje, ele voltou a morar na cidade onde nasceu e faz com freqüência a rota São Paulo-Pernambuco, com seu caminhão Mercedes-Benz 1418 ano 1994. Religioso, no porta-luvas da cabine leva sempre uma bíblia, que lê enquanto espera pela carga. “A vida na estrada é difícil e a saudade da família dói muito. Chego a ficar de um a dois meses longe de casa. É na palavra de Deus que encontro conforto e forças para continuar na profissão.”

Gaúcho de Porto Alegre - RS, cidade que tem uma posição estratégica na exportação de produtos brasileiros para os países que formam o Mercosul (Mercado Comum do Sul) pois está a 1.048 km de Buenos Aires, na Argentina, e a 2.408 km de Santiago, no Chile, só para citar alguns exemplos. Não é à toa que a cidade é definida como “Capital do Mercosul.”

Por viver na capital gaúcha, durante 14 anos Luiz fez as rotas que ligam Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. “Naquela época eu transportava de tudo. De grãos a peças de automóveis. A vida na estrada é assim, ninguém escolhe trabalho. Desde que não seja nada ilegal, é claro.”

Segundo ele, a maior diferença entre rodar no Brasil e nas estradas destes países é a forma como a Polícia Rodoviária realiza o seu trabalho.

Ao longo de quatro décadas de profissão, ele passou a ter seus roteiros prediletos pelo Brasil. “Meu destino preferido é o Nordeste por causa do clima, principalmente, Fortaleza. Sou um gaúcho que não gosta de frio.”

Mas existem aqueles lugares em que só vai mesmo com seu Scania, modelo P 93 ano 1988, por motivos de trabalho. “Só venho para São Paulo por obrigação. Não gosto da confusão que existe na cidade. Gosto de tranqüilidade.”

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