Publicado em 25/06/2008
Caminhoneiro mirim
Nelson Domingues teve uma infância diferente da de outros meninos de sua idade: não brincava de carrinho; dirigia caminhões de gente grande

Texto e fotos: Jorge Carvalho
Alguém imagina uma criança de 13 anos dirigindo um caminhão por uma estrada em péssimas condições no interior do Estado de São Paulo? Pois foi assim que Nelson Domingues fez a sua primeira viagem de trabalho. Paulista de Itararé, cidade que fica na divisa com o Estado do Paraná, ele, ainda criança precisou ajudar o pai a garantir comida na mesa da família.
Caminhoneiro há mais de quarenta anos, conta que foi a primeira experiência, atrás da direção, na boléia de um caminhão, aos 13 anos, que mostrou que seu futuro seria a estrada.
Foi o pai, que trabalhava com transporte de carga, que o encarregou de assumir o volante do caminhão que garantia o sustento da família quando adoeceu. Dos 14 irmãos, oito homens, Nelson foi o único que seguiu na profissão. “Meu pai achou que eu levava mais jeito para ser caminhoneiro e me encarregou de fazer as entregas no velho Chevrolet 46. Para ter uma idéia, eu nasci em 1947. O caminhão era mais velho que eu”, diz com ar divertido.
A trajetória de Nelson na estrada começou quando o pai foi mordido por um cão com o vírus da raiva. No homem, os sintomas são febre intensa com temperaturas que podem chegar a mais de 40ºC acompanhada de dores de cabeça e depressão nervosa, além de formigamento, perda de sensibilidade no local agredido e náuseas, entre outros. O tratamento não foi o adequado e o problema de saúde se estendeu por muito mais tempo do que deveria.

Foi aí que, aos 13 anos, Nelson passou a dirigir o veículo enquanto o pai ia dizendo o que ele deveria fazer. “Eu tinha alguma noção de como dirigir o caminhão, pois desde muito pequeno já observava como meu pai fazia. Com a orientação dele ficava um pouco mais fácil conduzir.”
A primeira viagem foi de cerca de 80 quilômetros entre Itararé e Itaporanga, por uma estrada de terra e toda esburacada para levar uma debulhadora de milho até uma fazenda. Mesmo diante das dificuldades e com a pouca idade, o pequeno Nelson não fugiu do desafio. “Além dos buracos, havia muitas ondulações, pontes estreitas e tudo mais de ruim que poderia aparecer. Eu me senti um verdadeiro caminhoneiro. Me senti importante.”
Aos 16 anos veio a primeira viagem longa. Um amigo do pai que o observava dirigindo o velho Chevrolet 46 pediu para acompanhá-lo em uma entrega de produtos agrícolas, no Ceasa, na cidade de São Paulo. “Ele queria, na verdade, alguém para revezar com ele na direção. Ele dirigia durante o dia e eu à noite. Aquela experiência foi muito boa para encarar as futuras viagens.”
Aos 17 anos, Nelson decidiu sair de casa. Trabalhou como garçom para sobreviver. “Eu já sabia que seria caminhoneiro um dia, mas ainda não tinha idade para ter carteira de motorista. Mas também não queria depender de meu pai para nada. Fui em busca do meu lugar no mundo”, conta com o orgulho de quem venceu.
Assim, Nelson morou em Santos e em São Paulo, onde foi taxista e motorista de ônibus de viagem. Juntou dinheiro e comprou seu próprio caminhão. Hoje dirige um Mercedes-Benz 1935 ano 1996 e se sente um homem realizado.
“Fiz tudo que tive vontade de fazer e não me arrependo de nada. Se pudesse voltar no tempo faria tudo de novo.”