Publicado em 18/06/2008
Ponto de encontro na estrada
Em uma família de caminhoneiros que passa semanas viajando, os encontros em alguma estrada do Brasil são muito normais

Texto e fotos: Jorge Carvalho
Os integrantes de uma família de médicos encontram-se nos hospitais. Já uma família de advogados acaba se encontrando nos tribunais. E uma família de caminhoneiros? Encontra-se na estrada. Pelo menos é assim com a família de João Danilo Ferreira, que tem pai e irmãos que trabalham com transporte de cargas. Ele é de Maringá, no Paraná, e é caminhoneiro há apenas um ano e meio. Antes disso, trabalhou por alguns anos como auxiliar de escritório no maior hotel da cidade. Ele diz que tentou seguir outro caminho, mas não conseguiu se manter longe da vida na estrada.
João Danilo afirma que praticamente nasceu dentro de um caminhão e que desde muito pequeno já acompanhava o pai em alguns compromissos de trabalho, porém não recorda qual foi a primeira vez em que o acompanhou, mas diz que a que mais o marcou foi a primeira vez que esteve em São Paulo. “Estava com cerca de seis anos e lembro que nunca tinha visto tantos viadutos e passarelas e, é claro, muitos veículos. Estas são as recordações mais antigas das viagens que fiz ao lado de meu pai.”
Influências familiares à parte, João Danilo diz que cresceu sabendo de todas as dificuldades que um caminhoneiro passa na estrada. Não apenas pelo que o pai contava, mas sentia sua ausência em diversas ocasiões importantes como o aniversário de alguém da família e outras datas festivas. João Danilo economizou o máximo que pôde e quando sentiu que estava pronto, largou o emprego de auxiliar de escritório e investiu tudo o que guardou na compra de um Mercedes-Benz 1113 ano 1979 que, segundo ele, tem fácil manutenção. “Estava cansado de ser empregado, ter que cumprir horários e receber ordens. Queria mais liberdade e independência.”

De acordo com o caminhoneiro, a decisão até o momento tem se mostrado válida e para ele foi um bom negócio. “Consegui realizar um desejo e hoje ganho mais do que quando era empregado. Mas para ser caminhoneiro tem que gostar do que faz, senão acaba não agüentando o tranco.”
A primeira viagem de trabalho foi a Salvador, na Bahia, para fazer uma entrega de móveis estofados. Ele afirma ter ficado apreensivo com as condições das estradas no trajeto e o risco de acidentes, mas não demorou para sentir-se tranqüilo. “Até aquele dia só havia ido à Bahia apenas uma vez com meu pai e não conhecia bem o caminho. Mas o nervosismo só durou alguns quilômetros. Logo estava me sentindo mais à vontade.”
João Danilo é o mais novo entre os três irmãos e diz com bom humor que a estrada virou o ponto de encontro dos caminhoneiros da família. Ele conta que não é raro cruzar com o pai ou irmãos em alguma das estradas do Brasil. “Por várias vezes passo por meu pai em alguma estrada e damos sinal de farol um para o outro. Quando isso acontece, paramos no acostamento e aproveitamos para pôr a conversa em dia. Outro dia encontrei meu irmão no terminal de cargas da rodovia Fernão Dias; eu me preparando para ir para Belém e ele para Fortaleza. É até engraçado, mas os vejo mais fora do que em casa.”
De acordo com o rapaz, eles chegam a ficar semanas fora de casa e a estrada virou uma espécie de ponto de encontro. “Se alguém quiser nos encontrar, não deve procurar em casa, é só sair e ver as estradas.”