Publicado em 04/06/2008
Em busca de emoções

Vanderlei Vieira trocou a rotina no campo pela vida na estrada
Texto e fotos: Jorge Carvalho
Muitos caminhoneiros vêem em sua profissão, além da oportunidade de ganhar a vida, uma forma de viver novas emoções.
Foi assim com Vanderlei Severo Vieira, que vive na cidade de São Luís Gonzaga, no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Caminhoneiro há 19 anos, ele conta que aos 14 anos foi trabalhar em uma fazenda, onde começou a dirigir máquinas agrícolas como tratores e colheitadeiras.
Foi aí que veio o desejo de ser caminhoneiro. “Na mesma época também comecei a pegar os caminhões da fazenda para aprender a manobrar. Quando completei 18 anos tirei a habilitação e caí na estrada. Queria conhecer lugares diferentes.”
Começou entregando leite nos laticínios das cidades vizinhas ao município onde morava. Em pouco tempo, passou a percorrer rotas mais longas. Sua primeira viagem para fora do seu Estado natal foi para São Paulo. Vanderlei viajou com uma carga de ração para cães e lembra de tudo como se fosse ontem. “Foi muito excitante. Afinal, eu era muito jovem e estava bastante ansioso. Queria chegar logo e ver como era a cidade de São Paulo.”
Ele afirma que não teve medo de encarar o desafio, mas pedia muitas informações aos caminhoneiros mais experientes para não ter problemas no trajeto. Segundo ele, a falta de segurança na estrada e os roubos de carga sempre existiram e isso não o preocupava. As recomendações que os mais velhos costumavam passar eram em relação à prudência ao dirigir na viagem. “Eles falavam para eu sempre reduzir a velocidade ao descer uma serra ou não dirigir com sono.”

O caminhoneiro declara que hoje, por muitas vezes, se vê em situação inversa a que viveu quando começou a trabalhar com transporte de carga. “Agora, eu é que oriento os mais jovens que desconhecem os macetes da profissão.” Na sua opinião, quem tem mais vivência deve passar seus conhecimentos aos principiantes, pois a vida na estrada é dura e companheirismo é fundamental. “Gosto de trocar experiências com os mais jovens, da mesma forma que fizeram comigo. Sempre fui muito bem orientado quando precisei e aproveitei todos os conhecimentos que adquiri. Agora, quero passar isso adiante.”
Para Vanderlei, um local decente para um banho e o preço das refeições nas paradas representam uma das maiores desvantagens para os caminhoneiros. De acordo com ele, em muitos postos existe horário para usar os chuveiros. “Dependendo do horário que se chegar ao local, a higiene pessoal fica para o dia seguinte.”
Exigente com a alimentação, ele mesmo prefere preparar suas refeições e leva todos os apetrechos de cozinha (fogão, panelas, temperos) a bordo do Mercedes-Benz 524 ano 1986 que dirige pelo País. “Os restaurantes na estrada, além de caros, não oferecem uma boa comida. Durante as viagens eu mesmo cozinho. Modéstia à parte meu tempero é muito bom.”
Com dois filhos, um com 18 e outro com 12 anos, ele afirma estar aliviado pelo fato deles não manifestarem interesse pela vida de caminhoneiro. O mais velho está bem empregado em uma siderúrgica. Já o caçula quer seguir a carreira militar. “Não quero esta vida para eles. Admito que gosto do que faço. Mas as dificuldades são muitas.”