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Publicado em 14/05/2008

Volta por cima

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Hildor Doeck

Ele precisou superar a dor da perda de um filho para continuar a “tocar” a vida na estrada

Texto e fotos: Jorge Carvalho

Todo colega de estrada sabe que as dificuldades encontradas nas viagens são muitas. Também são muitos os dramas pessoais que alguns caminhoneiros carregam e poucas vezes falam a respeito. Muitas vezes é necessário superar perdas e buscar forças em lugares e situações onde parece não haver, na tentativa de superar uma perda dolorosa. É muito bom falar do lado aventureiro e divertido da vida na estrada.

Porém, nem tudo é um asfalto plano... É sempre bom lembrar que a maioria dos caminhoneiros têm histórias dignas de um roteiro de novela. É o caso de Hildor Doeck, gaúcho de Uruguaiana, que trabalha como caminhoneiro desde os 19 anos. Antes disso, foi agricultor e trabalhava na fazenda do pai no plantio de grãos como soja e milho. Ao completar 18 anos alistou-se no serviço militar e acabou servindo à Pátria por quase um ano.

Ao deixar o Exército, não quis voltar a trabalhar na “roça”. “Até aquele momento só havia lidado com lavoura. O tempo do serviço militar serviu para mostrar que no mundo havia muito mais a ser visto. Ao sair da fazenda, notei que poderia fazer algo novo. Optei pelo transporte de cargas.”

Hildor comprou um caminhão Mercedes-Benz 608 e passou a realizar entregas de leite em um laticínio do município de Santa Maria. “Fiquei fazendo as entregas por nove anos, até que veio uma crise brava e o laticínio teve de fechar as portas.”

Ele recorda que a empresa atrasou por vários meses o pagamento dos funcionários. Sem dinheiro e precisando trabalhar, o jeito foi vender o caminhão para quitar as dívidas acumuladas e empregar-se em uma transportadora.

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Hildor Doeck

Durante os 30 anos que trabalha como caminhoneiro, Hildor afirma nunca ter passado por “apertos” na estrada. Motorista prudente, ele respeita os limites de velocidade e não dirige com sono para evitar acidentes.

Mesmo assim, houve um momento em que ele quase largou tudo em razão da doença de um filho. O ano era 1996 e o garoto Diego, que na época tinha 12 anos, desenvolveu leucemia. Precisou vender quase tudo que tinha para arcar com as despesas do tratamento do filho. Até a casa onde morava quase foi vendida. “Ofereci pela metade do valor. Mas não achei comprador.”

Mesmo com todo o empenho do pai, o menino não resistiu à doença e faleceu. “Foi muita dor. É horrível ver um filho morrer e não poder fazer nada. Quis desistir de tudo. Reuni todas as forças que me restavam e fui tentar ‘tocar’ a vida.”

Hoje, no caminhão Mercedes-Benz 1113 ano 85, costuma fazer a rota Brasil-Argentina-Chile levando e trazendo produtos como peças para automóveis e eletrodomésticos. Ele vem muito a São Paulo e diz estar um tanto temeroso em relação ao estudo que está sendo feito pela prefeitura da capital paulista, que pretende proibir a circulação de caminhões entre 5h e 21h. Se o decreto for aprovado, as entregas em um raio de 100 quilômetros do Centro só poderão ser feitas à noite e de madrugada. “A grande preocupação para os caminhoneiros é quanto à segurança nos horários das entregas. Se ficarmos limitados a circular apenas à noite estaremos mais sujeitos aos assaltos.”

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