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Publicado em 29/08/2002

Veneno - Fábrica de sonhos



veneno52a.gif (17751 bytes)Sexta-feira última, eu perdido em Santo André. Calor pacas! Uno sem ar-condicionado. Ligo pro
Cleber:
— Por favor, vem me buscar! Tô aqui em frente aos bombeiros! Já viajei de Pirassununga até aqui, tô perdido faz tempo e daqui a pouco vou começar a chorar largado na calçada! Help!
— Não chora não que o Márcio já tá indo aí. Cê tá pertinho, güenta a mão.

Veio o Márcio, segui o Márcio. Penso: Caramba! Era fácil mesmo! Acho que tô meio esgotadão e só agora é que me dou conta que estou indo pra dar umas voltas de Cobra. É pra eu tá contente!
Numa rua calma fica a oficina de acabamento da Americar Veículos. Em outro barracão é que são feitos os moldes e chassis dos carros esportivos que o Cleber Jean fabrica. Desde 95 a Americar produz réplicas em fibra do modelo Willys 1940, coupé e picape e, desde 97 começou com os Cobra, também para nosso deleite.

Rex, viralatão simpático, me dá as boas-vindas cheirando minhas calças e fazendo festa. Cleber me conduz ao barracão dos fundos. Meus olhos arregalam-se, sorrio. Tem um Cobra preto me esperando. Lindo... brilhando; pára-lamas musculosos, rodas cromadas, capôzão abrigando um veoitão, escapes laterais com boconas prontas para chacoalhar tudo o que estiver em volta, bancos em concha pra eu me encaixar...
Controlo-me. Sou profissa. Primeiro as perguntas, anotações, observar detalhes, depois... andar no bicho. Vontade eu tinha era de pular pra dentro e sair babando.

veneno52b.gif (18913 bytes)Observo detalhes de acabamento. Forração, painel, volante, pintura, cromados, acomodação do motor e disposição de mangueiras, correias, ventilador de radiador, fiação, porta-malas, pneus, santoantônio, alavanca de câmbio, pedais. Bah! Tudo muito bem acabado. Esmero, amor pelo que faz, experiência.

Suspensão igual a do Opala Diplomata 92. Freios a disco nas quatro rodas. Chassis tubular quadrado, baseado no modelo original americano. Mil quilos de peso total. Motor, dos que Cleber vende prontos, (os gringos chamam de “turn-key”, só virar a chave) são do Mustang/Maverick, o Ford 302 mas, este, que vamos andar, o comprador tinha um Chevrolet 350 de um Camaro 92, e Cleber tratou de bem acomodá-lo no Cobrão. Radiador enorme, inclinado, pra afastar possíveis problemas de superaquecimento.
Cabem motores maiores, os “big-blocks” 427, 454. Se o proprietário quiser, cabem, mas não precisa, estes motores 302, com um bom quadrijet e o pouco peso que têm pra carregar, já fazem miséria. Mais preparados, comando, taxa e outros cuidados bem trabalhados elevam a potência para uns 350 cavalos, fácil fácil, dá pra alucinar, dá sim. Acredito que também por serem mais leves que os “big-blocks” devam proporcionar uma dinâmica melhor, melhor distribuição de peso, com a conseqüente superioridade em agilidade e estabilidade. Pra quem gosta do todo, do conjunto formado, creio ser o ideal.

veneno52c.gif (19061 bytes)Márcio, o meu salvador da calçada da amargura, sacou que era hora de virar a manivela. Debruça-se por sobre a porta e dá um toque na chave... bvruummm... rumm... rumm... rum. Como viram macios esses veoito! Potentes e macios. Tomo uma Coca refrescante enquanto esquentam os ferros do motor. Márcio sai na picape, ele vai atrás do Cleber e eu, para que depois eu dê uma tocada nessa Hot-Willys, de sobremesa.

Sento ao volante. Encaixo. Costas ajustadas para suportar curvas fortes, pedais já debaixo dos pés, volante na altura e distância certas, capô preto, brilhante, ondas negras à minha frente, longo e bojudo, poderoso.

Saio devagar, viro na rua, rua de paralelepípedos em descida. Acelero pra ver se chacoalha. Não chacoalha. Acelera mostrando que é carro de gente grande. Penso: Agora não dá, mas daqui a pouco vou achar o teu fundo. Me espera bichão que aqui tem quem te encara, não vem intimidando não!
Paramos no posto, vamos contribuir com a Petrobrás, nossa OPEP particular. Enche de gente. Desce neguinho dos carros, começam as perguntas... temos que abrir o capô... olhos arregalados, sorrisos... Eu, invejado ao volante, logo ia falando:
— O Cleber aí é que é o artista. Ele que fabrica. Tô só testando pro SuperAuto.
— Chato héim! Sacrifííício né! —os caras.
Sorrisos.
Saio acelerando forte pra farra dos espectadores. Deixo marcada minha passagem pelo chão liso
do posto.
Vamos a umas quebradas que o Cleber conhece, avenidonas largas que ligam nada a lugar nenhum, não passa ninguém. Acelero o torcudo motor 350, os pneus cantam, o carro dá uns pulinhos em pequenas irregularidades...
— Cleber. Os pneus tão muito cheios. Dá pra dar uma murchada? Pra mim, parece que devem estar com umas trinta libras, o carro é leve, tá demais, perde grip.— pedi.
Paramos e murchamos uns 40 segundos cada pneu. Quatro segundos para cada libra a diminuir. Agora devem estar com umas vinte.

Saio queimando de novo. Carro gruda no chão, motor faz força, sinto a força dele por todo o lado, as coisas começam a andar rápido e tenho que ficar ligado para acompanhar o que acontece e prever o que pode acontecer. Deve estar fazendo de zero a cem na casa dos cinco segundos, perto dos seis. O carro obedece a tudo que mando, é muito ágil, sensível e inspira confiança. O melhor Cobra que já guiei. O mais equilibrado. Perdi a cisma que tinha. Cisma de que saíam de frente e depois chicoteavam a traseira, que entravam em pêndulo (já pendulei com um), que eram estúpidos.

Conclusão: há Cobras e Cobras. Há os bons e os enganadores, bonitinhos por fora, mas medíocres como trabalho de chassis e suspensão. Os da Americar são plenamente satisfatórios para quem, além de fazer farol, gosta de performance, gosta de ter o carro na mão e o freio no pé. Chassis transmitem rigidez. Suspensão trabalha com bom curso, mantendo sempre os pneus onde devem estar, ou seja, no chão e grudados. Posso fazer curvas abusando um pouco mais, acelero mais forte nas saídas delas, pra dar uma derrapada controlada, desgarrando de traseira, tenho que forçar mesmo para conseguir uma desgarradinha. Gosto, gosto, gosto!

veneno52d.gif (16336 bytes)Cleber me diz que prefere os motores Ford a este Chevrolet, por terem mais giro de final. O carro é leve, não precisa de tanto torque. Deve ter razão, ele conhece como ninguém.
Em pouco tempo estou completamente familiarizado com o maquinão e nos divertimos um bocado. Paramos numa bonita pracinha para as fotos. Mecânicos abandonam oficina em frente e vêm ver as máquinas reluzentes. Peço para ficarem do outro lado para aparecerem. Bato fotos. Digo que é pra G-Magazine, que vai ter homem ligando direto pra eles. Gozação, só a presença desses carros deixa todo mundo alegre. Eu cheguei cansado em Santo André, de viagem. Agora estou revigorado. Esse carro nos cura de muitos males. Vou voltar pra Pira, encarar estrada de novo. Mas tô contente, tô novo, tô que nem uma mula que você solta e deixa ela estralar as costas rolando na grama, pronto pra outra jornada. Fiz uns amigões, o Cleber, o Márcio e o Rex.

O duro foi pegar o Uninho mil e tocar de volta. Lembranças do Cobra, tê-lo nas mãos e continuar o sonho-bom. O Cleber falou que um dia faz um pra mim. Eu agüento esperar...



Telefone Americar Veículos:
(11) 4971-7297
Celular: (11) 9988-2661
www.americar@ig.com.br e www.americarveiculos.com.br


Obrigado, Cleber, gente-boa. Um beijo praquela sua filhinha linda dos cabelos perfumados, Arnaldo.

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Abração do amigo Arnaldo Keller

 

APOIO

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