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Sexta-feira última, eu perdido em Santo André. Calor pacas! Uno sem
ar-condicionado. Ligo pro
Cleber:
Por favor, vem me buscar! Tô aqui em frente aos bombeiros! Já viajei de
Pirassununga até aqui, tô perdido faz tempo e daqui a pouco vou começar a chorar
largado na calçada! Help!
Não chora não que o Márcio já tá indo aí. Cê tá pertinho, güenta a mão.
Veio o Márcio, segui o Márcio. Penso: Caramba! Era fácil mesmo! Acho que tô meio
esgotadão e só agora é que me dou conta que estou indo pra dar umas voltas de Cobra. É
pra eu tá contente!
Numa rua calma fica a oficina de acabamento da Americar Veículos. Em outro barracão é
que são feitos os moldes e chassis dos carros esportivos que o Cleber Jean fabrica. Desde
95 a Americar produz réplicas em fibra do modelo Willys 1940, coupé e picape e, desde 97
começou com os Cobra, também para nosso deleite.
Rex, viralatão simpático, me dá as boas-vindas cheirando minhas calças e fazendo
festa. Cleber me conduz ao barracão dos fundos. Meus olhos arregalam-se, sorrio. Tem um
Cobra preto me esperando. Lindo... brilhando; pára-lamas musculosos, rodas cromadas,
capôzão abrigando um veoitão, escapes laterais com boconas prontas para chacoalhar tudo
o que estiver em volta, bancos em concha pra eu me encaixar...
Controlo-me. Sou profissa. Primeiro as perguntas, anotações, observar detalhes,
depois... andar no bicho. Vontade eu tinha era de pular pra dentro e sair babando.
Observo detalhes de acabamento. Forração, painel, volante, pintura, cromados,
acomodação do motor e disposição de mangueiras, correias, ventilador de radiador,
fiação, porta-malas, pneus, santoantônio, alavanca de câmbio, pedais. Bah! Tudo muito
bem acabado. Esmero, amor pelo que faz, experiência.
Suspensão igual a do Opala Diplomata 92. Freios a disco nas quatro rodas. Chassis tubular
quadrado, baseado no modelo original americano. Mil quilos de peso total. Motor, dos que
Cleber vende prontos, (os gringos chamam de turn-key, só virar a chave) são
do Mustang/Maverick, o Ford 302 mas, este, que vamos andar, o comprador tinha um Chevrolet
350 de um Camaro 92, e Cleber tratou de bem acomodá-lo no Cobrão. Radiador enorme,
inclinado, pra afastar possíveis problemas de superaquecimento.
Cabem motores maiores, os big-blocks 427, 454. Se o proprietário quiser,
cabem, mas não precisa, estes motores 302, com um bom quadrijet e o pouco peso que têm
pra carregar, já fazem miséria. Mais preparados, comando, taxa e outros cuidados bem
trabalhados elevam a potência para uns 350 cavalos, fácil fácil, dá pra alucinar, dá
sim. Acredito que também por serem mais leves que os big-blocks devam
proporcionar uma dinâmica melhor, melhor distribuição de peso, com a conseqüente
superioridade em agilidade e estabilidade. Pra quem gosta do todo, do conjunto formado,
creio ser o ideal.
Márcio, o meu salvador da calçada da amargura, sacou que era hora de virar a
manivela. Debruça-se por sobre a porta e dá um toque na chave... bvruummm... rumm...
rumm... rum. Como viram macios esses veoito! Potentes e macios. Tomo uma Coca refrescante
enquanto esquentam os ferros do motor. Márcio sai na picape, ele vai atrás do Cleber e
eu, para que depois eu dê uma tocada nessa Hot-Willys, de sobremesa.
Sento ao volante. Encaixo. Costas ajustadas para suportar curvas fortes, pedais já
debaixo dos pés, volante na altura e distância certas, capô preto, brilhante, ondas
negras à minha frente, longo e bojudo, poderoso.
Saio devagar, viro na rua, rua de paralelepípedos em descida. Acelero pra ver se
chacoalha. Não chacoalha. Acelera mostrando que é carro de gente grande. Penso: Agora
não dá, mas daqui a pouco vou achar o teu fundo. Me espera bichão que aqui tem quem te
encara, não vem intimidando não!
Paramos no posto, vamos contribuir com a Petrobrás, nossa OPEP particular. Enche de
gente. Desce neguinho dos carros, começam as perguntas... temos que abrir o capô...
olhos arregalados, sorrisos... Eu, invejado ao volante, logo ia falando:
O Cleber aí é que é o artista. Ele que fabrica. Tô só testando pro SuperAuto.
Chato héim! Sacrifííício né! os caras.
Sorrisos.
Saio acelerando forte pra farra dos espectadores. Deixo marcada minha passagem pelo chão
liso
do posto.
Vamos a umas quebradas que o Cleber conhece, avenidonas largas que ligam nada a lugar
nenhum, não passa ninguém. Acelero o torcudo motor 350, os pneus cantam, o carro dá uns
pulinhos em pequenas irregularidades...
Cleber. Os pneus tão muito cheios. Dá pra dar uma murchada? Pra mim, parece que
devem estar com umas trinta libras, o carro é leve, tá demais, perde grip. pedi.
Paramos e murchamos uns 40 segundos cada pneu. Quatro segundos para cada libra a diminuir.
Agora devem estar com umas vinte.
Saio queimando de novo. Carro gruda no chão, motor faz força, sinto a força dele por
todo o lado, as coisas começam a andar rápido e tenho que ficar ligado para acompanhar o
que acontece e prever o que pode acontecer. Deve estar fazendo de zero a cem na casa dos
cinco segundos, perto dos seis. O carro obedece a tudo que mando, é muito ágil,
sensível e inspira confiança. O melhor Cobra que já guiei. O mais equilibrado. Perdi a
cisma que tinha. Cisma de que saíam de frente e depois chicoteavam a traseira, que
entravam em pêndulo (já pendulei com um), que eram estúpidos.
Conclusão: há Cobras e Cobras. Há os bons e os enganadores, bonitinhos por fora, mas
medíocres como trabalho de chassis e suspensão. Os da Americar são plenamente
satisfatórios para quem, além de fazer farol, gosta de performance, gosta de ter o carro
na mão e o freio no pé. Chassis transmitem rigidez. Suspensão trabalha com bom curso,
mantendo sempre os pneus onde devem estar, ou seja, no chão e grudados. Posso fazer
curvas abusando um pouco mais, acelero mais forte nas saídas delas, pra dar uma derrapada
controlada, desgarrando de traseira, tenho que forçar mesmo para conseguir uma
desgarradinha. Gosto, gosto, gosto!
Cleber me diz que prefere os motores Ford a este Chevrolet, por terem mais giro
de final. O carro é leve, não precisa de tanto torque. Deve ter razão, ele conhece como
ninguém.
Em pouco tempo estou completamente familiarizado com o maquinão e nos divertimos um
bocado. Paramos numa bonita pracinha para as fotos. Mecânicos abandonam oficina em frente
e vêm ver as máquinas reluzentes. Peço para ficarem do outro lado para aparecerem. Bato
fotos. Digo que é pra G-Magazine, que vai ter homem ligando direto pra eles. Gozação,
só a presença desses carros deixa todo mundo alegre. Eu cheguei cansado em Santo André,
de viagem. Agora estou revigorado. Esse carro nos cura de muitos males. Vou voltar pra
Pira, encarar estrada de novo. Mas tô contente, tô novo, tô que nem uma mula que você
solta e deixa ela estralar as costas rolando na grama, pronto pra outra jornada. Fiz uns
amigões, o Cleber, o Márcio e o Rex.
O duro foi pegar o Uninho mil e tocar de volta. Lembranças do Cobra, tê-lo nas mãos e
continuar o sonho-bom. O Cleber falou que um dia faz um pra mim. Eu agüento esperar...
Telefone Americar Veículos:
(11) 4971-7297
Celular: (11) 9988-2661
www.americar@ig.com.br e www.americarveiculos.com.br
Obrigado, Cleber, gente-boa. Um beijo praquela
sua filhinha linda dos cabelos perfumados, Arnaldo.

Abração do amigo Arnaldo Keller
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