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Publicado em 28/02/2008 Passeio em Morgan![]()
Celular: de vez em quando, saia de casa sem ele. É um costume que venho adotando, principalmente nos finais de semana, quando o trabalho não exige que o mantenha no bolso. Esse aparelho infernal tornou-se uma terrível arma de controle nas mãos de nossas esposas. Saber o tempo todo onde estamos é uma forma de opressão feminina, e, como sou rebelde, como acho que o homem precisa de um mínimo de liberdade para ser feliz, nos finais de semana acordo cedo, ajo silenciosamente feito um gato, finjo que esqueci o danado do celular em casa e me mando enquanto todas dormem. Fui pra loja do André, a Prestige Motors, pra ver o Morgan 4/4 1947 que recém-chegara do Uruguai. Chegando lá, o André disse que o Luiz Pereira Bueno seria homenageado no MG Club, e resolvemos ir de Morgan pra lá. Baixamos a capota e fomos. Nem guiei. O André precisava experimentar o carro e eu também queria mais era ir de carona, sem esquentar a cabeça com nada, porque ando cheio de aporrinhações. O carro está perfeitinho. Muito lindinho, na cor verde-britânico, com painel original, tudo original, volante estilo Brooklands, motor 4 cilindros virando suave, certinho, com força. Câmbio de 4 marchas e não-sincronizado, é claro, pois o primeiro carro a ter câmbio sincronizado foi o Porsche, em 1953. Onde se aprendeu a correr
Abramos um parêntesis para Brooklands. Esse foi o primeiro circuito fechado construído especialmente para corridas e testes de carros. Inaugurada em 1906, a pouca distância de Londres e acessível por trem ou boa estrada de rodagem, tinha piso em concreto e curvas em relevé, ou seja, bastante inclinadas, o que permitia altíssimas velocidades. No final dos anos 20 já estavam virando com média acima de 200 km/h. Ali foram batidos recordes atrás de recordes. Recorde do quilômetro lançado, de 24 horas rodando, mil milhas etc. etc. Ali se desenvolveu muita tecnologia, que posteriormente foi usada na indústria. Os tempos atingidos em Brooklands eram o parâmetro para quem entendia de carro naquela época. Foi o legítimo berço das competições automobilísticas organizadas. Ali foi onde primeiro colocaram números nos carros, onde primeiro adotaram leis para abafarem o barulho excessivo dos escapes – tanto é que existe um modelo de escape, com abafador em forma de Z e com a saída achatada, que se chama escapamento Brooklands –, foi criado um modelo de pára-brisa individual, basculante e arredondadinho em cima, também chamado Brooklands etc. Ali é que começaram a aprender como correr. Indianápolis foi inaugurada 3 anos depois, e, curiosidade, nela é que foi inventado o espelho retrovisor. Na primeira corrida 500 Milhas, o piloto Ray Harroun dispensou o mecânico ao lado (o mecânico ia pra ajudar a consertar a máquina e olhar pra trás e informar o piloto) e colocou um espelhinho. Ganhou a corrida. Produção Artesanal
A Morgan, fundada por H.F.S. Morgan, iniciou produção em 1909. Por quase 30 anos somente produziu three-wheelers, que eram carros com duas rodas na frente e uma atrás. Carrinhos leves e baixinhos, que geralmente usavam motores bicilíndricos de motocicleta. Esses motores eram, normalmente, refrigerados a ar e iam bem na frente do carro, adiante do eixo dianteiro. A tração era traseira, transmitida por corrente, e, por muitos anos o freio era só na roda traseira, portanto, por aí já dá pra ver que essa traquitana não freava nada. E ainda por cima andavam fortinho, já que eram leves – menos de 200 kg – e era comum os motores de moto terem 900 cm³ rendendo 40 cv. Com motores da Matchless – uma moto que pegou fama porque, de tão estável, o piloto podia tirar as mãos do guidão a 160 km/h –, os Morgan three-wheeler atingiam mais de 130 km/h. Por alguns anos correram em Brooklands, até que foram proibidos de entrar nessa pista, devido ao excessivo número de acidentes feios. Em 1936 a Morgan lançou seu primeiro carro de 4 rodas, o Morgan 4/4 (porque tinha 4 rodas e assentos para 4 pessoas). Vinha com motor 4 cilindros em linha, de 1.130 cm³ e 40 cv. Assim seguiu quase sem alterações até 1939, quando estourou a 2a Guerra Mundial. Após acabar a guerra, voltou a produzir o 4/4 do mesmo jeito que parou, E CONTINUA ATÉ HOJE, 72 ANOS DEPOIS DE 1936, PRODUZINDO O MESMO CARRO!! QUASE IGUALZINHO!! Caso único no mundo. Pois é. O H.F.S. Morgan morreu em 1959 produzindo o 4/4. Seu filho Peter assumiu e continuou a produzir o 4/4 quase igualzinho, até sua morte, em 2003. E o 4/4 sobreviveu a ambos, e hoje suas linhas são iguais a este de 1947 que andei, apesar da mecânica moderna, como o motor Ford Z-tec. Hoje a fábrica tem 160 empregados, que produzem artesanalmente 2 carros/dia. Este que andei foi um dos mais sérios rivais dos MG, pois competiam no mesmo nicho de mercado. Rivalizavam em preço, qualidade e desempenho. Eram os “pequenos ingleses”, que, apesar de não terem motores potentes, por serem levinhos, baixinhos, e terem boa suspensão, davam tremendo prazer de guiada, transmitindo bastante o que os ingleses chamam de “road-feeling”, ou seja, sensação da estrada. Pois assim fomos até o MG Club, e sem problemas, já que este carro está com mecânica mais que provada, pois veio rodando do Uruguai. Lá nos puseram pra dentro do galpão, enquanto Mercedes e BMW zero ficaram de fora. Entramos no chopp e fomos dar nosso abraço no grande mestre e cavalheiro Luiz Pereira Bueno, piloto que, por sinal, aprendeu a dirigir em Interlagos, com 13 anos, pilotando MGs da época deste Morgan 1947. Sua incumbência era amaciar MGs preparados por seu cunhado Cláudio, especialista na marca. Coincidências, não? Ah!! Como é bom andar livre sem celular! Abraço, Arnaldo |