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Publicado em 24/01/2008

Meu projeto de Fusca-Bala

Arnaldo Keller

Parece que não tem jeito, um fusqueiro será sempre fusqueiro. Em breve deve fazer um ano que furtaram meu Fusca 66 e não há meios da saudade passar. Dizem que sempre há um lado bom nas coisas, mas até agora não tirei nada de bom dessa desancada que me deram.

Fico matutando, lembrando daquele carrinho que preparei o motor com tanto carinho, que nele botei tanto dinheirinho, botei tanto sacrifício, sofri tanta humilhação da família e parentes chatos me criticando por gostar de Fusca velho, calei-me diante de gozação, fiquei sem jeito por não ter argumentos lógicos pra defender minha paixão. E fico imaginando uns ladrões estúpidos esmerilhando meu Fusquinha, errando e arranhando marcha, passando com tudo nos buracos, meu rádio toca-fitas que antes só tocava jazz e rock dos bons agora tocando pagode ou Calcinha Preta ou Mestre Shogum e Suas Macacas Assanhadas. É uma lástima... é triste.

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Fusca

O Projeto

Mas agora o jeito é sair do luto e partir pra outra, daí que andei projetando dentro da cachola meu próximo Fusca. Meu cérebro trabalhou feito um computador fantástico nesse projeto, mas acontece que não confio muito em mim mesmo, o que me deixa desconfiado que estou bolando uma máquina suicida. Bom, pra começar não quero um Fusca que me roubem (ou furtem), daí que ele será totalmente modificado e esquisito pra dar bandeira pra polícia. Então vou cortar a capota e isso é bom, porque meu sangue canino gosta de tomar vento na cara, e tomar chuva é poético e romântico.

Já vi no cinema muita gente se dando bem com as artistas bonitas quando o casal toma chuva junto e eles ficam rindo alegres com a chuva e nesse rolo saem uns beijos ardentes legais. Vou serrar na altura da porta, e pra dar rigidez estrutural, além de fazer os devidos reforços no chassi, vou soldar as portas e deixar uma chapa lisa nas laterais, sem os trincos óbvio, já que não há portas a abrir.

Quem quiser entrar que pule pra dentro. Mulher de saia pra não ficar mostrando as pernas nessa manobra eu carrego no colo direitinho e boto pra dentro. Se a mulher for pesada a ponto de eu não conseguir carregar, não boto pra dentro. O pára-brisa eu corto a uma altura mais baixa, bem onde passa o limpador, e coloco uma moldura fina cromada onde prenderei o espelho retrovisor. Os pára-lamas tiro, e as rodas ficarão cobertas por pequenos pára-lamas que as acompanharão no sobe e desce. Assim vejo as rodas dianteiras trabalhando e isso é gostoso de se ver que eu sei.

O Fangio gostava disso, porque ele podia colocar o pneu dianteiro no ponto certinho que queria, e ele infalivelmente colocava. Notem aí minha perspicácia, numa só cortada resolvi minha pendenga com os bandidos, estou pilotando igual ao Fangio e já estou beijando ardentemente as artistas quentes.

Mecânica

O essencial resolvido, vamos agora à mecânica. Se o Fusca tem uma coisa ruim, essa coisa é a suspensão,tanto dianteira quanto traseira. É resistente e boa pra andar devagar e para andar na terra, mas para andar rápido e curvar no asfalto é uma lástima.

Ela trabalha toda errada, não há bom acordo. Afinal ela foi projetada no início da década de 1930 para um automóvel popular de 25 cv, e a única explicação dela continuar praticamente igual aqui no Brasil até 1996, quando o Itamar deixou de ser fabricado, é o descaso do fabricante já que o Fusca destinado ao mercado americano tinha MacPherson na dianteira e multilink na traseira desde os anos 70.

Então o jeito é adaptar a suspensão da Variant II, o “Variantão”, ao meu projeto, pois esse carro veio com a suspensão igual à do Fusca americano citado. Procurando essas peças, as acho e assim terei um carro melhor de chão. Freios a disco do Variantão na frente e na traseira podem ser a tambor mesmo, pois eles não são tão exigidos quanto os dianteiros.

E agora outro detalhe para melhorar a estabilidade: tirar o motor de pendurado atrás do eixo traseiro para colocá-lo entreeixos. Moleza, é só dar um tombo de 180o na caixa de câmbio e inverter a coroa para que ele não fique com uma só marcha pra frente e 4 pra ré.

Agora sim terei estabilidade, pois o motor não irá pendular lá atrás. Com isso perco o espaço do porta-malinhas atrás do banco traseiro e parte desse banco, já que ali ficará o motor, mas não estou nem aí com isso e o funileiro que ache um modo de tampar a coisa. Se o espaço atrás ficar muito exíguo e mesmo assim a sogra insistir em ir ali, que ela vá dividida por partes em sacos plásticos. É fácil acertar o trambulador de marchas, pois já há esquema pra isso nas réplicas de Porsche 550 que também têm motor central.

Motor

Bom, e o motor? Aí tenho duas opções: motor mexido VW a ar com no mínimo 1.800 cm ou motor VW AP 1.8 ou 2.0 também mexido. O mais fácil é colocar o motor a ar, pois evita adaptação de radiador d’água, além de manter o ronco de Fusca, mas o galho é que hoje em dia para fazermos um motor a ar realmente potente, com uns 150 cv, gastamos uma grana preta ao passo que tirar 150 cv de um AP é moleza, além do que o torque será maior, o que me dará maior arranque.

Ainda estou na dúvida, mas pendendo para o AP. Caso opte mesmo pelo AP, colocarei o radiador d’água onde fica o estepe, captando vento pela dianteira o mais discretamente possível, e farei as saídas de ar quente pelas laterais do porta-malas dianteiro. Acho que deve dar certo.

Rodas de ferro mesmo, já que as rodas de “liga-leve” à venda são quase tão pesadas quanto as de ferro, além de serem bregas, e eu sou chic e beijarei artistas lindas e fogosas molhadas de chuva fresca e com boca perfumada de chiclete de menta. Serão de tala larga, sendo atrás mais larga que na frente, com calota cromada meia-bola de Fusca da década de 60, e o resto da roda pintado na cor do carro, e pneus de banda normal, sem essa de perfil baixo pra não ter medo de buraco, além do que se perfil baixo fosse solução a fórmula 1 usaria

Faltou a cor. Verde fosco do exército, porque tenho preguiça de ficar lavando carro. E banco inteiriço na frente, só com um recorte pra caber a alavanca de câmbio. Assim a artista famosa e beijoqueira pode ir encostadinha neste sujeito inteligentíssimo aqui, escutando encantada e sorridente minhas idéias brilhantes, enquanto despre ocupadamente piloto feito o Fangio, desenhando linhas artísticas no asfalto com o traço firme e decidido que só um Picasso tem. Como vêem, um fusqueiro é antes de tudo um sonhador...

Abraço,

Arnaldo

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