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O FUSCA DO ENIO

O sujeito tem que ser muito seu amigo pra tomar a liberdade de chegar sábado à tarde em sua casa e mandar te acordar de um profundo cochilo. Esse meu amigo é o Enio. 37 anos de amizade. Abro a janela do quarto e lá de cima vejo na rua um Fusquinha 1966 bem bonitinho, e ao lado o Enio todo sorridente.

– Acorda aí ô vagabundo! Vamos dar uma volta na minha Fusqueta 66 que acabei de comprar! – Ele berra da rua.

– Então me paga um café expresso lá no posto pra eu acordar direito! – Respondo – Senão não vou!

– Tá bom, tá bom eu pago – topou o muquiranas; desde pequenininho muquiranas. Pelo visto ele estava de ótimo humor, pois concordou rápido em me pagar um café.

E não é que o Fusca do Enio está realmente inteirinho! Pagou R$ 7.500,00. Todo reformado e bem reformado. Cor de rato, original, lata lisinha, tudo original, frisos, volante, painel, bancos, pára–choques, rodas, calotas... em suma, tudo certinho, uma gracinha. Na hora me veio uma saudade danada do meu Fusca 66 que furtaram; mas, deixa pra lá.

– E o motor é 1200! – diz o Enio.

Nessa altura eu já estava com as chaves na mão e sentando no banco do motorista fui dando a partida. Nhóóc, nhóóc... vrrúúmmff, vrrúúmmf!

– Êpa, Enio! – Exclamo – Pelo som, pelo tipo de vibração e pela subida de giro está parecendo 1300. O 1200 não sobe de giro tão rápido e tem um funcionamento mais suave, mais mansinho.

– Também estou desconfiado, mas abrindo o capô vi que ele tem bomba d’água e coletor de admissão do 1200, daí que já que o vendedor disse que é 1200, por enquanto estou meio que acreditando no cara.

Saindo com ele e, dirigindo–o, fico com a impressão que é um 1300 mesmo. Mas isso, na prática, não é problema nenhum, apesar do Fusca 1966 ser o último ano em que ele vinha com o 1200. No começo desse ano, segundo os entendidos, o sistema elétrico ainda era de 6 volts e no fim já era o de 12 volts. No ano seguinte é que apareceu o “potente” 1300. Lembro de minha avó questionando se esse novo motor não era forte demais para um Fusca...

“– Assim ele vai passar de 120!!” ela preocupava–se.120 km/h era como a barreira do som; acima disso vinha o desconhecido, a alucinação, o assombro. Um carro passando a uma velocidade dessas era para o Polícial Rodoviário e o seu fiel cão Capeto saírem de Simca em perigosa perseguição ao motorista metido a Pintacuda. Pintacuda foi um famoso piloto que dava show de arrojo nas pistas, e todo mundo que corria um pouco mais era logo avisado: “–E aí, rapaz! Tá achando que é o Pintacuda, é?” Hoje em dia não há mais shows de arrojo na F1.

O velocímetro do Fusca 1966 marcava velocidade máxima de 120km/h; já o do potente 1300 marcava máxima de 140km/h. O do Enio marca 120. Tá certo, tá original.

UM CARRO ÍMPAR

Os freios estão bons (esse, sempre, é o primeiro teste num carro antigo). Sinto folga na direção. Qualquer irregularidade do asfalto o faz passarinhar à frente. A suspensão dianteira está mais dura do que deveria. Mas isso é moleza e barato de arrumar. Trocar caixa de direção, uns 70 paus, revisar suspensão dianteira, trocar amortecedores e alinhar. O Enio não vai gastar mais que uns 300 ou 400 paus para deixar seu Fusquinha perfeitinho para guiar. O motor está ótimo. Puxa muito bem, válvulas em ordem, não tem folga na polia do virabrequim e tirando a vareta do nível de óleo e acelerando forte ele não assopra óleo pelo buraquinho onde vai a vareta. O carro está todo silencioso, justinho, nada solto fazendo barulho quando passamos pela buraqueira.

O Fusca é realmente um carro ímpar. Basta uma boa reforma que um Fusca com 41 anos fica parecendo novo. Essa é uma das graças do Fusca: sua eterna disposição para recomeçar a vida, desde que lhe dêem um pouco de bons tratos.

Este é o terceiro Fusca do Enio. O anterior era um 1960, todo originalíssimo, motor 1200. Mas isso faz uns três ou quatro anos, e então o Fusca antigo ainda era considerado carro velho, ao menos para sua mulher e filhas – seu menino, o ligeirinho Nicolas, era ainda muito pequeno e ainda não mandava no pai, como as irmãs já faziam. E a Patrícia e as meninas, pasmem, tinham vergonha de sair com o Enio no Fusca 1960. Preferiam sair com os carros novinhos de casa. E, coitado do Enio, de tanto ser chamado de tonto por gostar daquela “coisa velha”, cedeu e vendeu o Fusca 1960. Vendeu por 7 mil reais e um centavo. Ele havia pago 7 mil e exigia ganhar alguma coisa na venda. Pode isso?! Um centavo! É verdade, creiam. Eu falei que o meu amigo é muquiranas porque é. Um ou dois anos depois veio saber que venderam o carro por 50 mil reais!!! Será que é verdade? Será que alguém pagou 50 paus num Fusca 1960? O Enio não acredita muito nisso e acha que o sujeito inventou essa história só pra lhe tirar umas horas de sono.

Mas, o primeiro Fusca do Enio, lembro bem, foi também seu primeiro carro: um Fusca zerinho, branquinho, 1300, ano 1978. E, claro, ele veio com cheirinho de Fusca novo. Quem lembra, sabe bem que cheirinho gostoso que era, já que o olfato é o sentido que mais se enraíza na memória de nós animais. Certos cheiros a gente nunca mais esquece. Só o Fusca tinha aquele cheirinho e alguém deveria fabricar um perfuminho para carro com aquele cheiro.

E o Enio comprou o Fusca zero com o fruto do seu próprio trabalho. Mocinho, recém–formado em arquitetura, começou a trabalhar com meu pai em Leme, cidade vizinha à nossa fazenda – a 200km de São Paulo. Meu pai bancava e o Enio comprava terreno, construía casa e vendia. E logo na primeira viagem do Fusca fomos os três de SP a Leme. Meu pai, fumante inveterado e um amor de sujeito inteligente e avoado, foi fumando e batendo as cinzas no assoalho mesmo, sem se importar em mandá–las quebra–vento afora. O Enio passou mal. Olhava aquela barbaridade com seu Fusquinha novo mas controlou–se e ficou quieto. Eu, no banco de trás, ria de doer a barriga. Meu pai nem aí, nem se tocava – cinzas e mais cinzas de Charm no assoalho. E eu, de sacanagem, não dei toque algum no velho.

Sabem o que aconteceu na volta? Mal meu pai acendeu o primeiro cigarro, o Enio abriu o porta–luvas e de lá sacou um cinzeirão de escritório que depositou na tampa aberta. E, delicadamente, falou:
“– Olha aqui, Seu Carlos, um cinzeiro. Assim fica mais fácil pro senhor....”

Háháhá! Como é que meu pai ia entender que um camarada poderia gostar de um Fusca ou outro carro qualquer?

Valeu, Enião! Adorei o teu Fusquinha. Divirta–se com seu brinquedo, pois você merece.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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