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ADEUS SAVEIRO, AUTOMOBILISMO BRASILEIRO E FÓRMULA 1

Fim dos carretos, continuação dos carros iguais e motores iguais e a certeza de que o resultado de uma corrida de F1 cabe mais ao carro do que ao piloto

Para a maioria das pessoas, a suspensão do carro é um item secundário. Já pra mim, que sou um fresco, é essencial. Acabo de vender a lazarenta da Saveirinho 1.8 de tão dura que ela era. Uma cabrita! Andava bem a bichinha - motor AP 1800 - mas aquela suspensão de picapinha de carga me quebrava as costas. Para comparação, peguei a perua Mondeo da minha mulher e senti que cheguei em casa inteiro, em vez de moído como quando dirigia a picape. E notei que guiava mais calmo, mais devagar, sem tanta pressa de chegar e cair fora daquela chocolateira que era a Saveiro. Andando assim calmo, sem acelerações bruscas, percebi que a Mondeo, mesmo sendo um carro muito mais pesado, acabava gastando menos gasolina. Pensei em colocar na Saveiro molas traseiras de Gol ou Parati, que são mais macias, já que não são projetadas para carregar tanta carga, mas acabei me convencendo que não haveria jeito - pau que nasce torto...

Outra droga é que basta que saibam que você tem um raio duma picape que todo mundo vem pedir pra você fazer carreto grátis. E ai de ti se não trocares a piscina do clube num domingo ensolarado para ir carregar tranqueiras! É geladeira velha pra cá, telhas Brasilit pra lá, casa de cachorro imunda e cheia de pulgas com cachorro rabugento dentro, montes de vasos de plantas e sacos de terra, cama enorme e pesada pra levar pra p... que... os... p...! Em um mês que fiquei com o raio da picape carreguei todas essas coisas e reboquei dois carros com as cordas que acabei comprando. Tem gente que adora fazer serviço de caminhoneiro - eu não; enjoei logo. Se quiser paz, não tenha uma picape!

Além do mais, peguei estrada com ela e confirmei sua péssima aerodinâmica, o que a amarra na estrada e a faz gastar muita gasolina. A 130km/h, bastava colocá-la em ponto-morto para senti-la sendo fortemente freada pela barreira de ar. Enfim, a suspensão tosca, a aerodinâmica primitiva e o serviço de carga beneficente nos fins de semana, tudo isso me fez “pegar bode da cabrita”.

STOCK CAR E FÓRMULA 1

Diante da situação fizemos um remanejamento dos carros aqui em casa. Tomei pra mim a Mondeo da minha mulher e troquei a Saveiro por um Hyundai Accent 1996 bem bonzinho, com ar-condicionado (achei no SuperAuto) para minha filha caçula que está tirando carta. Minha mulher que ande a pé ou de ônibus, e se ficar boazinha lhe dou um patinete cor-de-rosa.

Ontem, sábado, após os treinos da Fórmula 1 assisti a corrida da Stock-Car. Me diverti com as explicações do dr. Stock, que por repetidas vezes deixou bem claro que os pilotos deveriam poupar os pneus do lado esquerdo, já que praticamente nesse circuito que chamam de “oval” todas as curvas são pra direita. Que mais o dr. Stock teria pra dizer? Carros todos iguais, motores todos iguais, pilotos todos iguais, uns lascando batidinhas nos outros pra tentar animar a galera aparvalhada. Só sendo um fanzoco já imbecilizado pela Globo pra gostar dessa encenação ridícula. Ganhou um carro da “Mitsubishi”, que por sinal não tem uma arruela sequer da Mitsubishi. Êta nóis! Nunca mais assisto essa porcaria - nem por ironia, como dessa vez. O automobilismo brasileiro, graças à Stock e à Globo, acabou. Eles carrearam toda a grana pra essa pataquada que não leva a nada e não traz desenvolvimento algum para os carros nacionais.

Domingo último, assisti a corrida de F1 em Monza. Fora os primeiros metros da largada, na pista ninguém passa ninguém. Em Monza, segundo o Reginaldo Leme, os carros ficam 76% do tempo em aceleração máxima. Os carros estão tão bons, estão estáveis e controlados eletronicamente, que os 700cv dos V8 nem lhes fazem cócegas. Seria como andar num Corvette com um motorzinho de uns 100cv - você poderia acelerar feito um chimpanzé chapado que o carro não perderia o controle. Tanto é que o recorde de Monza ainda é o de três anos atrás, quando os motores tinham 200cv a mais, e pertence ao Barrichello. Nesse período os pneus, os freios, a aerodinâmica, o controle da tração evoluíram, e a potência caiu quando baixaram de 3 para 2,4 litros a cilindrada. Isso faz com que os carros fiquem mais fáceis de guiar.

Você pode acelerar à vontade que ele não vai derrapar, soltando a traseira, nunquinha. O negócio é frear forte antes da curva, entrar na curva e acelerar tudo. O controle de tração é que vai comandar a aceleração máxima possível, e não mais a sensibilidade do piloto. Nessa situação os carros da F1 tomaram para si comandos que antes cabiam ao piloto e com isso o resultado da corrida, hoje, cabe muito mais ao carro que ao piloto. Assim, o campeonato mundial de pilotos está cada vez mais com cara de um campeonato mundial de marcas. O piloto que tiver o melhor carro, e um pouco de sorte, ganha o campeonato. E essa situação tende a ficar cada vez mais solidificada desse modo, já que os grandes fabricantes de automóveis entraram firme no negócio e não abrirão mão desse controle. O “fenômeno Lewis Hamilton” só existe devido a essas condições.

E agora vou pro clube porque não sou mais obrigado a fazer carreto.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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