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Emerson Fitipaldi e ronnie peterson pilotando mercedes?
Na coluna passada comentamos o início da carreira de Émerson Fittipaldi. Agora já estamos em 1972, quando, correndo pela Equipe Lotus, vence seu primeiro campeonato na Fórmula 1, superando o até então “invencível” Jackie Stewart. No ano seguinte é vice, atrás de Stewart, e em 1974, agora correndo pela MacLaren, volta a ser campeão. Ano seguinte, de novo vice. Portanto, em quatro temporadas ele foi campeão duas vezes e vice nas outras duas, ganhando um total de 14 corridas. Nada mal, nada mal... Nenhum brasileiro teve carreira mais meteórica na F1. Ambos os carros que utilizou eram empurrados por motores Ford-Cosworth, e aqui vai uma historinha muito interessante que demonstra, entre outras coisas, o quanto ainda era um esporte “amador” a F-1 de então, comparada à de hoje.
Em 1976 a Mercedes convidou alguns pilotos da F1 para umas voltinhas com dois dos mais valiosos carros do mundo. Dentre os pilotos estavam Émerson e Ronnie Peterson. Eles pilotariam em sua pista de testes, em Stuttgart. Os carros eram nada menos que o W196, com o qual Juan Manuel Fangio venceu o campeonato de 1954, e o 300 SLR, vencedor da Mille Miglia de 1955 nas mãos de Stirling Moss. Esses carros estavam e ainda estão no museu da Mercedes. Não têm preço. Os carros chegavam a 300 km/h, isso porque já eram muito potentes (uns 300 cv e pesavam coisa de 700 kg) e não usavam aerofólios, que, como se sabe, ajudam nas curvas, mas seguram o carro nas retas. A pilotagem era completamente diferente da que Émerson e Ronnie estavam acostumados, e Émerson, com seu jeito seguro de ser, foi gradativamente adaptando-se ao modo dos Mercedes: os pedais eram muito separados, acelerador e freio de um lado, e o da embreagem, lá longe, à esquerda.
Os freios eram pouco eficientes devido aos finos pneus e falta de pressão sobre eles (pressão aerodinâmica), além dos próprios freios a tambor. As curvas tinham que ser feitas de lado, para que assim os pneus atuassem freando, ajudando os freios. O assento era aberto, plano, não encaixava o corpo, dando-lhe a impressão de que seria cuspido para fora do carro, o que o fazia agarrar-se ao volante como um modo de ficar dentro do carro. Cinto? Só o das calças, ou melhor, do macacão. Enquanto guiava, tentando incorporar-se ao carro, Émerson ia se lembrando da primeira vez em que viu Fangio correr. Foi em Interlagos, quando tinha 11 anos. Seu pai, Wilson Fittipaldi, o “Barão” (apelido dado devido à refinada educação e ao característico bigode enrolado), o levara para assistir a uma corrida em que Fangio participaria. Émerson ficou impressionado com a maneira consistente de sua pilotagem: a suavidade, a regularidade, colocando a roda dianteira sempre no mesmo ponto de tangência, volta após volta, sempre igual, andando fortíssimo, mas de modo seguro. Émerson lembrava-se que, ao vê-lo, logo se identificou com sua atitude ao volante e desejou ter uma “tocada” igual: “É assim que quero pilotar, é assim!”, pensava. Mas não era bem esse o desejo de Ronnie Peterson, e o pessoal da Mercedes ainda não havia dado conta da fria em que se metera ao convidá-lo... Ronnie Peterson era um artista — artista na arte da pilotagem, artista no modo de ser. Enquanto Émerson, seguindo seu modo ajuizado, com todo o cuidado tratou de, aos poucos, adaptar-se à nova pilotagem, buscando ter absoluto controle dos Mercedes antigos, Ronnie, na sua vez, saiu logo arrepiando, fazendo as curvas totalmente de lado, freando até derreter as lonas, levando os giros daqueles valiosíssimos motores a uma revirada só equiparada às das entranhas do pessoal da Mercedes que, germanicamente e fulos da vida, logo após a volta aos boxes do sorridente e descabelado Ronnie, encerrou a experiência. Com isso outros pilotos deixaram de dar suas voltinhas. Bem, eu havia dito que a história mostraria o quão amador era o espírito da época. Então, veja: como podia um piloto que corria com motor Ford pilotar um carro histórico da Mercedes? Quando é que um fato desses ocorreria nos dias de hoje? Quando é que Michael Schumacher participaria de um evento onde pilotasse um Ford GT 40? Um Alonso pilotar um Ferrari 512? Émerson, em 1976, buscando um sonho, entraria na maior fria de sua vida: a tal Equipe Copersucar-Fittipaldi de Fórmula 1, que lhe consumiria muito dinheiro e até mesmo o prazer de pilotar. Mas isso é pra outro dia.
Arnaldo Keller apoio |