|
Fiz do jeitinho que o Fran falou pra fazer. Ao dobrar para entrar na
avenida vazia ainda em primeira marcha e mantendo o giro na faixa de torque
com o volante esterçado, dei uma bela acelerada. O Fusca reagiu impetuoso, o motor
gritou, e o carro rabeou, soltando a traseira de um jeito gostoso e firme, sob controle.
Rapidamente, puxei segunda marcha, pois o motor podia passar de giro, já que estavam
derrapando as rodas traseiras, e consegui fazê-lo continuar a rabeada enquanto já
contra-esterçava para alinhá-lo à avenida. Continuei no talo. Ao alinhá-lo os pneus
traseiros grudaram e acabou a derrapagem. Daí pra frente a força do motor 1800 com uns
120 cv passou a promover uma aceleração que beira o brutal e o danado do Fusquinha
meia nove tinha virado um monstrinho valente dos infernos. Era hora de
maneirar pra não sacanear o Fran com contribuições forçadas à prefeitura
porque aqui em São Paulo, se bobear, a multa vem e ela cairia nas costas já
maltratadas do meu amigo. Nesta cidade basta o motorista botar os pneus pra fora de casa
que já se sente um fora-da-lei perseguido por agentes secretos com radares e câmeras e
rádios comunicadores, sedentos de pegá-lo ao menor e inocente vacilo.
Mas o Fusca e eu fizemos tudo certinho, bem do jeito que o Fran falou e, conforme ele
previu, fiquei impressionado com o comportamento educado do carro. Dou a dica do
preparador: amortecedores com 40% a mais de carga na traseira e 20% a menos de carga na
dianteira, ou seja, na traseira mais duros, e na dianteira mais moles, que os originais.
Pra ajudar estava com bons pneus Goodyear Ealgle 185/65. As rodas aro 14 (da Brasília)
também ajudam, pois deixam o carro mais perto do chão. As suspensões dianteira e
traseira foram trocadas pelas do Fusca 1600 da década de 1980, com freios dianteiros a
disco originais, e, nada mais, além da catraca na dianteira, para deixá-la um pouquinho
mais baixa.
Este mesmo Fusca já esteve nestas páginas (Um Fusca de Classe), porém, sem saber, o
Fran tinha sido vítima de uma malandragem. Conto: o antigo preparador lhe disse que havia
colocado um kit 1800 em seu motor, que era 1600, porém, era mentira, ele somente
trabalhou cabeçotes, aumentou a taxa para 8,5:1, colocou um comando de Kombi e uma dupla
carburação Solex 40 de Opala. Na ocasião achei que carro até que andava direitinho.
Não pude acelerar forte porque o motor estava amaciando e um pouco fora de ponto, mesmo
assim, achei razoável. Disse ao preparador de então que o 1800 era pra ser mais forte e
a resposta foi que ele fez um mil e oito manso, mais pra executivo... Só sei
que o motor passou a dar problemas e vivia enchendo a paciência do Fran, até que ele
resolveu levar seu Fusca a um mecânico bom, mas bom mesmo. E foi aí que, seguindo
recomendação de quem entende, ele foi parar no Amador, da Power Amador.
O Amador prepara motores VW há 40 anos só 40 anos... Uma
de suas façanhas ocorreu em 1967. Na ocasião o Autódromo de Interlagos estava fechado
para reformas. O pessoal da gasolina estava na fissura por uns rachas e, como não tinham
pista, rachavam nas avenidas de São Paulo, principalmente na 9 de Julho, à noite, em
frente ao Deck. E aí o trecho do antigo Retão de Interlagos ficou pronto. Foi o bastante
para ali organizarem um racha oficial dividido em três categorias. No final
do dia, sabe o que aconteceu? O Fusquinha 1700 do Amador, que era da categoria mais fraca,
acabou ralando todo mundo das três categorias, incluindo aí Mustang, Corvette e Ferrari,
para pasmo geral de todo mundo, principalmente do próprio Amador. Diz a lenda que foi
aí, nesse célebre racha, que os malucos despertaram para as desconcertantes qualidades
de arranque do nosso amado Fusca. Moral da história: no dia seguinte, uma 2a feira, o
Amador teve que chamar a polícia para organizar o trânsito que se formava em frente à
sua oficina, de tanto Fusca querendo esquentar o rabo com motores envenenados.
Dali pra frente a preparação de motores VW passou a ser a principal atividade da oficina
do Amador. Entre os que acompanharam o automobilismo da década de 1970, não há quem
não tenha conhecido a Equipe Gledson/Amador de VW divisão III e suas muitas vitórias,
assim como a Equipe Marcas Famosas de Super Vê tudo carro preparado pelo nosso
amigo Amador. Muitos mecânicos hoje famosos, como o nosso já conhecido Malanga do
Mustang de 700 cv, têm orgulho de terem aprendido mecânica de preparação com o sempre
atencioso e gentil Amador o Mestre dos Fuscas.
Dirigindo o Fusca do Fran fui à oficina do Amador, no bairro de Interlagos. No caminho
parei num posto pra um café expresso. Ao sair do café vejo dois camaradas babando no
Fusca. Enquanto limpava a baba deles da lataria verde, com um pano e detergente, já fui
falando que era mil e oito e que dava pau em todo mundo e coisa e tal e que fazia curva
direitinho e que tava bonito mesmo e que até motoboy me cumprimentava pelas as arrancadas
do bicho e que era do meu amigo e que ele não vendia nem com o Mike Tyson mordendo a
orelha dele e cuspindo. Os caras: Hã?! Hã? Pô! Que Fusca, heim, meu! E já
saí cantando pneu e rabeando, aproveitando o chão liso do posto e sem botar gasolina nem
nada porque o Fusca só bebe Pódium que é bebida de carro de macho.
O teste do Amador
Cheguei na Amador Power Motores. O Amador quis guiar para ver como estava o
carro. Fui do lado. Ele foi pra uma avenida que leva do nada a lugar nenhum e lascou uma
bota pesada no Fusca, mais do que eu havia lascado, por medo de ferrar o motor, e não
passei medo não porque vi que ele tocava como mestre. Vi também que ele confiava mesmo
no seu trabalho, pois não teve o mínimo dó do motor e levou o giro a 6.000 rpm em 1a e
2a marchas, sem medo algum que voassem bielas pelas laterais. Paramos, fechamos os vidros
e escutamos o motor em marcha lenta. O motor trabalhava como um relógio suíço. Voltamos
pra oficina. E aí ele me contou o que fez no motor.
Comando americano da Engle W110, com 284o de duração e 10,9 mm
de levante. Tuchos de válvulas originais VW. Cabeçotes trabalhados pela Paula Faria e
foram colocadas válvulas de admissão americanas da Bugpack de 40 mm e de escapes,
originais (32 mm). As câmaras de combustão foram trabalhadas para melhor queima e para
eliminar pontos quentes. A taxa de compressão foi aumentada para 9,5:1, por isso a
gasolina Podium é necessária. Colocou kits 1800 da Mahle agora sim, está mil e
oito de 90,5 mm de diâmetro e o curso ficou mantido em 69,0 mm, já que manteve o
virabrequim original, e isso dá precisamente 1.775 cm3, que é o tal mil e
oito que conhecemos. Aliviou o volante em 30% do seu peso. Balanceou o conjunto
virabrequim, volante, platô e polia da ventoinha.
Os carburadores, por enquanto, são dois Solex 40, usados nos Opala, recalibrados para
alimentarem este motor. O Amador, o Fusca e eu, estamos esperando o Fran comprar os dois
duplos Weber 40 (ou 44) prometidos, pois aí melhora tudo, desde uma marcha lenta mais
serena a um punch ainda mais forte na arrancada. Confiamos que ele acabe
fazendo isso. Mesmo assim, com os Solex, já está muito bom.
Importantes detalhes para a perfeita refrigeração: com bom trabalho na lataria do motor
e adjacências, o cofre do motor foi vedado do ar quente que circula por baixo dele, assim
a ventoinha chupa ar fresco, de cima do cofre. Dois radiadores de óleo auxiliares foram
colocados na dianteira, cada um com medidas de 28x7x4cm. Uma bomba de óleo mais forte foi
colocada. A lataria da ventoinha é a do Fusca Itamar, igual à da Kombi nova, com o
radiador deslocado. Desse modo, apesar das puxadas que demos, a temperatura não passou do
80oC excelente. Um dos pontos importantes da preparação do motor a ar está na
boa refrigeração.
Os escapes são esportivos, com mais vazão, e dimensionados. O câmbio é do Itamar. A
ignição é eletrônica e transistorizada, do Itamar. O distribuidor foi transformado de
a vácuo por centrífugo e sua curva de avanço foi acertada.
Velocidade final? Uns 185 km/h. O 0 a 100? Uns 8 segs.
Aproveitei e fui visitar a pista de Interlagos, sapear os boxes e tirar umas fotos do
carro. O Fusca gostou do visual da pista e da barulheira e queria entrar para encher uns
Fórmula Renault e eu falei pra ele ficar na dele e tive que segurá-lo pelo pára-choque
pra ele não se meter em briga e o bicho bufava e cavocava o chão e... Pode isso, cara?!
Amador Power Motores: 11-5667.3412
Amortecedores Rogério: 11-3672.3131
Paula Faria, cabeçotes: 11-2578.7899
Forte abraço ao Amador, que é um baita profissional.
Arnaldo

Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br
apoio
FENO DE COAST-CROSS E TIFTON
FAZENDA CACHOEIRINHA
PIRASSUNUNGA SP
tel. (19) 9729-1778
|