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Porshe Cayman |
Uma das diferenças básicas entre as histórias da Porsche e da
Ferrari é que a fábrica alemã sempre teve uma postura humilde em relação aos
clientes, sempre se esforçou em satisfaze-lo, mesmo que esses desejos não estivessem
muito de acordo com o que achavam melhor; ao passo que a Ferrari, não, pois, ao menos
até a morte do seu fundador, Don Enzo, ela sempre considerou que fazia um favor ao
cliente por lhe vender um de seus carros. Os carros da Ferrari eram aqueles que eles
queriam fazer e quem quisesse que os comprasse como eram, e boa. Vamos seguir a história
desde o começo para entendermos a chegada do Porsche Cayman (já há três ao Brasil), o
Porsche como era pra ser, o Porsche mais ao gosto da Porsche creio eu.
O primeiro modelo Porsche, o 356/1, tinha motor central/traseiro. No
lançamento do protótipo, em 1947, na Suíça, o público achou que ele carecia de maior
espaço interno. O que fizeram? Jogaram o motor para trás do eixo traseiro, tal qual o
Fusca, e ganharam o tal espaço pedido. Mas isso teve um preço: perda de estabilidade nas
curvas. Vou exemplificar essa piora: você está num ringue de patinação no gelo. Ao seu
lado está um Porsche, desligado. Você está calçado com botas com grampos que não
escorregam; o Porsche só calçado com pneus normais. Você vai empurrar o Porsche de
lado, você quer faze-lo rodopiar, girar. Por onde empurraria para que ele rodopiasse mais
facilmente? Respondo o que vai responder: pelas extremidades, digamos, para melhor
visualização, a traseira, pertinho do pára-choque. Agora, imagine que em vez disso o
empurrasse com as mãos no espaço compreendido entre as costas do motorista e a roda
traseira? Ficaria muito mais difícil faze-lo rodopiar, não é? O carro mais escorregaria
de lado do que rodopiaria.
Pois são mais ou menos essas forças que, numa curva, a massa do motor exerce sobre o
carro, dependendo de onde o motor está assentado. Quando analisamos a distribuição de
massa em um automóvel, não basta ver o quanto cada eixo recebe de massa (peso), mas
temos que ver aonde está sua maior massa, no caso, o motor. Quanto maior for a distância
entre o motor e o centro do carro, maior a alavancagem que sua massa vai ter para faze-lo
rodopiar. E numa curva você não quer rodopiar, pois não? Você quer fazer a curva o
mais rápido e seguro possível, daí que a posição do motor para melhor equilíbrio nas
curvas, onde ele distribua melhor seu peso pelos quatro pneus é o mais próximo do centro
do carro, tanto à frente quanto atrás do motorista.
Então, voltando à vaca fria, para satisfazer a clientela, a Porsche fez o 356 com o
motor pendurado atrás do eixo traseiro. Mas, na ocasião, o 356 era um esportivo sem
muitas pretensões de alta performance, já que tinha um motorzinho de pífios 40 cv. O
galho é que a potência foi subindo, a pedido dos clientes, e o carro passou a correr
mais, o que obrigou os engenheiros a inventarem todo tipo de remediações para um
problema básico, um princípio errado. O pessoal da Porsche sabia mais do que ninguém do
erro, tanto que quando foram fazer um carro realmente de corridas, lá pelos idos de 1954,
fizeram o Spyder 550, um vencedor, e esse vinha com motor central-traseiro. Vale lembrar
que o Professor Ferdinand Porsche foi o projetista dos Auto Union Gran Prix da década de
1930, uns terríveis monstros de uns 600 cv e que tinham como grande inovação o motor em
posição central-traseira. Portanto, percebe-se muito bem que a Porsche sabia como fazer
um carro certo e só não o fazia porque o cliente queria o carro errado com o motor
pendurado lá pra trás.
A coisa agravou-se com o 911, substituto do 356, pois este passou
a ter motor com seis cilindros, portanto mais pesado e ainda mais pendurado lá atrás.
Tanto agravou-se que, por ocasião de sua apresentação à imprensa na época, início
dos anos 1960, fizeram um pára-choque dianteiro com um lastro de 35 quilos, para dar uma
equilibrada na coisa...
Lançaram no início dos anos 1970 o 914 em associação com a Volks, porém, esse tinha
uns motorzinhos fracos de quatro cilindros de 1,7 e 2,0 litros; só uns poucos tinham um
seis cilindros, os 914/6, mas mesmo esse seis cilindros também era fraco só 2
litros e 125 cv para não fazer frente ao carro-chefe de vendas da marca, o 911. O
914 era melhor em curvas, porém a diferença de potência era tão grande que não o
ameaçava. Ah! E o 914 tinha penetração aerodinâmica ruim.
O 911 atual, também conhecido por 996, sofre do mesmo mal de configuração que assola a
marca há mais de 50 anos, só que, devido à competência dos engenheiros da marca, aos
largos pneus traseiros e aos recursos modernos da eletrônica, conseguem faze-lo portar-se
razoavelmente bem desde que não chova. Tive a oportunidade de dirigir um 996 em
Interlagos debaixo de um chuvaréu e, mama mia! a traseira só fazia chicotear de um lado
para o outro um saco.
Daí, em fins dos anos 1990, a Porsche lançou o conversível Boxster.... hhumm... motor
central-traseiro, uma delícia de carro, comportadíssimo, um corisco, porém, mais uma
vez, para não fazer frente à lenda do 911 (996), o motor veio fraquinho, mesmo assim vi
vários Boxster ralando uns 911 (996) muito mais potentes em Interlagos.
E agora veio o Cayman, que, apesar de ter um motor com 30 cv a menos que o 911 (996) (295
cv contra 325 cv), está ralando quem não era para ralar... Prova disso são seus tempos
na pista de Nürburgring, Alemanha, a meca das pistas, a mais completa, pois tem além de
um forte e longo trecho sinuoso, longas retas. Os tempos nessa pista mostram quem é quem
entre os esportivos. Aqui vão eles (nota, a pista em 21 km):
Aqui vão eles (nota,a pista em 21km)
7:32 Porsche Carrera GT motor central-traseiro V10, 600 cv
7:44 Zonda uns 600 cv
7:46 Porsche 996 GT2 (o GT2 é quase um carro de corridas, 380 cv, com pneus slicks)
7:47 Porsche 996 GT3 ( o mesmo que o GT2, pneus slicks)
7:50 BMW M3
7:52 Porsche GT3
7:52 Lamborghini Gallardo V10 500 cv tração nas quatro
7:52 Lamborghini Murciélago V12 580 cv tração nas quatro
7:52 Mercedes McLaren uns 600 cv
7:56 Porsche 996 Turbo uns 450 cv
7:56 Ferrari Modena 360 Stradalle pneus slicks
7:57 Porsche 993 Turbo 600 cv
8:07 Ferrari Maranello 550, 550 cv
8:09 Lamborghini Diablo SV tração nas quatro
8:09 Ferrari Modena 360, 400 cv
8:10 Dodge Viper 550 cv
8:11 Porsche Cayman 295 cv. Vejam só! com um motorzinho bem mais fraco que os mais
rápidos que ele.
O Porsche 996 normal? Bem, ele tomou 6 segundos do irmão menor, fez em 8:17...
Não preciso falar mais nada, só dar as boas vindas ao Porsche que finalmente é como foi
idealizado uns sessenta anos atrás.
Abraço
Arnaldo

Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br
apoio
FENO DE COAST-CROSS E TIFTON
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tel. (19) 9729-1778
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