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Publicado em 07/08/2008 OS QUE AGARRAM O TOURO A UNHAfotos: divulgação ![]()
Quando eu era moleque, com uns 7 anos, fui parar na arquibancada de uma tourada em Portugal. Olhos arregalados, fiquei impressionado com aquelas cenas de valendo tudo ou nada se desenrolando diante de mim, tudo na real. O legal da tourada portuguesa é que ali não se mata o touro, como fazem na Espanha e México. Toureiam com a capa, driblam o touro, lhe espetam bandeirilhas no lombo para irritá-lo, toureiam com cavalos ágeis da raça Lusitana e, o que mais me impressionou, agarram o touro a unha. Isso mesmo, juntam uma meia dúzia de portugueses parrudos e, juntos, o agarram e imobilizam. Tudo de mãos limpas; imobilizam um touro Miúra dos mais raivosos sem cordas nem nada. Coisa de macho. Um deles fica defronte o touro, insultando-o, enquanto em fila os companheiros ficam atrás desse primeiro. O touro cavoca a areia, chacoalha a cabeça e vem desembestado feito um trem. O toureiro, mantendo-se de frente para o touro, corre para trás, de ré, para diminuir o choque, e trata de se encaixar entre os chifres. Ele recebe a pancada no estômago e agarra-se ao pescoço da besta, que continua avançando, levando o toureiro como se levasse um pedaço de pano, levantando e abaixando a cabeça sem lhe sentir o peso, batendo-lhe as pernas no chão e erguendo-as ao céu. Assim a coisa vai até que a fila dos companheiros escora o trem. E vou vendo...![]()
Até agora não sei o que é pior, se é ter um touro pela frente ou cinco portugueses machos por detrás, só sei que o coitado do agarrador toma uma espremida dos infernos e não sei como não solta a traquéia e o estômago pela boca, mas sei que o cara aguenta firme, bem agarrado com músculos de aço, enquanto os outros se esparramam, encarapitando-se por todos os lados do bicho. Na maioria das vezes, tudo dá certo e eles vencem a besta, imobilizando-a. Há um simbolismo nisso tudo. Há um tremendo exemplo de coragem, determinação, companheirismo, confiança mútua, honra e muitos outros exemplos mais, é só ficar olhando e tecendo paralelos com as nossas vidas. E assim vou vivendo e vendo a vida dos outros se passando. Vou vendo os sujeitos que se agarraram aos seus ideais e não largaram. Vou vendo os que fugiram da luta e agora não têm porque viver. Vou vendo os que vencem, vou vendo os que morrem agarrados aos seus sonhos, vou vendo os que não ligam de morrer desde que em vida tenham lutado. Por quê estou escrevendo isso, já que não tem nada a ver com carro? Porquê nestes últimos meses testemunhei a vitória de três amigos que batalharam muito para realizar seus sonhos de construir carros esportivos e estão conseguindo. Um deles é o engenheiro Marcos Lameirão, filho do afamado piloto Chico Lameirão, e de quem recentemente contei há poucas semanas nesta coluna. Como relatei na matéria, ele projetou um carro de corridas GT3 para a Ginetta, uma fábrica inglesa, e seu carro já no meio do campeonato inglês faturou antecipadamente o título, vencendo Aston Martin, Porsche Cayman, Nissan 350Z, Mustang e outros. Sucesso. O Marcos já está projetando um esportivo de rua para a fábrica e não tenho dúvidas que esse carro um dia chegará ao Brasil, para nosso orgulho e deleite. Ford GT40Outro amigo é o Cleber, da Americar Veículos, que há anos, quando da primeira vez que fui visitá-lo, o vi trabalhando duro numa oficina, literalmente, no fundo do quintal para construir suas réplicas de Ford Cobra. Ali, com dedicação, já fazia bons carros, com bom acabamento, muito bonitos. Hoje está com uma ampla fábrica em Santo André, onde fabrica, além dos Cobra, uma belíssima réplica do Jaguar XK120 (motor do Omega 6-cil). E agora, recentemente, acabou de lançar sua réplica do Ford GT40. Esse GT40 ainda está nos ajustes finais, onde estão sendo feitos os acertos finais de suspensão, definindo o correto set-up de alinhamento, definição das melhores molas e amortecedores (ambos importados da Inglaterra). Já guiei o carro, e mesmo ainda sem o acerto de sintonia fina já vi que o carro é maravilhoso. O motor V8 Ford 302, importado da Ford Racing, com 350 cv, já empurra barbaridade e deve levar o GT40 a mais de 270 km/h e fazer a acelerada do 0 a 100 km/h em algo abaixo dos 5 segundos, e estou sabendo que o segundo que está sendo montado terá um motor de uns 500 cv, um monstro, bem do jeito que a gente gosta. Esse passará dos 300 km/h e nunca, nem em sonho, o Brasil produziu um carro em série que atingisse essas velocidades. Lotus SevenE agora, outro amigo, o engenheiro Eduardo Polati, este sábado me deu a honra de ser o segundo sujeito a guiar (o primeiro foi ele mesmo, claro) sua réplica de Lotus Seven que em breve começará a fabricar, esportivo que venho acompanhando a criação desde os primeiros traços no laptop do Edu. Pois é, na manhã deste último sábado, o piloto Chico Lameirão, o engenheiro Milton Belli (engenheiro da Lobini) e eu, fomos à casa do Edu para as primeiras voltas no novo Seven. Todos guiamos o carro pelas desertas ruas do condomínio afastado em que mora e por horas, comendo deliciosos biscoitos e tomando um cheiroso cafezinho da Lulu, e na garagem ficamos discutindo o carro, opinando sobre ajustes finais, detalhes aerodinâmicos, acertos de suspensão, saídas de ar para ventilação do motor, desenho do pára-brisas, pressão dos pneus, potência, curva de torque, posição da alavanca de marchas, posição dos pedais etc etc. E foi uma manhã deliciosa, rica de idéias e prazeres de uma boa pilotada, tudo isso temperado pela paixão que temos pelos esportivos de verdade, autênticas máquinas de lavar a alma de alguns seres humanos. Este primeiro protótipo pesa 570 kg e está com um motor Ford Rocan 1600, preparado, com 140 cv. Imaginem o quanto anda! 0 a 100 km/h na casa dos 5 segundos, estabilidade absurda devido ao baixo centro de gravidade e à primorosa suspensão independente nas 4 rodas, uma tremenda sensação de pilotagem, já que estamos rente ao solo (baixando a mão esquerda tocamos o solo) e nos sentamos lá atrás vendo os pneus dianteiros trabalhando, acompanhando o asfalto e virando ao fazermos as curvas. Esse é mais um esportivo que já nasceu bom, que será um sucesso e dará muito o que falar. Podem esperar, mas a espera é por pouco tempo, pois em breve a fabricação dessa saborosa máquina estará à venda. Podem deixar que o amigo leitor do Superauto ficará sabendo. Pois então, é isso! É um enorme prazer ver os amigos agarrando o touro a unha e conseguindo vencer. Outro prazer é estar junto nessa briga. Abraço, Arnaldo Keller arnaldokeller@yahoo.com.br Compartilhe: |