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Publicado em 17/07/2008 OS LAMEIRÃO E O AUTOMOBILISMOProjetado por um brasileiro, o modelo G50 faz sucesso na GT4 inglesaArnaldo Keller ![]()
Fotos: Divulgação “E aí, Chico! Parabéns! Fiquei sabendo que você agora está na Lobini, com a equipe que está desenvolvendo um novo carro” – cumprimentei o Chico Lameirão ao encontrá-lo em Interlagos, neste último domingo, dia 13, um pouco antes de iniciar a prova de GT3. “Aceito os parabéns, mas principalmente por outra coisa!” – ele respondeu animado, todo contente. “Meu filho Marcos foi consagrado campeão por antecipação na GT4 inglesa. E estão ainda no meio do campeonato. O carro dele andou ganhando tudo!” É melhor explicar a conversa. Aos mais jovens, que não viveram nosso automobilismo entre as décadas de 60 e 80, o Chico foi um dos grandes pilotos brasileiros dessa época. Ombreou com Emerson, Luiz Pereira Bueno, Wilsinho, Pace, essa turma da pesada. Pilotou em todas as categorias, venceu em todas e foi campeão em algumas. Correu de Fórmula Ford na Europa mas, por falta de patrocínio para ficar por lá e por ter boas ofertas cá, voltou. Seu conhecimento técnico é profundo e vasto, tanto na área da pilotagem quanto na mecânica. Por essas e outras é um dos grandes ídolos de nosso esporte, e o mais importante, é um grande sujeito. E o Marcos Lameirão, o filho do Chico? Esse preferiu seguir a carreira de engenheiro mecânico, formou-se na Mauá, e pelo jeito escolheu certo. Desde pequeno freqüentava as pistas, os boxes, as oficinas mecânicas. Nessa vida aprendeu a amar o esporte e, com o pai, a saber como se constrói um carro de corrida vencedor, a ir na veia. E assim, após alguns anos trabalhando na Stock-Car brasileira (onde, digo eu, não há muito a aprender porque os carros são um lixo), no começo do ano passado o Marcos mandou seu currículo à Ginetta, uma tradicional fabricante inglesa de carros de corrida. Pediram-lhe um pré-projeto de um carro para a categoria GT4. Ele fez, o pessoal da fábrica adorou e lhe deu carta branca para tocar adiante. Todos trabalharam feito loucos, principalmente o Marcos, e em seis meses o carro - agora nomeado G50 e equipado com um motor Ford V6 de 300 cv - estava na pista disputando sua primeira corrida contra Porsche Cayman, Nissan 350Z, Mustang, Aston Martin etc. ![]()
Os carros são preparados e aliviados de peso de modo a terem todos a mesma relação peso:potência de 3 kg:cv. Pneus slicks. Nessa primeira corrida o Ginetta G50 já chegou em 2º lugar, só perdendo para um Mustang. Os gringos endoidaram. Sendo seu preço quase a metade de um Cayman ou de um Aston e andando mais, chegaram encomendas a rodo e em uma semana a fábrica já estava com uma lista de mais de 56 pedidos do G50, sendo que parte correria na GT4 e parte correria numa nova categoria monomarca que formaram imediatamente. Mas o sucesso não parou por aí. Em seguida o G50 passou a vencer praticamente todas as provas inglesas de GT4 deste ano e, como o Chico orgulhosamente disse no começo da conversa, na metade do campeonato o Ginetta G50 já se sagrou campeão. É mole? E agora o Marcos já está debruçado em cima de um novo projeto, um GT3 (com motor V8), que é uma categoria mais forte, onde correm carros como estes que correm no campeonato brasileiro de GT3, Ford GT, Ferrari 430, Porsche 911, Lamborghini Gallardo, Viper etc, carros cuja potência sobe para mais de 500 cv e a relação peso:potência é mais “braba”, ao redor de 2,5 kg:cv. Para tanto, para que um carro possa correr na GT3 é preciso que ele seja derivado de um carro esportivo que seja vendido para andar nas ruas, tal qual esses que acabo de citar. Portanto, o plano da Ginetta é fazer um Ginetta esporte de rua. Vejam quanto trabalho o Marcos tem pela frente, e que trabalho legal. Isso é bom para o Marcos, é um orgulho para todos nós, porém mostra que o Brasil é o país do desperdício, mesmo. Um talento como esse, e um trabalhador esforçado como esse, diga-se, tem que buscar lá fora as condições para poder colocar em prática seu potencial. Aqui, do jeito que está nosso automobilismo, não rola nada. É quase tudo categoria monomarca, o que inibe a competição. O que desenvolve tecnologia são as categorias em que muitas marcas competem, tal qual na Fórmula 1, onde as fábricas investem os tubos e estão sempre se aprimorando. No Brasil, de multimarcas só tem as corridas de GT3 e de caminhão. E aí vamos à nossa GT3, que basicamente é uma boa categoria, cujo público está aumentando justamente porque quer ver Ferrari brigando com Porsche, Viper mordendo Lamborghini e por aí afora. Mas aí entramos na velha história de gente que não é do ramo dirigindo nosso automobilismo e que só quer espetáculo para atrair o público e faturar em cima de patrocínio. E daí a direção da GT3 força a barra para que os carros disputem palmo a palmo a corrida, e isso ao meu ver está meio esquisito. Vejamos: os Ford GT já estão recebendo lastro extra de 140 kg. Isso porque os dois Ford GT estavam ganhando quase tudo, mesmo tendo a mesma relação peso:potência dos demais. Então o que faz a direção da categoria? Em vez de deixar os outros se virarem para fazerem melhores carros, para que a categoria se nivele por cima, ou seja, para que as equipes busquem melhorias, a direção manda botar cada vez mais peso nos melhores carros, ou seja, estão nivelando por baixo. O resultado é que o Walter Salles, piloto de um dos dois Ford GT que competem, me disse que com esse peso extra seu carro, já no meio da corrida, está ficando sem freios. É claro! Os freios não foram dimensionados para tanto esforço. Outra: o Lamborghini Gallardo que compete não tem tração nas quatro rodas tal qual o Gallardo de rua. Está certo isso? Pra mim, está errado. Que lhes dessem alguns limites, como de cilindrada e outras dimensões, e o resto que ficasse por conta da equipe. De qualquer modo, o que vemos na pista não é o que podemos ver na rua, ou seja, a categoria não nos diz quais são os melhores esportivos da atualidade. No final, portanto, ela perde a razão de ser, perde o incentivo à criatividade e se torna só mais um espetáculo fútil para o povo. Pão e circo! E cuidado com o pão, porque o preço do trigo está subindo. Abraço, Arnaldo Compartilhe: |