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Publicado em 12/06/2008 Viva Kubica, e não Kubitza!Arnaldo Keller Ilustração: Toninho ![]()
Quando, após a largada do GP do Canadá, o Kubica colou no Hamilton, algo me dizia que essa corrida seria do polonês. Muitas vezes dizemos que “sentimos” que vai acontecer uma coisa, porém, creio que a expressão certa não é “sentir”, mas sim “concluir sem ter as idéias ordenadas”. Depois que a previsão se concretiza é que vamos ordenar as idéias e entender porquê sentimos aquilo. Vamos a elas: para vencer adversidades é preciso motivação, e isso o Kubica tinha de sobra. Se ele vencesse seria sua primeira vitória e também seria a do primeiro polonês a ganhar uma corrida de Fórmula 1. Seria também a primeira vitória da BMW desde que a equipe comprou a Sauber e assumiu a equipe como um todo. Além de tudo, o Kubica assumiria a liderança do campeonato. Havia muito a ganhar, ele ficaria muito bonito no pedaço, portanto não seria uma vitória comum. Como vemos, havia muita motivação e na frente do polonês só tinha um obstáculo, o Hamilton. Ele conseguiu transformar toda essa pressão em força. Em vez de ficar acanhado, nervoso, com medo de não conseguir chegar lá, ficou determinado e agiu, um sinal que tem forte personalidade. Tudo isso, de algum modo, transpirava no seu modo de guiar, ou seja, o Kubica estava com pinta de vencedor, estava com tudo. Ele fazia um traçado melhor, reagia antes dos outros, freava mais tarde, estava agressivo, com fome e pilotava liso, mantendo tudo sob controle, senhor de si. Diante disso, creio que “senti” que estava pra ele. Rei do DiaComo adoro cavalos, volta e meia, nos fins-de-semana, vou ao Jockey Club assistir às corridas. É um lugar lindo, amplo, silencioso, verde; em suma, um oásis dentro desta São Paulo caótica. Pra diversão ficar ainda melhor, faço uma fezinha nos bichos apostando uns trocados, e por enquanto estou no lucro. A fórmula mágica (todo apostador tem a sua) é, por exemplo, observar o tipo físico dos animais - se é corrida curta, buscar os mais musculosos e, se é longa, os mais delgados e com bastante pulmão. Depois, analisar os cartéis, a bolsa de apostas etc, e depois, o mais importante, captar qual deles está com pinta de vencedor. O que vai vencer avisa antes. De algum modo ele mostra que aquele é o dia dele, que ele acordou com tudo e que não tem pra mais ninguém. O jeito de ele andar e dar seus primeiros galopes na apresentação anterior à corrida mostra como está seu espírito. Você olha e pensa “Noossa! Esse é o rei do dia!”. Isso acontece também no futebol. Tem dias que um jogador acorda com a macaca e logo no começo do jogo a gente percebe isso. E é batata, o cara dá show mostrando que o jogo é com ele mesmo. E os campeões são assim. Eles, mais que os rivais, acordam mais dias do ano com a macaca. E também logo mostram a que vieram, como bem mostrou o Hamilton no ano passado, já que, logo de cara, em seu primeiro ano na F1, saiu vencendo uma corrida atrás da outra sem dar a mínima bola para o Alonso, seu companheiro de equipe e então bicampeão mundial. Logo vimos que tinha um algo a mais. Os carros mudaram, estão sem o controle de tração e, devido a isso, muito mais difíceis de guiar. Mesmo assim o Hamilton continua andando entre os ponteiros e vencendo, mostrando que dificilmente deixará de algum dia vir a ser campeão. Não é o caso do Nelsinho Piquet. Toda corrida ele faz alguma besteira e toda corrida ele está muito atrás do Alonso, seu companheiro na Renault. Seu próprio pai - mostrando sensibilidade paterna de urso - já falou que, de seus filhos, o que mais promete é o mais novo, o que está correndo de kart. Depois dessa do Nelsão, não temos mais nada a falar do Nelsinho, coitado. Velha GuardaKubica, Massa, Hamilton, Kimi. Por enquanto, essa é a geração que promete. A Globo fez o maior farol da ultrapassagem dupla do Massa, dizendo que foi obra de gênio. Foi nada. Foi bonita e só. Não sei bem quem passou o Barrichello na freada de um “hairpin” (“grampo” em inglês, devido à curva ser fechada como um grampo), e nessa freada o sujeito exagerou, escorregou e entrou na frente do Barrichello, fazendo com que os dois quase parassem. Com isso abriram uma avenida pro Massa passar, e ele passou. Nada demais. Ao longo da corrida ele fez ultrapassagens muito mais difíceis e bonitas. E no pódio tivemos a velha geração sendo representada pelo Coulthard, confirmando o que havíamos previsto no começo da temporada, que a retirada do controle de tração favoreceria a velha guarda, a que já corria antes de a F1 ter esse recurso, e estava acostumada a dosar a potência. Ano passado - com o acelerador atuando na base do “on/off”, quando ao piloto bastava pisar tudo no acelerador que o computador de bordo dosaria a potência máxima possível - não era necessária a sensibilidade. Este ano sim, estamos vendo os brutos se estreparem e os refinados se dando bem, e o Coulthard sempre foi exemplo de uma pilotada suave e consistente. O Barrichello, bom, apesar de ser da velha guarda nunca foi um piloto suave, veloz (porque para ser veloz mesmo, tem que ser suave). Sempre foi nervosinho, queimava pneu em um monte de freadas etc. No final, a carreira do Rubinho teve o que mereceu. Ganhou algumas corridas, ficou rico, se divertiu, jogou limpo, bom piloto, bom sujeito. Tudo bem. De qualquer modo, este ano a Fórmula 1 voltou a ficar atraente e competitiva, sem aquela chatice dos anos anteriores. E agora parece que o Galvão parou com aquela idiotice de chamar o Kubica de Kubitza. Ufa! Finalmente! Cara chato, meu! Abraço, Arnaldo Compartilhe: |