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Publicado em 24/04/2008

Águas de Lindóia se derretendo

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Réplica do Ford GT 40

Arnaldo Keller

Porque será que no Brasil as coisas boas, em vez de melhorar, pioram? A exposição e concurso de Águas de Lindóia é um desses casos; a quantidade de carros realmente clássicos e bons caiu, e caiu bastante. Está bom para Opala, Chevette GP, Dodge Dart, DKW etc, mas a maioria dos grandes clássicos se foi; poucos restaram, e esses poucos que restam parecem que se sentem ilhados, deslocados, como uma nobreza destronada no meio do povão burguês.

Nada contra carros antigos e comuns, como os citados Opala etc., mas, vem cá, caro leitor, vamos separar devidamente as coisas: carro clássico é carro clássico e carro de transporte é carro de transporte. Colocar todos na mesma cesta é uma injustiça. O carro clássico já nasce clássico; ele chocou assim que apareceu, trazendo tecnologia nova e revolucionária, ou nasceu lindo de morrer, ou sei lá o quê, ele é fruto de forças, pessoas, que movidos pela paixão deram tudo de si para fazer algo novo, bonito, corajoso, inovador, caprichado. Já o carro comum é fruto de gente que queria ganhar dinheiro fabricando e vendendo carro e boa.

Um exemplo: o Ford modelo T é um clássico, já um Ford modelo A nem tanto. Por que? Porque o T é fruto da genialidade de Henry Ford, que, para fabricá-lo em larga escala e a preço baixo inventou o sistema de linha de produção, onde o operário ficava parado e o carro vinha rolando por trilhos para ser montado, cada operário cumprindo uma etapa da montagem, em vez do carro ficar lá parado e em volta dele formar aquela bagunça de operários indo e vindo com peças e ferramentas. Foi com o modelo T, em 1908, que esse negócio de linha de produção começou.

O T revolucionou a indústria do automóvel, porque derrubou o preço dos carros no geral. Além disso, Henry Ford dobrou o salário de seus operários, porque viu que com o que eles ganhavam não daria para comprar os carros que eles mesmos fabricavam, então, do dia para a noite dobrou os ganhos de seus operários para que eles também tivessem o poder de consumirem o que produziam. As outras fábricas tiveram que fazer o mesmo, senão tudo quanto é operário de gabarito iria trabalhar na Ford, então, o modelo T é um marco, um estopim de uma saudável revolução social que fez surgir uma classe operária com meios de vida em ascensão e melhor bem-estar. Com isso as vendas de modelo T aumentaram barbaridade...

Máquina do Tempo

O modelo A é um carro melhor que o modelo T? Claro! Melhor em tudo, mas ele não é um marco de um momento histórico nem nada. Portanto, não é um clássico de verdade. Ele é só um carro antigo do qual temos boas lembranças. Eu, por exemplo, aprendi a guiar num desses, na “chimbica” 1929 - assim chamávamos as picapes velhas - do Seu João Moraes, o gerente do retiro lá da fazenda (retiro é o local onde se tira leite das vacas). Após fazer a ordenha da tarde a gente tomava banho de balde com chuveiro pendurado nos caibros do teto do banheiro, e depois, limpos, mas ainda fedendo a bosta de vaca, a gente ia tomar cerveja na venda.

Eu, com uns 12 anos, e meio bêbado e tonto, voltava dirigindo na estrada de terra aquela chimbica de faróis mortiços e folga na direção de meia volta do volante. Uma tremenda aventura, muitas vezes repetida e saboreada. Deliciosas lembranças de uma picape Ford modelo A. Hoje, com 51 anos de vida nos ossos, eu adoraria comprar uma igual para voltar a encher a cara até ficar bem zureta e guiá-la pelas mesmas estradas de terra. Seria reviver minha vida, uma incrível mágica que os automóveis são capazes de fazer, mas é só. Essa chimbica se resume a isso, uma máquina do tempo, o que já é o bastante para que desejemos vê-la. Mas ela não é um clássico e ponto final.

O encontro em Águas de Lindóia virou esse troço: vai um monte de gente que entope a cidade pra ver carros que lhes lembram fatos do passado. “Olha aquele Opalão! Meu avô tinha um igualzinho! Êta velho barbeiro! Só o Opalão pra agüentar o velho!” “Olha um Gordini! A gente o chamava de Leite Glória porque desmanchava sem bater!” “Olha um DKW-Vemag! No tempo dele o Rio de Janeiro não tinha dengue, de tanto fumacê que ele fazia com óleo dois tempos!”

Apesar de tudo, valeu ter ido, porque lá foi lançada a belíssima réplica do Ford GT40 feita pela Americar Veículos, um carro de visual espetacular. Sua carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro tem um acabamento excelente e, pra arrematar, foi pintada com as cores da Gulf Oil - azul claro e laranja -, o patrocinador da Equipe de John Wyer, equipe que venceu Le Mans por duas vezes seguidas (1968 e 69). Antes disso, o GT40 já vencera Le Mans em 1966 e 67, mas como Equipe da Ford. Em 1969, tendo como pilotos Jackie Oliver e o lendário Jacky Ickx, em 24 horas de corrida o GT40 percorreu 4.998 km a uma média de 208 km/h! Velocidade média, meu chapa! Média! Em 24 horas os caras foram daqui de São Paulo até Bariloche, no sul da Argentina, e voltaram mais mil quilômetros! Tá bom ou quer mais? Esse carro merece ou não merece ser replicado? Vamos ver se esta réplica anda tão bem como nos agrada aos olhos. Parece que sim, pois acompanhei sua montagem e sei que ela tem tudo para ter uma dinâmica espetacular.

Convidado pelo Cleber, o dono da Americar, entrei no bicho e dei a partida no bem comprimido motor importado da Ford Racing americana. É um V8 de 302 polegadas cúbicas, uns 5 litros, de cilindrada. Produz 350 cv e é carburado com um Holley Quadrijet. O comando de válvulas relativamente calmo, aliado à boa carburação, forma um conjunto que em baixas rpms me pareceu o bastante para andar tranqüilo nas ruas. Segundo o Cleber, 90% das peças desta réplica servem para o GT40 original, tal a fidelidade do trabalho. O ronco também é fiel. Os canos de escape se agrupam numa certa seqüência em um abafador e, dele, saindo por duas bocas, vem um ronco mais agudo que normalmente os V8 dão. Era assim que Henry Ford II queria. Ele queria um ronco mais parecido com os V12 das suas odiadas Ferrari.

Choveu pra caramba lá em Lindóia. O vendedor de capas plásticas rachou.

Abraço, Arnaldo

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