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Publicado em 17/04/2008

TEM ENERGIA SOBRANDO O QUE FALTA SÃO MIOLOS

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TEM ENERGIA SOBRANDO O QUE FALTA SÃO MIOLOS

Arnaldo Keller

Os Estados Unidos estão torrando 90 milhões de toneladas/ano de milho em grão para produzir o etanol. Lá, devido ao inverno muito frio, não dá pra plantar cana, a não ser em pequenas áreas da Flórida e Havaí. Então eles usam o milho em grão para produzir etanol, mesmo que para isso eles gastem 2 unidades de energia (petróleo, carvão, caminhão, trator, eletricidade) para colher 3 unidades de energia em etanol (aqui, com a cana, gastamos 1 e colhemos 7). Isso é uma barbaridade! Uma burrice. Meus 30 anos de agricultura e pecuária nas costas não me deixam aceitar um desperdício dessa monta. Vamos lá que explico:

Para produzir essa quantidade de milho são necessários - baseado na produtividade americana - 12 milhões de hectares, uma área onde caberiam 20 milhões de campos de futebol de tamanho oficial. Já imaginou o tamanho do milharal?

Essa área, caso fosse destinada a produzir alimentos - trigo, soja, carne, milho, frango, leite, verduras etc. - seria suficiente para alimentar toda a população brasileira, todinha, 180 milhões de tupiniquins.

O povo americano - diga-se administração Bush - resolveu pagar essa maluquice, daí que pagam por um etanol caro e produzido de maneira ineficiente. Com as usinas de etanol pagando caro pelo milho, o agricultor americano que antes plantava soja, trigo etc. passa a plantar milho. Daí que falta soja, trigo etc., e a conseqüência é que o preço desses produtos sobe.

O galho é que esses são produtos de mercado mundial; se sobem lá na bolsa de Chicago, imediatamente sobem cá e no mundo todo, on-line. Aliado a isso, os famintos chineses e indianos estão ganhando um pouco mais além da miséria e estão comendo mais, graças a Deus. Isso gera mais demanda. Daí a alta dos alimentos aqui no Brasil, apesar dos recordes de produção agrícola que viemos quebrando.

Os EUA tiram essa de letra, porque o peso do custo do alimento é baixo em relação às despesas gerais de um povo que consome muito de tudo, então, eles não estão nem aí. Já para os países pobres, como da África e América Latina etc. o alimento pesa, porque pobre gasta com comida quase tudo que ganha. Então, eles não têm por onde se virar e se ferram, comem menos do pouco que já comiam.

FILHOTE DE PAVÃO COM URUBU

Aqui no Brasil - um país que trabalha para o bem-estar de meia dúzia de banqueiros - o único remédio que os governos “conhecem” para a inflação é aumentar os juros, “para reduzir a demanda”, justifica o ex-banqueiro e atual presidente do nosso Banco Central. O Lula, como sempre, está fora dessa. “Não sabe de nada” e não interfere em medidas impopulares.

Não vai adiantar nada. Não vai adiantar nada pra nós, bem entendido. Pra nós só vai ferrar a fogo, porque menos consumo é menos bem-estar, menos TV nova, menos carro novo, menos Danoninho, menos emprego. Não vai adiantar nada no combate à inflação, porque sua origem é externa e não interna.

E sabem porque nem o Bush, nem Japão, nem Europa compram etanol brasileiro? Porque não confiam em um governo amigo da turma do Chávez. Preferem depender dos árabes, porque são mais confiáveis, segundo os gringos. De qualquer modo, o Lula parou de fazer propaganda do nosso etanol em suas viagens ao exterior, porque já viu que não venderão o que pensavam que iam vender, pelo menos até que tenhamos um governo razoável. Daí que está sobrando álcool aqui dentro, apesar do aumento do consumo interno, e o preço da cana tem caído uma barbaridade para o produtor.

Mas agora é tarde para o produtor agrícola voltar a plantar grãos, porque ele já vendeu as máquinas, vendeu as vacas leiteiras pro açougue, já despediu os empregados, ele já criou preguiça, já tem TV a cabo pra ver futebol sem parar e não tem mais saco de voltar a plantar. Já era!

Tudo por causa desse maldito álcool/etanol, e também por causa dessa enganação que é o carro flex, que não queima direito nenhum dos dois combustíveis; uma cruza de pavão com urubu, que deu um filho feio feito o urubu e que voa mal feito o pavão, apesar da propaganda martelar que o filhote é lindo como o pavão e que voa bem que nem urubu.

REINO DA DINAMARCA

Enquanto isso, lá longe, lá no Reino da Dinamarca, longe das podridões deste mundo, o governo acabou de assinar com a Better Place, a mesma empresa que montou o projeto de centenas de milhares de carros elétricos com a Renault em Israel. A Dinamarca também vai entrar pesado nos carros elétricos. Lá, 20% da sua geração de energia já provém de usinas eólicas, os tais moinhos de vento.

Essas usinas, em sua maioria, estão montadas no meio do Mar do Norte, onde há muito vento, e constante. E acontece que sobra energia durante a noite, enquanto os dinamarqueses dormem, porque nenhum santo lembra de desligar o vento antes de ir dormir, e descobriram que é justamente à noite que se carrega as baterias dos carros elétricos... Moral da história: as baterias dos carros elétricos armazenarão essa energia que está sendo jogada fora e pagarão por ela, e isso vai acabar barateando a energia elétrica para todos.

Abraço, Arnaldo

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