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Publicado em 06/03/2008 Trânsito paulistano, estresse e motos![]() Trinta anos atrás, não víamos a hora de completar 18 anos para tirar carta de motorista e guiar por aí. Era um símbolo de liberdade, e era liberdade mesmo poder pegar um carro e ir pro trabalho, pro estudo, pra casa da namorada, pro futebol etc. Já tínhamos na cabeça quanto tempo levaríamos para o trajeto programado e, salvo raras exceções, dava certo, chegávamos no horário programado. Sem estresse, era fácil ser pontual no trabalho, na aula e também na casa da namorada, sendo que, no último caso, a tempo de esperá-la acabar de se arrumar e ter que aturar o inquérito dos sogros sondando a vida da gente. Tenho notado que hoje em dia a rapaziada não está muito ansiosa por tirar carta, e creio que na certa é porque hoje não mais é gostoso guiar em São Paulo. Salvo raros dias e horários, guiar nesta cidade é chato pra burro, fora o que é caro, porque a “indústria da multa” atinge a esmo culpados e inocentes. Dou um exemplo: minha mulher foi multada por rodar numa avenida a 68 km/h onde a máxima era de 60 km/h. Oras bolas! Não conheço pessoa mais cuidadosa ao volante. Multá-la por excesso de velocidade é o mesmo que afirmar que ela foi irresponsável, que colocou a vida dos outros em risco, e isso é puro absurdo e injusto. Nas avenidas somos obrigados a ficar olhando constantemente para o velocímetro e isso tira nossa atenção do que realmente interessa, além do que, é chato pacas. Não gosto de me sentir a um passo de ficar fora da lei. Ando na linha pra lei não me perturbar, mas, por aqui não adianta, porque sempre estamos à beira da ilegalidade e isso, mesmo inconscientemente, estressa. EstresseTentar ser pontual na cidade de São Paulo é outro fator estressante. Simplesmente não sabemos quanto tempo levará o deslocamento programado. Não sabemos nem qual caminho tomaremos. O estresse já começa ao ligarmos o carro. Nosso cérebro já vai visualizando as várias alternativas de rota, para o caso de nos depararmos com um congestionamento caótico, que passou a ser comum. Portanto, antes de partir não há tempo nem rota previstos. Isso cria expectativa, e a sensação de expectativa é um fator de estresse. Por aqui também não havia o serviço de moto-boys e, pasmem, a cidade funcionava bem sem isso. Sei que esses rapazes com tendência suicida são os que mais sofrem no trânsito, sei disso e lamento por eles. Gostaria que tivessem uma profissão melhor, sem perigo constante e com melhores expectativas de progresso. Mas, se me permitem, vendo a coisa somente pelo ângulo do motorista, o modo como os moto-boys pilotam são outro fator estressante para os motoristas. Andam entre os carros numa velocidade excessiva. Nossa faixa de rolamento, portanto, não nos pertence, não é respeitada, porque por trás pode surgir uma moto à toda, tanto de um lado como de outro. Passam lascado a poucos centímetros dos carros. Não podemos nos mexer um triz, senão os esprememos e causamos um acidente horrível. Vivo tendo sobressaltos e, tenham certeza, sou um motorista calmo e muito seguro do que faço. Fico imaginando como se sentem os inseguros, o quanto sofrem com isso, quantas vezes o coração lhes vêm à garganta. Os moto-boys se acham uns craques, mas não são, não. Somos nós que somos os craques, porque nós é que fazemos de tudo para evitar que se machuquem, por mais que tentem. Hell's AngelsEscapamento aberto e buzinação constante é ilegal, porque atingem o bem-estar dos que os rodeiam, e isso é uma constante entre as motos. E ninguém multa. Podem zoar à vontade. Por que não multam? Por que não fazem blitz e conferem os escapes das motos? Será que a polícia tem tanto medo deles quanto nós? Isso nos cria uma sensação chata de injustiça, e ser injustiçado é estressante. E se uma 125 com escape aberto já incomoda, uma Harley-Davidson com escapes diretos e com cilindrada dez vezes maior, incomoda muito mais. Esses são ridículos e mal-educados, e talvez não saibam. Além do mais, ter uma Harley para rodar em São Paulo é mostrar atestado de ignorância motociclística, já que, pra esse uso, pior que essa moto só a extinta Amazonas com motor de Fusca. As Harley foram feitas para viajar a 110 km/h em estradonas aveludadas americanas. Saiu disso, ficam anacrônicas. Não andam nada - uma Twister 250 arranca mais que uma Harley 1200. São péssimas para curva, pois arrastam o pedal à menor inclinação. Péssimas para buracos, pois têm curso de suspensão traseira muito curto e duro. Em qualquer buraco que caiamos, a suspensão traseira bate no fim do curso e corremos o risco de perder o controle. O motor esquenta barbaridade as nossas pernas e dele sobe um calor infernal. Os cromados, apesar de decorativos como lantejoulas carnavalescas, provocam reflexos chatos que atrapalham nossa visão. O que ela tem de bom é o amplo e macio selim, que acomoda confortavelmente amplos e macios traseiros. São boas para viajar com um grupo de amigos, todos travestidos de “perigosos” Hell’s Angels. Pena que tenham desvirtuado o espírito indomável dos legítimos harleiros... Fico imaginando o que os legítimos pensam dos falsos. De qualquer modo, guiar em São Paulo está muito chato e estressante. Não é à toa que a rapaziada paulistana de hoje não está ansiosa pra entrar nessa fria... Abraço, Arnaldo |