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Publicado em 21/02/2008

TAZIO NUVOLARI

Arnaldo Keller

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Histórias inesquecíveis de um dos melhores e mais marrudos pilotos

Outro dia estava conversando com uns amigos que gostam de carros, quando o André me mostrou um belo livro, com muitas fotos da história das competições automobilísticas desde o final do século retrasado até o final da década de 50. Época realmente romântica. Lá estavam Fangio, Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Alberto Ascari, Froilán González, Stirling Moss...Ali estava a nata, os pilotos mais intrépidos, mais valentes, mais raçudos. Um monte morreu em acidentes, porque a barra era pesada. O sujeito tinha que ser meio doido, senão, afinava mesmo. Se a razão mandasse, ninguém correria.

Aí, eu estava falante e comecei a contar algumas passagens dessa história. Como a platéia de dois estava atenta, continuei.

“– Esse Tazio aí, esse baixinho magrelo com cara de cavalo e feio pra burro, foi um dos melhores e mais marrudos da história. Tazio Nuvolari, nascido em Mantua, Itália, começou como piloto de motos, na década de 20. De cara começou barbarizando e acumulando sucessos, como todo esportista genial começa. Numa dessas corridas teve um acidente de moto e se quebrou inteiro. Um monte de costelas rachadas feito bambu seco. Enquanto estava saindo do autódromo, carregado na maca e com dores que só um índio agüenta, mandou que o mecânico seguisse a ambulância na sua moto-reserva, mandou que levasse a moto para o hospital. “Mas, Tazio! Por quê levar a moto? Vai andar de moto no corredor do hospital? Acabou de endoidar?” – questionou o mecânico. “Leva a moto, diacho! Leva e não discuta! Depois você vai entender”, retrucou.

Não deu outra. O ortopedista examinou o magrelo raçudo, sem uma gota de banha e só tendão, músculos rijos e duros, mãos calosas e fedendo a óleo, e viu que pra endireitar aqueles ossos iam alguns bons quilos de gesso. Gesso desde a cintura ao pescoço, gesso num braço etc, sei lá. Só sei que o cara estava moído. E o médico começou a arrumar os apetrechos. Foi então que Tazio interviu: “Va bene, dottore! Va bene, mas antes vamos até lá fora”.

Só sei que ele, gemendo, montou na moto, se posicionou, segurou o guidão e olhou firme pro médico, dizendo:

- “Assim...engesse assim, senão vou embora! E não tem A nem B!”.

Pois é, no fim de semana seguinte ele estava correndo de moto com gesso e tudo...

Macho? Doido? Não sei ao certo, mas que esse baixinho tinha algo a mais, isso tinha.

Das motos para os carros

No meio dos anos 20, passou para os carros. Sucesso. Um jeito único de pilotar. Fazia a curva com ângulos retos. Uma vez, e só uma vez, Enzo Ferrari andou com ele. Achou que ia morrer, porque a tocada era maluca. Lembrem que os pneus daquela época eram finos e era fácil capotar aqueles carros com centro de gravidade alto. Antes da tomada normal para a curva, ele dava uma socada abrupta nos freios e um tranco no volante, puxando a frente para dentro. Com isso, o carro jogava a traseira pra fora e o carro terminava a reta de lado, com os pneus freando porque estavam de lado. Fazia toda a curva de lado e antes que o bico do carro passasse pelo ponto de tangência ele acelerava na tábua (naquele tempo o guarda-fogo era de tábua mesmo) e o carro saía cavoucando os pneus traseiros até alinhar com a reta.

Com isso, dizia ele, economizava os freios, já que ele dava só uma socada e em seguida tirava o pé. Naquele tempo os freios a tambor eram péssimos, tinham pouca potência de frenagem e esquentavam fácil, ficando borrachudos rapidinho e demorando para arrefecerem. As lonas viravam uma pasta. Você já sentiu isso? Pisar no freio e sentir que não vai dar? Naquele tempo, quando os freios sobreaqueciam, não era devido às bolhas de ar que se formam nos canos do fluido – coisa que pode acontecer num carro moderno –, porque eles eram acionados por varões, não eram hidráulicos como os atuais.

Tazio pilotou e ganhou com todos os tipos e marcas de carros por três décadas de carreira. O que caía em suas mãos ele traçava e fazia andar tudo o que dava. Na década de 30 pilotou os Auto Union com motor V16 central-traseiro, com 600 cv e que atingiam mais de 300 Km/h. Ele e Hans Stuck foram os que melhor se adaptaram a esse monstro perigoso projetado pelo Eng. Ferdinand Porsche, o primeiro carro de competições com motor central-traseiro.

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Ótimo para o uso urbano e razoável para a estrada

De brescia à roma em noite tapada

Numa de suas inúmeras participações na Mille Miglia, neste caso, a de 1930 – uma corrida de, como diz o nome, 1.600 km, que ia de Brescia à Roma, e voltava à Brescia, por estradas e com velocidade livre – ele pilotava um Alfa Romeo 6C (1.750 cm3, compressor, 120 cv, uns 600 kg de peso, já guiei um e anda forte). O piloto era acompanhado pelo mecânico, que provavelmente ia bêbado para ter coragem. Tazio estava em segundo lugar, seu mecânico era Guidotti, e era noite tapada.

Na frente ia Achile Varzi, meio tranqüilo porque estavam a poucas dezenas de Km da chegada. Tazio apagou os faróis e seguiu lascado, pé na tábua, fazendo, como sempre, as curvas de lado, curvas que não conhecia, já que não era um circuito. Varzi achou que acontecera alguma coisa com o Tazio, porque ele sumira lá atrás, e deu uma afrouxada no trem de corrida.

Com isso, Tazio veio sorrateiro e o passou duma vez, e, após estar na frente, voltou a acender os faróis e foi embora...Ganhou. Pela primeira vez foi superada a média de 100 km/h para essa corrida.

Essas histórias de bravura a gente não esquece. Isso é o que mostra o valor de um piloto de verdade. “Por essas e outras que sou fã desse cara e cuspo de lado pra muitos pilotos fresquinhos de hoje” – contei.

E foi isso que meus amigos ouviram. Lindas histórias, não?

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