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Publicado em 17/01/2008

É possível ser verde e deitar com a Nicole Kidman - Parte II

Arnaldo Keller

Um carro-solar, desses que participam da corrida australiana World Solar Challenge, vai de São Paulo ao Rio de Janeiro com a energia que um chuveiro elétrico gasta em uma hora e meia. É pouca energia, não é?

E aí vem o tipo das baterias, e disso ainda não entendo patavinas. Tem as de níquel-cádmio, chumbo-ácido etc. E sobre o desenvolvimento dessa tecnologia repousa o sucesso dos carros elétricos, já que o resto do sistema, motor, eletrônica etc. já estão bem otimizados. É preciso melhorar o tempo de recarga, aumentar o número de recargas em sua vida útil, aumentar sua capacidade de carga, diminuir seu peso, melhorar sua capacidade de liberar bastante energia de forma rápida para suprir o consumo de um motor potente, baixar seu custo etc. Mas, acontece que uma invenção aqui cria condições de vingar outra ali, e a enorme demanda por computadores laptops serviu para desenvolver melhores baterias, mais leves, com maior capacidade etc, e isso também serviu para melhorar a economia de escala, barateando seu custo. Nos últimos anos, portanto, elas vêm evoluindo muito, o quê como já vimos tem viabilizado ainda mais o carro elétrico - basta notar o quanto melhoraram as baterias dos aparelhos telefônicos celulares.

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Relógio

Por aí vemos que os motores elétricos são bastante eficientes. Na verdade, são muitíssimos eficientes, se comparados com os motores a gasolina. Da energia que gastam, 95% se transforma em movimento e só 5% em calor. Eles esquentam pouquíssimo, tanto é que só precisam de pequenas aletas em sua carcaça para dissipar o calor gerado. Já um ótimo motor a gasolina só aproveita 33% da energia da gasolina para gerar movimento; os outros 67% viram calor inútil que tem que ser dispersado pelo radiador. O motor a gasolina é, portanto, uma forma muito ineficiente e primitiva de aproveitarmos energia, já que 67% da energia do combustível é jogada fora.

Para viabilizar os carros elétricos, devemos fazer de tudo para baixar o consumo, pois quanto menos gastarmos, mais longe vamos. Não esqueçamos que o único defeito do carro elétrico é o tempo que leva para carregarmos a bateria. Demora horas, ao passo que o a gasolina, minutos. Então, vejamos quais os fatores que acarretam em consumo alto: 1) Peso 2) Arrasto/aerodinâmico 3) Atrito dos pneus.

O fator peso é o mais importante em trajeto urbano, pois nessas condições há muitas mudanças de velocidade como anda e pára, acelerações que demandam energia. Ajudando nisso, os carros elétricos avançados freiam utilizando o motor elétrico, automaticamente transformando o motor em gerador de energia, ou seja, ao frearmos, a eletrônica inverte a situação e transforma o motor num gerador que carrega a bateria. Assim recuperam boa parte da energia que foi gasta para acelerar. Bárbaro! Não é? Ah! e quando parado num farol, óbvio, o motor não gasta nicas, enquanto que o a gasolina gasta.

Atrito Mínimo

Já o fator aerodinâmico é o mais importante quando na estrada. Por exemplo: um carro a 125 km/h precisa do dobro da potência que a 100 km/h. Se ele precisa do dobro da potência, ele gasta o dobro de energia.

Conseqüentemente, terá a metade da autonomia. Por isso é que o EV1 – o carro elétrico produzido pela GM norte-americana na década passada – tinha um Cx (coeficiente aerodinâmico) de 0,19, o mais baixo já atingido por um carro de série (um Vectra novo tem Cx de 0,32 e um jipe, tipo Cherokee, tem ao redor de 0,4).

E aí vem o atrito dos pneus. Para economizar energia o jeito é ter pneu com alta pressão, duro e fininho, basicamente. Os pneus das bicicletas tipo mountain-bike devem usar 45 lib/pol. Experimente pedalar com pneus murchos e sentirá o maior esforço, a maior energia gasta. Não é à toa que bicicleta de velocidade tem pneus da grossura de um dedo e usam mais de 120 lbs/pol. Os carros-solares têm pneus que parecem de bicicleta de pedreiro, o tal pneu balão. Para um carro de uso normal, e elétrico, busca-se pneus que provoquem o mínimo de atrito, sem perda de segurança – outro desafio.

O motor elétrico do Volt tem potência máxima de 120 kw, o equivalente a 160 cv (1 w = 1,33 cv), potência suficiente para levá-lo a 190 km/h. Como sua bateria tem 16 kwh, ela só é suficiente para 8 minutos de acelerada a pleno. Correndo 8 minutos a 190 km/h você percorre 25,3 km, portanto, menos da metade da autonomia divulgada de 60 km. Por outro lado, se você rodar numa estrada plana a 95 km/h estará gastando 15 kwh, segundo a regra de que precisamos de 8 vezes mais potência se estivermos rodando ao dobro da velocidade. Então, com a bateria de 16 w/h poderemos manter 95 km/h durante uma hora e pouquinho, ou seja, rodaremos ao redor de 100 km, uma autonomia maior que os 60 km divulgados. A explicação é que esses 60 km divulgados pela GM são de trânsito urbano com o acelera e desacelera, onde o consumo é maior.

É viável o carro elétrico?

Bom, e você dirá: “E pra quê tudo isso?” Pra evitarmos jogar na atmosfera 227 kg de CO2 a cada 100 litros de gasolina que queimamos, e uma árvore tem o trabalho de formar uns 500 kg de tora para absorver esses 227 kg de CO2. “Mas como 227 kg saem de 100 litros?” Sei lá, mas que saem, saem. São reações químicas que um ‘ogro’ como eu não procurou nem tentar saber, quanto mais explicar. Só sei que a camada de atmosfera terrestre é fininha, bem fininha. Proporcionalmente, ela é como um plástico fino envolvendo uma maçã, já que ela tem só 100 km de espessura e a terra uns 20.000 km de diâmetro, e isso é pouco para nos darmos ao luxo de emporcalhar à vontade o pouco ar que nos envolve. Não tenho dúvidas que ainda estamos nos primórdios da civilização. Nos espantamos quando sabemos que há poucas décadas o esgoto corria pelo meio das ruas, mas em São Paulo não nos espantamos com dois enormes esgotos a céu aberto que são os rios Tietê e Pinheiros.

E é viável o carro elétrico? Olha, cada vez mais acho viável. Acho mais prático fazer hidroelétricas e eoloelétricas, que fornecerão energia limpa e eterna, do que ficar perfurando poços de petróleo tão profundos quanto a altura do Everest. Mais viável que plantar cana em terra que era para estar produzindo comida farta e barata. A monocultura do canavial é um deserto verde que está invadindo o Brasil, descaracterizando-o, e esperem para ver o estrago que ela fará na África, único outro espaço em que é viável o seu plantio (a Austrália tem cana, mas pouca terra fértil). Os chineses estão entrando com tudo na África, continente que mais ninguém dá bola, e esperem pra ver.

Pronto! Desabafei!

Enfim, juntando essa pataquada toda que comentei, chegamos finalmente a uma conclusão racional, que afinal é o que o leitor quer de um colunista: o jeito é não se locomover, é ficar no motel com a Nicole Kidman, tomar banho frio, pedir pra ela usar touca e gastar com ela uma energia chocante.

E o mundo lá fora que arda à vontade.

Abraço,

Arnaldo

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