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Publicado em 10/01/2008

É possível ser verde e deitar com a Nicole Kidman

Arnaldo Keller

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Banho

Não entendo nada de eletricidade ou quase nada, mas pelo jeito como as coisas vão estou sendo obrigado a aprender mais essa. Está pintando que os carros elétricos, depois de quase um século no ostracismo, voltarão com força. Sendo assim, precisarei entender um pouco dessa forma de energia pra poder continuar a escrever sobre carros. Você também, caro leitor do SuperAuto, é bom ir se acostumando, e por favor me perdoe se o considero tão ignorante quanto eu, porque vou começar do começo, tentando achar parâmetros com valores que já estamos acostumados. As contas estão feitas a meu modo, ou seja, a grosso modo. Vamos lá:

O carro elétrico da GM americana, o Volt, que deve ser colocado à venda entre 2010 e 2011, é elétrico e a gasolina. O motor a gasolina move o gerador para carregar a bateria. A bateria alimenta o motor elétrico e é este que move o carro. Esse motor a gasolina só serve para aumentar a autonomia do carro, pois uma carga de bateria só consegue fazê-lo rodar 60km, desde que não corra, que ande civilizadamente num trajeto urbano. Quando a carga da bateria baixa de 30% da sua capacidade o motor a gasolina liga automaticamente.

Essa bateria do Volt tem capacidade para 16kwh (quilowatt-hora). O que é isso? O que significa 1kwh?

Mas se você ligar o Volt na tomada - não uma tomada comum, mas uma de 220v e com fiação grossa, dessas que agüentam um chuveiro elétrico -, ela não carregará a bateria do zero à carga máxima nessas 3 horas e pouco, ela levará mais tempo, porque a bateria tem que organizar a carga dentro de si, e no começo, ainda vazia, ela consegue organizar rapidinho, mas depois, quanto mais cheia, mais carga comprimida e mais tempo ela leva. Então, nas duas horas iniciais ela carrega mais de 70 %, mas para completar os 30% restantes ela leva outras 2 horas. Se a tomada fosse uma de 110v, ela levaria o dobro do tempo. E não adianta querer carregar mais rápido que isso, porque comprometeria a vida útil da bateria. No futuro certamente teremos baterias que aceitem carga mais rápida e que tenham custo viável.

Bom, vamos lá: um chuveiro elétrico comum na posição “inverno”, a que esquenta mais a água, consome ao redor de 5.000W por hora, ou seja, 5kwh (1kg é mil gramas, 1kw é mil watts). Eis aí um parâmetro! Vemos então que a bateria do Volt carregada tem energia bastante para 3,2 horas de banho quente (16kwh : 5kwh = 3,2). Trocando em miúdos, uma hora de banho gasta tanta energia quanto rodar 19,7 km com o Volt, ou seja, uns 3 minutos de banho por quilômetro rodado. No futuro, portanto, possivelmente tenhamos um sério dilema a resolver: “Fico cheiroso e não rodo ou “fedo” e rodo?” Caso optemos por feder, ao menos a teoria de Descartes ficaria evidente com a variante: “Fedo, logo existo!”

Homem Pernudo

E aí vem o tipo das baterias, e disso ainda não entendo patavinas. Tem as de níquel-cádmio, chumbo-ácido etc. E sobre o desenvolvimento dessa tecnologia repousa o sucesso dos carros elétricos, já que o resto do sistema, motor, eletrônica etc. já estão bem otimizados. É preciso melhorar o tempo de recarga, aumentar o número de recargas em sua vida útil, aumentar sua capacidade de carga, diminuir seu peso, melhorar sua capacidade de liberar bastante energia de forma rápida para suprir o consumo de um motor potente, baixar seu custo etc. Mas, acontece que uma invenção aqui cria condições de vingar outra ali, e a enorme demanda por computadores laptops serviu para desenvolver melhores baterias, mais leves, com maior capacidade etc, e isso também serviu para melhorar a economia de escala, barateando seu custo. Nos últimos anos, portanto, elas vêm evoluindo muito, o quê como já vimos tem viabilizado ainda mais o carro elétrico - basta notar o quanto melhoraram as baterias dos aparelhos telefônicos celulares.

Um homem pernudo pedalando feito louco uma bicicleta ergométrica ligada a um gerador consegue gerar 1kw. Se ele pedalar por uma hora ele gera 1kwh, portanto ele levaria 16 horas para carregar uma bateria de um carro Volt para depois poder rodar 60km todo bacana de carro último tipo. Não parece prático, e esse esforço monumental só compensaria se fosse pra levar a Nicole Kidman de Volt ao motel no dia seguinte. Se o pernudo for tonto e tentar fazer os dois programas no mesmo dia, certamente a Nicole reclamará de falta de energia; um desperdício, e nós, os verdes, odiamos qualquer desperdício, principalmente de produtos nobres.

A scooter elétrica mais fraca da Motor-Z, como a que fiquei por uma semana e adorei, tem um motor de 500w, ou seja, 0,5kw. Com esse motorzinho, que consome tanto quanto acender 8 lâmpadas de 60w, ela chegava a uns 45km/h reais no plano (agora estão lançando uma com dois motores de 500w, um em cada roda). Um secador de cabelo, em média, consome 1.500w, ou seja, consome três vezes mais que o motorzinho da scooter que me levava a 45km/h. Portanto, com a energia que minha mulher e três filhas gastam diariamente secando aquela montanha de cabelos, o que calculo somar 40 minutos diários, dava pra eu fugir de scooter desta casa de doidos à razão de 90km por dia.

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