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Publicado em 15/11/2007 MIL MILHAS: SUCESSO DE CORRIDA COM FRACASSO DE PÚBLICO
Uma hora e meia antes da largada, a cena era a seguinte: nos boxes, carros fantásticos e um monte de convidados circulando pelo pit-lane, enquanto isso, nas arquibancadas, no máximo, uns espectadores. Olhei para aquilo e pensei: ‘Bom, daqui a pouco começa a chegar gente. É cedo ainda’ - e fui xeretar os carros. Defronte a cada boxe, mesinhas com toalhinhas brancas, onde ali, sentados e simpáticos pilotos e chefes de equipe atendiam a todos. Davam autógrafos, pôsteres, catálogos e respondiam a perguntas. Muito legal esse lance, mas preferi dar uma de Miguel e, ostentando o crachá de imprensa, fui pedindo para entrar nos boxes para ver os monstros de perto. Ferrari 430 e Porsche, das categorias GT2, não me interessavam tanto, porque desses já temos por aqui no Brasil. Os GT são os Gran Turismo, ou seja, são carros de rua com preparação limitada para corrida. Já os GT1 também são de rua, mas que recebem maior preparação. Outro GT2 competindo era o Spyker. Motor Audi V8, central-traseiro, de 480cv. Essas e mais um Corvette motor 7 litros formavam as quatro marcas competindo na GT2. O bicho começava a pegar pesado mesmo a partir dos GT1, que eram o Corvette e o Aston Martin. Nessa categoria, o terceiro competidor anunciado, o Saleen, motor Ford, acabou não vindo. Pegando a ficha técnica desses dois, Aston com motor V10 de 600cv e Corvette com motor V8 de 570cv, tive a impressão que o Aston, com um motor de concepção mais moderna (o motor do Corvette ainda tem o comando único no bloco e duas válvulas/cilindro) andaria mais. Mas enganei-me, ou não, como veremos adiante.
Daí, continuando a subir na ordem, vêm os protótipos, que são carros só para pista e não necessitam ter modelos iguais para andar na rua, tal qual os GT necessitam. Esses estão divididos em duas categorias de cilindrada máxima. Os LMP2 com cilindrada máxima de 4 litros e os LMP1, com cilindrada máxima de 5,5 litros. Esses protótipos são praticamente um Fórmula 1 com carenagem. Essa carenagem os torna ainda mais aerodinâmicos que os Fórmula, pois os pneus expostos dos Fórmula atrapalham a penetração aerodinâmica. São uns 300 quilos mais pesados que um Fórmula 1 e os carros da LMP1 têm potência similar, uns 700cv. São rapidíssimos - a pole do Peugeot LMP1 foi só 7 seg. mais lenta que a do Massa neste ano. Eles fazem curvas quase tão bem quanto um F1. Aceleram um pouco menos, porém, se a reta for longa, atingem velocidade final maior. Daí que se a corrida fosse no antigo traçado de Interlagos, um traçado com retas mais longas e curvas de maior velocidade, eles certamente fariam tempos ainda mais próximos do F1, ou até mais baixos. E aí vamos à estrela, o Peugeot 908 HDI, que é a diesel - isso mesmo, diesel, combustível que achávamos que era para caminhão. Sendo a diesel é permitido o uso de turbo-compressores, o que não é para os a gasolina. Daí que o motor desse Peugeot tem 12 cilindros, 5,5 litros de cilindrada e dois turbo, o que faz seu torque-máximo ser de 165mkgf!!!!! Isso é um torque absurdo! É duas vezes e meia o torque do Corvettão GT2 de 7 litros - é 80% maior que o do motor V8 Judd, 5,5 litros a gasolina, do outro LMP1 que competia! Bloco e cabeçotes de alumínio, portanto, um motor a diesel leve. O “V” é em 100o, portanto, um V bem aberto para que o motor fique baixo, dando-lhe um centro de gravidade bem baixo e melhor aerodinâmica. Daí que você coloca um motor desses num “F1 carenado” e bota pra correr, e o resultado é uma barbaridade.
FUSCA E PATINHO FEIOO Peugeot do português Pedro Lamy, que havia feito a pole, teve problemas na largada e acabou largando por último, enquanto o outro Peugeot, de Marc Gené, largou na frente e já disparou abrindo de todos como se eles tivessem esquecido o freio-de-mão puxado. Nessas o Peugeot de Lamy foi engolindo a turma de braçada, dois, três ou quatro por vez. Da escada preta, melhor ponto para ver o Miolo, víamos os Peugeot fazendo a Curva do Laranja quase que sem tirar o pé, grudados ao chão como se tivessem ímãs, isso mesmo, a impressão era que tinham ímãs, porque não dava para entender como é que faziam aquilo. E os danados nem roncar roncavam. Acho que os turbos e os filtros de escape - eles têm filtros antipoluição que quase não deixam sair fumaça - abafam o ronco, daí que quando os bichos passavam era só barulho do ar sendo rasgado. E tchau! Foram embora virando em 1:22 e já na 6a volta estavam botando volta nos coitados dos Porsche que mais pareciam café-com-leite tomando pau de todo mundo. Ou a Porsche coloca o Cayman - motor central-traseiro - para correr ou acabou Porsche, porque hoje em dia carro com motor pendurado atrás do eixo traseiro, igual Fusca, já era. O Corvettão branco, GT2, estava dando show colado aos LMP2. Virava em 1:32 e freava para o S do Senna a 60 metros. O Aston Martin ficou pra trás, virando em 1:34 e freando a 80 metros, tal qual os Ferrari. Os Ferrari 430 viravam em 1:36. Os Porsche em 1:37 ou 1:38, e na briga com o volante, controlando a traseira pesada, pra fazer o Laranja, e freando a 100 ou 120 metros. Até na freada, que era o “must” dos Porsche, já eram. Pois é. Os Peugeot ganharam na LMP1. O Corvette quebrou ou sei lá, por que o Aston ganhou na GT2. E nas arquibancadas, mesmo após uma hora de corrida, só os mesmos 20 espectadores. Sei lá. Apesar desses carros fantásticos, quase ninguém foi ver. Que será? Lembro de ir acampar para ver a Mil Milhas e o autódromo sempre cheio. Aquela bagunceira de Fusca, Patinho Feio, Carreteras, protótipos esquisitos, e mais uma infinidade de carros malucos que corriam... Aquilo sim é que era farra!
Arnaldo Keller |