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Um homem, dois carros
Um tempo atrás escrevi que achava que um homem que gosta de automóvel deveria ter dois carros, um para o dia-a-dia, para ir e vir do trabalho, e outro para diversão, ou seja, para viajar, passear, curtir. Agora, devido a estar trabalhando no bairro do Belenzinho e morando perto da Brigadeiro Faria Lima, dou razão a eu mesmo. São Paulo é uma zona. Moro numa zona, trabalho noutra zona e pego uma zona de trânsito. Em suma, estou vivendo na zona. Talvez meus anseios de adolescente – já que o sonho de todo adolescente é viver na zona, único modo de satisfazê-lo – tenham se realizado, mas não bem do jeito que eu pedia. Creio que houve um erro de interpretação do meu anjo da guarda, devido à sua inocência. De qualquer modo, vejamos, pego uns 40 minutos de trânsito estúpido para ir e uns 50 para voltar. E vou e volto sozinho. Se tivesse metrô para o trajeto, pegaria metrô. Mas não tem. Perco, portanto, uma hora e meia para me deslocar. E não só perco, como me desgasto nesse tempo inútil. Chega uma hora que já não agüento mais música e já sei todas as notícias. Acabo fazendo alongamentos pra ficar menos alquebrado. A maioria dos motoristas dirige bem, não restam dúvidas. Basta olhar com olhos de marciano recém-chegado para a confusão formada por milhares de veículos se afunilando, ruas estreitas, motoboys buzinando ardido, à toa, na orelha das pessoas. Em vista da zona, se formos analisar friamente, até que há pouquíssimos acidentes e também poucos perdem a paciência e são mal-educados. Meus respeitosos parabéns. MULINHA PASSEIRA E CAVALO FOGOSO Ter um carrão caro no meio disso? Ficar nervoso com medo que me fechem e acertem meu carrão? Nem debaixo de porrête! Prefiro minha Saveirinho mulambenta e quem quiser tirar uma lasquinha dela, que tire, pois não estou nem aí. Motor maior que 1.000 cm³? Pra quê, se a massa anda devagar? A Saveirinho é 1.8, mas tanto faz. Um Mil qualquer bastaria, já que nem nas avenidas podemos passar de uns 60 ou 70 km/h. E basta ser confortável, ter boa ergonomia, ar-condicionado – principalmente para podermos fechar os vidros e nos vermos livres da barulheira ensurdecedora –, pedal da embreagem leve, câmbio gostoso, funcionamento do motor suave, confiável, econômico. E não me venham com papo de status, porque ainda não entendi direito o que significa. Mas deve ser chato depender da opinião dos outros. Fico imaginando que o ideal seria um carro Mil, ou Mil e pouco, e automático. Uma lesma, concordo, mas, e daí? Então, comparando com a turma inteligente da roça, o certo é ter uma mulinha ‘passeira’ para o dia-a-dia e um cavalão fogoso, bem arreado, para o final de semana. Cada um na sua. Botar o cavalão no trampo é irritante, já que ele sobra demais, quer correr quando não deve e acaba cansando a gente, e também montar numa mulinha e querer sair correndo lascado com ela é inútil, pois a coitada nem vai entender nada. Ela é estúpida, pobre de espírito, não sabe o que é o prazer de correr a toda brida em regiões amplas e tomar vento na cara para se sentir livre; o negócio dela é aquela toadinha chocha mas consistente ali durante o dia, e se possível acompanhar a novela das oito com as orelhonas caídas depois de encher o bucho de milho. Cada equídeo presta pra uma coisa, assim como os carros. RITUAL ROTINEIRO DO PRAZER Para quem não entende de cavalo, vai outra noção mais comum aos homens: Luiza Erundina na cozinha e Vera Fischer no quarto. Não invertam a fórmula. O duro é que a bigamia é proibida no Brasil. Mas graças ao Lula – já que tudo o que há de bom devemos a ele, segundo ele – podemos ser biproprietários-de-carro! E o bom disso é que no fim das contas ter dois carros acaba saindo mais barato que ter e manter um só carrão bom. Um só carrão bom, para ser bacana e nos dar prazer de uma boa guiada, deve ser trocado a cada dois ou três anos, senão não é carrão – e isso sai caro. Um carrinho Mil é o que há de mais barato e esses, hoje em dia, com os carros agüentando bastante como estão, pode rodar fácil mais de 150 mil km sem dar problemas. Esses têm liquidez e desvalorizam pouco, portanto, com pouca diferença, paga com uma prestação relativamente baixa, são trocados por outro novo. Todos estão bem bonzinhos, ágeis e já estão razoavelmente confortáveis. Outra vantagem dos Mil, é ficarmos menos visados pelos bandidos. E ladrão tem bastante. O STF acaba de pegar 40 ladrões, apesar de ter deixado escapar o Ali Babá. E aí, com essa economia por rodar de Mil por aí a semana toda, sobra um dinheirinho para juntar e comprar um carro de diversão, o carro que terá a sua cara, seja ela qual for, se a de um Fusca mexido, se a de um Alfa Romeo (estão bem baratos), se uma réplica conversível, se a de um esportivo qualquer que você gostar e ninguém vai ter nada a ver com isso. E esse não é pra vender. Esse é pra ficar, pois ele será parte de um ritual rotineiro de prazer, tal qual o sujeito que nos finais de semana pega sua moto Harley ou outra qualquer e some Brasil afora fazendo o vento soprar e desgrudar as preocupações do corpo, deixando-as pra trás, e a brisa lamber e sarar a pele como um bálsamo, e o vento frio tirar lágrimas dos olhos e elas escorrerem pelas laterais do rosto, e a gente voltar pra casa contente e rindo à toa, cheio de energia, agarrando firme nossas mulheres e abraçá-las forte até deixá-las sem ar, que é isso o que elas gostam, de homem contente e alegre, e não de um orelha murcha entupido de milho que passou o domingo vendo o Faustão e arrotando fastio, esperando ansioso pela segunda-feira para poder voltar à rotina modorrenta recebendo ordens, recebendo ordens, recebendo ordens de um imbecil qualquer que ficou também vendo o Faustão, ou o Gugu.
Arnaldo Keller |