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POLÊMICA DA STOCK CAR ANDA QUENTE
Há duas semanas escrevi que não me interessava pela categoria Stock Car. Dei o motivo: é uma farsa. Para mim, que sou meio fora de moda, basta esse. Farsa porquê? Porque divulgam que é uma categoria multimarca e nem uma marca tem na verdade. Pra quem não leu essa coluna anterior, volto a explicar. A Stock Car dá a entender que correm carros da GM, VW, Peugeot, Mitsubishi, mas, por incrível que pareça, todos correm com o mesmo motor V8 da GM americana. Acabando a corrida, todos os motores vão para uma mesma oficina, nela são revisados e regulados para gerarem a mesma potência, e dela saem sorteados para as equipes. Os chassis são todos tubulares, meio toscos, e iguais, fabricados por uma única oficina. Há muita reclamação que na verdade não saem todos iguais, como era para ser. Freios, amortecedores, caixa de câmbio, em suma, tudo é igual e praticamente nada provém dos carros fabricados no Brasil, nada. O que diferencia os carros é a carroceria plástica. Umas parecem com um carro da Mitsubishi, outras com um carro da GMB e assim por diante. Nota: todas as carrocerias foram testadas num túnel de vento para que tenham o mesmo arrasto aerodinâmico, isso para que umas não levem vantagem sobre outras nesse importante quesito. Portanto, se um Bora de rua tiver melhor aerodinâmica que um Peugeot (não sei qual dos dois é melhor, estou chutando), por exemplo, nem isso vale. Bom, recebi diversos comentários, uns apoiando e outros me ‘cascando a lenha’. Mesmo diante das opiniões contrárias, não mudei de opinião. Continuo com a minha turma. Não devo citar nomes, mas lhes garanto que nessa turma estão grandes nomes do automobilismo brasileiro, assim como jornalistas muito experientes e gente quente das fábricas – todos pessoas que dedicaram suas vidas ao esporte e ao automóvel, e gente séria. MAIS PIMENTA NO MOLHO Vamos, portanto, botar mais pimenta no molho. Ano passado andei de carona em Interlagos num Corvette Z06. Era o de motor de 7 litros e 505cv. Um monstro de bom. Já guiei um na rua, quando fiz matéria para este jornal, mas nunca na pista. Na ocasião, o piloto, que é da Stock Car, me disse que ele e outro piloto, campeão da categoria, achavam que o Corvette, do jeito que estava, com pneus de rua, 1.420kg de peso, direção hidráulica e ar-condicionado ligado, andava mais na pista que os Stock Car... Disse que virava mais rápido. Vejam bem, não fui eu que inventei essa. Então, carambolas, se é pra botar motores V8 para fazer o barulhão que a galera gosta (eu inclusive), então, porque não trazem logo umas dezenas de Corvette dos EUA e adaptam carrocerias plásticas de Bora, Mitsubishi, Astra etc? Daria na mesma, a enganação seria a mesma e pelo menos os carros iriam virar mais rápido, os pilotos não suariam o macacão por causa do ar-condicionado e a direção hidráulica, os motores 7 litros fariam ainda mais barulho e ainda por cima sairia mais barato, já que sobre carro de corrida não se paga imposto de importação. Bobeira, não é? Mas já que pode apelar... Nada contra a antiga StockCar. Essa era monomarca mesmo. Começou com os Opala e depois passou para os Omega. Era uma categoria de carros da GM e todos a viam desse modo. Era honesta e ótima. Eu não teria nada contra a Stock Car atual, desde que ela não levasse o espectador ao engano, dando a entender que várias marcas competem. Não teria nada contra, desde que as fábricas não viessem se ufanar, divulgando pra todo lado que um carro de sua marca venceu tal corrida da Stock. Nos carros da Stock, praticamente não há peças de nenhum carro nacional. Isso é feio, viu! REMÉDIOS GENÉRICOS Para um leitor revoltado comigo, eu comparei a situação da Stock a uma mais objetiva e simples. Perguntei a ele se ele compraria um remédio que não contém o que está na bula, mas sim talco ou qualquer outra coisa. Disse que ele pode até comprar, mas a sociedade não. Para a nossa sociedade isso é crime e ela não aceita. Ela até tolera os criminosos e espertinhos por uns tempos, mas depois a sociedade os expurga. Acabei me dando mal nessa explicação, pois o sujeito entendeu que eu era contra os remédios genéricos e a favor de patrocínio de cigarro! Pode isso? E eu entendo lá de remédio? E ainda por cima, fumo e odeio fumar... Outro disse que a Fórmula 1 é igual à Stock-Car. É nada. Na F1 competem Ferrari (Fiat), Toyota, BMW, Mercedes, Honda, Renault etc etc. Diferentes chassis, diferentes motores, diferentes caixas de câmbio... e é por isso que ela evolui tanto. Para colher bom nome e tecnologia, as fábricas investem aos montes em gente e dinheiro. A evolução é tamanha que essa evolução se tornou o problema da categoria. A Ferrari, do início do ano passado, tomaria pau do carro da pior equipe deste ano. E então, pergunto: o que evoluiu a Stock Car nos últimos tempos? O que ela trouxe de tecnologia para nossos carros de rua? Agora, uma prova concreta do que estou falando: Hoje vou pegar um Renault Logan para testar. Sabem aquele motorzinho 1.6 litros 16 válvulas capeta da Renault? Ele é um dos mundialmente melhores e mais modernos da categoria. Anda pra burro, é suave, elástico, gasta pouco e agüenta barbaridade (a fábrica comprou um Clio 1.6, 16V, de um cliente que rodou 900 mil km, desmontou o motor e ele estava perfeito). Bom, esse motor foi projetado por um engenheiro da Equipe Renault Fórmula 1. Olhem um exemplo da tecnologia desenvolvida nas pistas aí! Corrida é principalmente pra isso. Não é só circo, não.
Arnaldo Keller |