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A FARSA DA STOCK-CAR BRASILEIRA
Em junho, fui convidado para assistir a corrida da StockCar em Interlagos. Apesar da gentil oferta de camarote com comes e bebes, acesso aos boxes, papo com os pilotos, não fui. Papo com os pilotos? Quem são? Fora o Ingo Hoffmann, o Lossaco, grandes pilotos, e ôôô... ôôô... quem são os ilustres? Não torço pra nenhum. Não acho nenhum excepcional. Os carros são todos iguais. A casca, também chamada de bolha plástica, parece o Astra, ou Polo, ou Mitsubishi, ou Peugeot, mas todos usam o mesmo motor V8 da GM americana. Isso mesmo, todos são motores GM e motor que não foi fabricado no Brasil, mas sim nos EUA. Não tem um parafuso sequer da Peugeot ou Mitsubishi etc. Não tem nada da sua mecânica fabricado aqui, nada. Nem freios, nem caixa de câmbio, nem nadicas de pitibiriba. Acho que só os pneus são nacionais, só. Stock-Car brasileira? Como? Se os carros nem brasileiros são? Piada. Se eu fosse um advogado mercenário e que gostasse de dinheiro, coisa rara, arranjaria um jeito de ficar famoso processando a categoria por propaganda enganosa. Pouca gente sabe, mesmo gente da própria “imprensa especializada”, que a categoria é essa farsa. Outro dia, na apresentação da nova linha Volkswagen para a imprensa, mostraram no telão a vitória de um carro “Volkswagen” na Stock-Car, o Polo... O quê? Nem uma bielinha fabricada pela VW tinha o carro! Como dar os parabéns à VW? Como? Como a séria VW, que tem tanto respeito, se sujeita a isso? Como é que ela entrou nessa? Maldita televisão! O que todos querem é que suas marcas apareçam na telinha, e já que a Globo promove a Stock-Car, e já que o Galvão Bueno tem o dom de animar o telespectador enrolando-o de tudo quanto é jeito, o povo vê e, ignorando, acredita que aquilo é uma corrida de verdade. Aquilo é só obra do marketing, e para o marketing. De incentivo ao automobilismo nacional, de melhoria dos nossos carros a partir do desenvolvimento que as corridas proporcionam, não há nada. A Stock-Car começou com os Opala, depois passou para os Omega, e até aí, tudo bem. A coisa enrolou quando passou a esse tatu-com-cobra atual, que é um carro que não tem nada a ver com os carros fabricados no Brasil. O experiente jornalista multimídia e corredor de DKW na Super Classic, Flávio Gomes, ultimamente comprou essa briga e anda denunciando essa baboseira. Está aqui o meu apoio. AUTOMOBILISMO NA ARGENTINA Na vizinha Argentina, onde o automobilismo é realmente uma paixão nacional, onde qualquer motorista de táxi sabe de tudo o que se passa nas competições do País, há a categoria TC 2000. Isso sim é que mexe com os fabricantes, pois esses sim são carros derivados dos que estão nas ruas e ali o bicho pega, pois as fábricas realmente investem na categoria, e não só investem dinheiro como investem em tecnologia, botando seus engenheiros na fogueira pra se virarem pra fazer seus carros andar. Lá corre Ford Focus, GM Astra e outras marcas, tudo motores, câmbio etc., derivados dos carros de rua da marca. Limitados ao máximo de 2.000cmÅ esses motores passam longe dos 200cv e os ‘pegas’ são terríveis. E o melhor: a torcida torce pela marca, isso mesmo, pela marca, tal qual os “tifosi” torcem pela Ferrari, tanto fazendo quem está pilotando o raio do carro. O torcedor que tem um Ford em casa torce para que um Ford ganhe. O que tem um GM, torce pelos carros da GM. Na 2a feira quem tem em casa o carro da marca que ganhou tira um sarro dos que perderam, tal qual fazemos aqui com o futebol, palmeirense tirando sarro de corintiano e vice-versa. O barato da coisa está aí. Esse costume vem desde os tempos das corridas de carreteras há mais de 60 anos, onde os top dessas competições eram os irmãos Gálvez, pilotando Ford V8, se engalfinhando com Fangio, pilotando Chevrolet 6 em linha. Ainda hoje correm os Chevrolet 250 contra os Ford Falcon e outras marcas, carros da década de 1980, modernizados, com motores de mais de 400cv. Um ‘pega’ de arrancar pena e quebrar osso. Rixa de marcas das melhores. Os pilotos? Quem está ligando pros pilotos? Quem está ligando pros estrelinhas? Com isso o automobilismo se desenvolve, os carros se desenvolvem, criam-se empregos de mecânicos, engenheiros, melhoram-se as máquinas, melhoram-se os carros que vão para as ruas. Garanto que se na Argentina usassem álcool como combustível, já teriam feito um motor a álcool muito melhor que nossos gastões flex que jogam álcool fora, pois nas pistas se desenvolveria a tecnologia necessária e correta. Os engenheiros de pista, da fábrica, trariam a tecnologia para os carros de rua. Melhorariam suspensão, freios, aerodinâmica etc. A Stock-Car brasileira não desenvolve nada, além da ignorância do espectador. Mas, os promotores daqui não estão nem aí. O negócio é engabelar o povo dizendo que a tecnologia que corre na Stock-Car é a que você tem quando compra um carro da marca, mas é balela, conversa fiada. Quando toda essa história vier à tona vai ter muita gente gaguejando pra tentar explicar essa embrulhada. A única que vai dar risada é a GM, já que todas as outras marcas correm com motores dela. Outra: 90% do grande público que comparece às corridas da Stock é de convidados dos patrocinadores. Não pagaram pelo ingresso. Estão vendo porque preferi vir pra fazenda pra passar o fim de semana andando no meu cavalo velho e ranzinza em vez de ir assistir uma corrida que não tem nada a ver?
Arnaldo Keller |