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BOX dos doidos DE FERRARI DINO 1971 EM INTERLAGOS
Meus amigos. A coisa está no seguinte pé: no início desta semana, na segunda-feira, dia 4 e na terça, dia 5, pilotei um Ferrari Dino 1971, vermelho, em Interlagos. Uma corridinha café-com-leite. Só três voltas de cada vez e sem meter a lenha, pois esse carro é uma jóia rara, não é pra isso e, principalmente, não é meu... Limitei a 5 mil giros, apesar do motor passar fácil dos 7.500rpm, e mesmo dentro desse limite o sabor é intenso. Basta entrar num Dino que já estamos de cabeça feita – ficamos meio deitados vendo os pára-lamas bojudos saltados adiante, parecendo mais altos que nossos olhos. Ligar o motor já arrepia, pois ele responde pronto, subindo de giro com um ronco que descrevo como “gróól, gróóól”, um som que parece vindo duma garganta afinada, gorgolejante e feliz. Se entrar já faz cabeça, se ligar já arrepia, quanto mais sentimos ao pilotar aquela gracinha na pista? E este não é um Ferrari Dino “qualquer”, é um dos mais (senão o mais) perfeito dos que temos no Brasil. Nota 100. Não é à toa que cada vez mais sinto menos prazer em dirigir carros comuns – acho que ando enfrescalhando. Vou explicar: quando sento num carro como este, me encaixo certinho, tenho a direção do tamanho certo, no lugar certo e com resposta certa – nem rápida demais, nem lerda –, a alavanca de câmbio no lugar certo e com o jeito certo de nos fazer sentir os engates, os pedais estão na posição certa e os acionamos facilmente, o do freio tem o peso certo e o carro freia equilibrado, o da embreagem não ligo se for pesado, não estou nem aí, mas o do Dino não é, o motor ronca gostoso e animado, respondendo com pegada valente de macho, as suspensões trabalham certinho, equilibradinhas, fazendo o carro dançar uma valsa na sucessão de curvas, como se voasse por entre nuvens... Castanholas!! Isso é carro feito por quem entende e gosta de carro esporte, uai! Gente que queria fazer um carro de sonho para gente com sensibilidade refinada. Vender ou não, pesquisa de mercado e essas preocupações mercantis que tolhem a arte, tudo isso é secundário para um Ferrari Dino nascer. E aí pego para testar um carro que foi feito só pra vender, pra render dinheiro pros acionistas, pra conquistar essa ou aquela fatia de mercado, e feito com pressa, porque tempo é dinheiro e coisa e tal.... Olha! Não tenho prazer, não. É como dançar colado com uma mulher que a gente não topa. A coisa não rola. Ando meio fresco, não? A CORRIDA
Na segunda e na terça, o grande piloto Chico Lameirão estava conosco dirigindo um Porsche 914, 2 litros, amarelinho. Tiramos a capotinha targa porque o Chico gosta de vento. Esse 914, motor central-traseiro, é um corisco nas curvas, ainda mais com o Chico guiando. Mas o Dino é muito mais carro, muito mais agarrado, sobrava, e assim dava gosto ver o Chico fazendo o bichinho rolar nas curvas (rolar é entortar a carroceria) pra escapar do bacana aqui. Mas eu não queria passar, não. Eu queria ir atrás, pois não é sempre que temos um mestre na frente pra nos mostrar o caminho, e eu o seguia, aprendendo, e dando-lhe uns apertos pra coisa ficar divertida. Na saída da Curva do Sol, o Chico deixou escorregar o 914 e papei-o por dentro, pois, como disse, me sobrava carro perante o dele, e tasquei-lhe uma cambiada de 3a para 4a marcha na orelha e segui embora. Mais tarde o Chico veio me falar do quanto curtiu o som do seis cilindros em vê do Ferrari. Disse que de fora o som é ainda mais gostoso que de dentro. Deve ser, mas ainda assim prefiro estar dentro... Outros que participaram de nossa corridinha: o Lavínia da FEI, pilotado por alunos da facú, um Hot-Rod T-Bucket com um bom amigo novo, o Igor, um Astra elétrico da FEI, pilotado pelo professor Ricardo Bock, uma réplica de Spyder 550, pilotado pelo Henrique, que pilotou forte pra valer nalguns momentos, uma réplica de Speedster pilotado pelo Sérgio, que foi tranqüilo, uma réplica de Jaguar XK120 da Americar, pilotado pelo dono da fábrica, o Cleber, que nunca havia pilotado em Interlagos e que ficou maravilhado de poder dirigir e sentir tão bem um carro feito por ele numa bela pista como esta. Na segunda, teve todos esses e mais um Corvette Sting-Ray 1963, um BMW 3.0 CSi 1974, que foi do Emerson e um Porsche Carrera RS 1973. Na 3a-feira, entrou no bolo um Spyder PW1 de corrida, o antigo Aldee Spyder, com banco de passageiro adaptado. E no fim de semana que temos à frente, no sábado e no domingo, às 12:30, entra tudo isso e mais um Cobra de 380cv. Acho que amanhã, se eu achar que o vento não vai me trazer uma recaída dessa gripe lazarenta da qual estou saindo, vou pilotar o Spyder de corrida. Vou me agasalhar feito um esquimó e ver no que dá. Afinal, a profissão impõe certas obrigações das quais não me posso furtar... As aquarelas aqui expostas foram feitas pelo pintor Jorge Henrique (11-4145.1836, jorge.h@terra.com.br). Elas decoram nosso box e é um presente de agradecimento aos proprietários dos carros. Bonitas, né?
Arnaldo Keller |