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SAVEIRO 1989. ENFIM, NÃO MAIS A PÉ!!
Sabem o que eu espero dele? Dois meses atrás furtaram meu Fusca 66. Foi na rua, em questão de 15 minutos, entre o guarda noturno ir embora e o do dia assumir. Por pura rotina fui à delegacia fazer o B.O... Lá aprendi a diferença entre o que é ser furtado e ser roubado (furtado é quando você chega onde estava o carro e ele não está mais lá, sumiu, e roubado é quando o ladrão chega junto a você e te convence a entregar o carro). Lá na delegacia também confirmei que, ou eu mesmo achava o carro e avisava a polícia onde ele estava, ou, bau-bau pro Fusca. Isso me lembrou da gozação do meu pai, quando minha filha, ainda criança, foi dormir na casa dos avós na fazenda e viu uma aranha no quarto. “Vô! Tem uma aranha enorme no meu quarto!” – ela veio esbaforida chamá-lo no terraço. “Traz a aranha aqui que eu mato” – ele grunhiu e fingiu continuar a ler o seu jornal. Depois de se divertir com a cara de espanto da neta, foi lá. No meu caso, não era gozação. Era isso mesmo: a gente que se vire. E já que não tenho faro suficientemente bom para seguir de quatro farejando a rua atrás de um Fusca velho, fiquei a pé, no sapato e bicicleta. Carros em casa tem, o da mulher e os das filhas, mas eu quero o meu. Por mais requenguelo que seja o carro, eu quero o meu. No meu Fusca, eu sentava e o banco e os retrovisores estavam regulados pra mim, meu rayban estava no quebra-sol, já sabia quanto de gasolina tinha no tanque, sabia onde achar a caneta e o pedaço de papel pra anotar rápido qualquer coisa, sabia se tinha balinha, se tinha garrafinha d’água, onde colocar a carteira, onde encaixar o celular, quando devia regular os pneus, quando devia verificar óleo, essas e outras coisas. Carro é que nem cavalo e sela: cada um deve ter os seus e deve cuidar deles como acha que deve. Nesse período amargo, então, fiquei contrariado e a pé, um pedinte. “Filha, posso usar teu carro? Boto gasolina e dou uma geral” – toco a pedir. “Vera, posso pegar a perua?... Não, espera aí, calma, não quero passar uma noitada com a vizinha escandalosa. Eu quero sair com a perua Mondeo. Só isso, lindeza” – peço, peço. Então, se ando me comportando bem, elas consentem. Mas agora meus problemas acabaram! Meu tio me deu uma Saveiro 1989! Era do meu irmão e estava encostada. Num rolo ela veio pras minhas mãos, e bem a tempo, pois eu já estava sentindo as pedrinhas do chão de tão gastas estavam as solas dos sapatos. Motor AP 1.8, em ordem, a gasolina. Lata arranhadinha cá e lá, direção puxando prum lado, freio precisando revisar..., mas, MINHA! E duma coisa tenho certeza, essa bicha é resistente como uma mula. Meu irmão, ao volante, é mais bruto que um rinoceronte, e se ela o agüentou por anos, há de agüentar muitos comigo. FÓRMULA CERTA PARA DEIXAR A PICAPE REDONDA! Anda bem como está, original. Deve ter uns 92cv, se não me engano, mas por que não uma mexidinha básica? Alguma coisa sempre eu mexo. E aproveitando, vou fazer um motor a álcool como se deve fazer, já que ultimamente tenho metido o pau nos carros flex-fools por jogarem álcool fora. E vocês verão o que é bom: vai andar pacas e gastar p*cas. O mecânico, que ainda não sabe que fui presenteado, será o Eber Boteon. Ainda submeterei minha fórmula à sua sabedoria. Mas a base é essa aqui: Trabalho no cabeçote, aumentando a taxa para 14:1 ou 15:1 e melhorando o fluxo de admissão e exaustão. Troca do comando para o do GTS a álcool. Acerto do carburador, colocando giclês mais grossos, pois o álcool requer mais vazão. A carburação original, de duplo corpo, dará conta do recado. O ideal seria tirar fora o virabrequim e mandar balancear o conjunto (virabrequim junto com o volante e o platô da embreagem), para que o giro suba mais alto sem problemas e o motor funcionar mais liso, gostoso, mas não quero ($) ter esse trabalho de abrir o motor agora. Sabem o que espero dele? Que a potência suba dos 92cv para uns 120 cv. O torque do original já é bom para o peso, leve, da picape; são 15kgfm a 3.600. Mesmo assim o torque subirá para perto de 18 ou 19kgfm e, já que o comando não é tão bravo, o torque máximo será numa rotação só um pouco mais alta, mantendo a boa elasticidade do motor. Um comando de válvulas mais forte me obrigaria a trocar a carburação por outra maior e não estou disposto ($) a isso. Mais nada. Os pneus Pirelli, sorte ($), estão novos. As rodas ficam as originais, pois até estou achando-as muito ($) bonitas. As arranhadelas na lataria ficam por enquanto. Eu precisaria pintar o carro inteiro e eu até estou gostando ($) do azulzinho. Os bancos têm uns furinhos no assento. Acho que meu irmão, solteirão, anda saindo com moças que usam piercings pontudos no traseiro; vai saber... Ou pode estar treinando para se transformar num jato espacial; mas para isso ele teria colocado um teto-solar para poder se ejetar. Não, isso, não; a picape não tem teto-solar, infelizmente. De qualquer modo, estou achando ótima ($) a ventilação nos fundilhos e por enquanto vai ficar assim. Mas ela é minha!! Minha picape!! Não preciso pedir carro pra ninguém!! Não preciso ficar bonzinho em casa pra poder sair de carro! Posso dar um pontapé na Foca – a gata da minha filha que tem mania de se esquentar em cima do monitor do meu computador – e depois sair de carro! Posso me recusar a levar os sacos de lixo para a rua! Posso não tomar banho! Posso rolar na terra e gargalhar! Posso não fazer a barba! Posso mudar o canal da TV! Ninguém manda em mim! Posso ser expulso de casa que terei uma caçamba pra dormir... E com uns 120cv ou mais.
Arnaldo Keller |