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A ONDA ENGANOSA DOS “FLEX-FOOLS”
Em 1983, portanto, há 24 anos, vivíamos o primeiro arranque do Proálcool – governo Figueiredo, fim da ditadura militar. Nessa época, lembro, as fábricas de tratores Valmet e Massey Ferguson lançaram seus tratores com motores a álcool. O Valmet 88 BID, com motor de bloco reforçado, pesado, de diesel, curiosamente, usava dois combustíveis, o diesel e o álcool. Dois tanques separados, um pra cada um, duas bombas de combustível. Lembro que tinha taxa de compressão alta de 16 ou 17:1 (taxa normal dos motores a diesel). Como não tinha vela de ignição, o que provocava a queima do álcool era a queima do diesel, que, ao ser comprimido, queimava. A proporção era de 85% de álcool e 15% de diesel. Esse trator, com 90 cv de potência, gastava 10 litros dessa mistura por hora de trabalho pesado na roça. Vejam bem, 10 litros/hora.
O Massey-Ferguson 290A, usava álcool puro (que na verdade é 93% de etanol mais 7% de água – esse é o álcool normal das bombas, o tal álcool hidratado). Para tanto, seu bloco era um bloco de motor a diesel, reforçado, pesado, que tinha um cabeçote de motor do ciclo Otto, ou seja, cabeçote de motor a gasolina, com velas de ignição. Taxa de compressão de 16:1. Esse motor, também com 90 cv, gastava um pouco mais, ele gastava 12 litros/hora no trabalho pesado, ou seja, puxando arado ou grade. Vejam bem, 12 litros/hora. Nesse mesmo ano eu tinha um Opala Caravan com motor 4 cilindros, a álcool, de fábrica. Esse motor tinha os mesmos 90 cv de potência que os dois tratores citados acima, e, como potência é a capacidade de realizar um trabalho, teoricamente, caso esse motor do Opala fosse colocado num dos tratores, ele seria capaz de realizar os mesmos trabalhos. Certo? Certo. Mas acontece que se pegássemos um Opala daqueles e largássemos o pau na estrada a uns 130 km/h, ele faria uns 6 km/l de álcool. Bom, então, em uma hora percorreríamos 130 km. Fazendo 6 km por litro, teríamos gasto 130:6 = 21,6 litros. Conclui-se daí que o motor Opala gastava 21,6 litros de álcool por hora trabalhada. Vejam bem, 21,6 litros/hora. DESPERDÍCIO Deu pra notar que o motor do Opala gastava o dobro de álcool do que os motores dos tratores gastavam? O Valmet gastava 10 l/h, o Massey: 12 l/h, o Opala 21,6 l/h. Eu era um rapagão nessa época, mas não era burro! Logo vi que tinha coisa errada aí e que não estavam nos oferecendo carros com motores corretamente feitos para queimar economicamente o álcool. O que não imaginava é que uns 20 anos depois iam piorar ainda mais a coisa com essa gambiarra dos flex-fuels, os tais bi-combustíveis, que costumo chamar de flex-fools (fool em inglês é tonto, parvo, trouxa)... Vejamos. Um Monza 1988, motor 2.0 a álcool, fazia 12 km/l na estrada (o padrão de medição é a 90 km/h). Hoje um Astra 2.0 (mesma cilindrada), 2007, flex-fool, na estrada faz 9,8 km/l quando abastecido com álcool. Ou seja, como é que um carro com 19 anos a mais de tecnologia, com injeção eletrônica computadorizada e tudo mais, gasta mais? Um VW Apollo 1992, por exemplo. Motor AP 1.8. Na versão a gasolina vinha com 92 cv. Na versão a álcool, cuja taxa de compressão era ao redor de 30% mais alta que a do a gasolina, a potência subia para 104 cv. Havia um ganho de 13% na potência. Hoje, um Gol 1.6 flex-fool quando abastecido com gasolina gera 97 cv e quando com álcool, 99 cv, ou seja, ganho menor que 2%. Ridículo! Conclui-se disso que o motor flex-fool é um bom motor a gasolina que aproveita muito mal o álcool. É um desperdício vergonhoso. Ele joga um monte de álcool sem ser queimado pelo escapamento. UM DIA A BOMBA ESTOURA Vejamos o novo Focus 1.6 flex-fool. Esse motor, recém-lançado, parece ser um dos melhores flex-fools. Taxa 12,3:1. Potência com gasolina: 105 cv. Potência com álcool: 113 cv. Ganho de 7%. Ele faz na estrada 18,3 km/l quando com gasolina e faz 11,7 km/l quando com álcool. Ou seja, com um litro de álcool ele roda só 64% do que roda com gasolina. E esse é, como já disse, um dos bons flex-fool. Portanto, quando os proprietários de flex-fools forem optar entre abastecer com gasolina ou álcool, ele só deve pôr álcool se este estiver com um preço abaixo de 64% do preço da gasolina; e não 70% como andam erradamente recomendando. E o sujeito sai contente, achando que está se dando bem. Mas essa é a conta da Lei de Gerson, como bem diz o grande jornalista, e amigo, Bob Sharp. Ou seja, nessa atitude o proprietário está levando vantagem. Ele bota álcool quando o álcool está abaixo de 64% do preço da gasolina e sai ganhando. Mas é só ele quem sai ganhando no momento, pois o país perde. Perde porque o motor flex-fool dele está jogando álcool fora; álcool que o país produziu, e o país, como você sabe, somos todos nós, é o trabalho de todos nós, é a estupidez de muitos, é a sem-vergonhice de alguns. Falei outro dia com um senhor que cuida de uma frota de centenas de veículos, carros, que rodam país afora vendendo produtos e prestando assistência técnica rural. Eles têm dezenas de Gol Mil a álcool, modelo já não mais fabricado. Só queima álcool, não pode usar gasolina. Taxa alta. Esses Golzinhos estão fazendo uma média de 14 a 15 km/l de álcool. Na lenha, veículo de frota onde o sujeito monta e desce o cacete sem dó. Um Gol Mil flex-fool, nessas mesmas condições, faz ao redor de 10 km/l de álcool. Vejam aí a diferença de um motor realmente a álcool para um flex-fool. Preciso explicar mais porque me irrita essa enganação toda? Um dia essa bomba estoura. Pra “não ter medo de ser feliz” neste país, o jeito é ser ignorante e gostar de álcool. Pra não colocar fotos de carros comuns, que vocês já estão enjoados de ver, pedi pra colocarem deste Corvair Monza GT 1963.
Arnaldo Keller |