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ESCREVI UM LIVRO DE CONTOS

Pois é, meus amigos. Gosto tanto de escrever que acabei escrevendo um livro de contos. Os temas são os nossos preferidos: carros esportivos e mulheres que têm o dom de provocar paixão. Tudo ficção, tudo inventado, porém, tudo possível... Em breve – em uns dois meses – ele estará nas bancas. Passo o primeiro trecho do primeiro conto. A cada conto, uma ilustração. Espero que gostem, e que depois queiram seguir “viajando” no livro.

“UM FERRARI MARANELLO CRUZANDO A PATAGÔNIA

Saindo de Bahia Blanca – cidade seiscentos quilômetros ao sul de Buenos Aires –, eu seguia noite adentro para San Martin de Los Andes, mil e duzentos quilômetros adiante, ainda mais ao sul, na cordilheira. Havia duas semanas que minha mulher e nossas filhas estavam esquiando no Cerro Chapelco. Gostamos demais disso. Alugamos um chalé quentinho em meio a um bosque nevado. Enquanto dirigia, imaginava que essas horas elas provavelmente aqueciam-se ao redor da lareira. Disse “provavelmente” porque a gente nunca sabe o que as mulheres resolvem fazer. Imaginei a sala da lareira, imaginei o quarto, a cama... Eu estava com saudades da família, e uma especial da minha mulher.

No início, peguei chuva, torrencial. Pista simples, porém, totalmente vazia. Por várias vezes meu Ferrari Maranello aquaplanara. Também, mandando a bota a 170 km/h não há pneu que se livre de tanta água. Trrisst... trrisssst..., uma boiadinha. “Ai meu Deus! Agora vai!”, pensava, enquanto acalmava o frio na barriga e suavemente aliviava o pé do acelerador. Mas logo abria um asfalto com melhor drenagem, o Ferrari voltava a se encontrar com o chão e eu voltava pros meus 170. E assim segui pela primeira hora de estrada, maneirando...

Subitamente o aguaceiro parou e entrei num asfalto secando, soltando um vapor branco que subia, sumindo na noite escura. Ar parado, nenhum vento. Era a deixa para fazer aqueles doze cilindros cantarem. Reduzi direto de 6a para 4a marcha. Câmbio manual, alavanca na grelha do console, pedal de embreagem; nada de intervenções do computador na nossa relação. Assim o carro anda do meu jeito. Acelerei forte em busca dos sedentos 575 cv. Lembrei que estes Pampas, então encobertos pelo manto da noite, têm excelentes pastagens – sua fartura nutritiva cria um dos melhores e mais resistentes cavalos, o Crioulo. Continuo acelerando, aumentando a tropa em trabalho. O ponteiro do velocímetro responde de forma rápida e constante. Minha tropa mecânica estava na ponta dos cascos, tinindo. O giro subiu, indo pra 6.000 rpm, fazendo o motor urrar feliz com a soltada de rédeas. O Ferrari ainda deu umas ciscadinhas com a traseira, sobrando potência. Com leves toques na direção firme e rápida mantive-o alinhado, e fomos nos despedindo da água que ainda restava no asfalto. Estiquei a 4a até 8.000. “Agora grita, meu docinho! Respire forte e grite, que a coisa tá pra nós!” – falei-lhe, acariciando o túnel do cardã. Lembrei que o cardã gira na velocidade do motor. Motor na frente, caixa de câmbio atrás, entre os semi-eixos traseiros – um dos segredos da ótima distribuição de peso deste carro. Pé no talo em 4ª, meti 5ª. O giro caiu pouco, as marchas já entravam nervosas. Nossa! Não há nada igual ao urro de um V12! O som é tamanho, e tão afinado, que a sensação é de estarmos em meio a uma orquestra num auge alucinado. Provoca transe, tesão puro e dominante. A estrada afunila, até tornar-se uma tênue linha, um fio de navalha onde nos equilibramos. O ponteiro vai acusando 220, 240, 260, 280 km/h. Vi olhos brilhantes ao lado, eram os tais Crioulos que, assustados, fugiam, sumindo na escuridão. Puxei a 6a e tirei o pé, deixando baixar para 240, velocidade de cruzeiro. Respirei fundo, enchendo os pulmões com o ar carregado de relva fresca e estabilizei a 240, satisfeito. Comi um chocolate. Dizem que chocolate aplaca o tesão.

E assim passaram-se umas duas horas. Longa e infindável reta que, pouco a pouco, era engolida pela frentona voraz do Maranello. Vez ou outra uma curva solitária, de poucos graus. Depois dela, outra tremenda reta. De soslaio, vi que a vegetação mudava e ia tornando-se agreste, com tufos de capim, terra arenosa e pedras – estava entrando na Patagônia. Imaginei o Fangio. Sempre que passo por estas bandas me parece que tudo pertence a ele, que tudo foi conquistado por ele. Ele e seu companheiro, o mecânico, largando o cacete na carretera Chevrolet 39. Época em que esta estrada aqui era só um rasgo feito por lâmina de trator. O poeirão tussígeno entrando por todos os lados, vãos de portas, assoalho, misturado com cheiro forte de gasolina e óleo. Ferramentas, pneus e peças de reposição, amontoados, soltos, jogados no espaço antes ocupado pelo banco traseiro; latas batendo, escapes diretos cuspindo fagulhas. Pedregulhos fazendo o carro escorregar, facões cavados desviando subitamente a rota, mata-burros pondo a carretera aos saltos. “Hê he!” – pensei, sorrindo – “Na certa aqueles escapes botavam fogo na capinzama seca da beira da estrada; opa se botavam. Por onde passavam zoavam como máquinas dos infernos e iam incendiando o caminho feito um rastilho de pólvora. Esses sujeitos sim, eram doidos, esses sim... A morte sussurrava em seus ouvidos, seus lábios roçando-os, e eles nem aí.”. Mas o céu da Patagônia é tão grande, que logo, por mais estrepitosos que sejam, os sons estranhos são abafados. Em breve, tudo volta à calma, sobrando o constante zunir do vento cortado pelas ramagens secas. O gado, os carneiros, os cavalos, afrouxam as orelhas e baixam a cabeça, voltando a pastar, escutando as próprias bocadas e respiração. Os pássaros eriçam as penas e se ajeitam nos ninhos. Não há mais rebeldia. Os rebeldes vieram e foram-se. Para viver na Patagônia, há que se conformar com a própria pequenez diante da vastidão.

Tudo reto e plano à minha frente. A claridade dos faróis, refletida na bruma da noite, formava uma espécie de túnel quente e úmido em que infinitamente eu me embutia. Agora, enfim com o Maranello saciado de ar, gasolina, e vento no lombo, eu podia pensar sossegado. Meus esquis, ao lado do assento de passageiros, junto à porta, iam amarrados ao cinto de segurança pra não balançarem. As botas no porta-malas, presas às redinhas. Uma só mala, roupas de neve no sacão, e meu lap-top – era tudo que levava, fora a saudade sufocante que me fazia correr, correr, adentrando no túnel quente formado pelos faróis – esse túnel quente e convidativo que tanto me atraía, que orgânica e sensitivamente tanto necessitava. Aumentei para 250 km/h...”

E por aí segue esse conto. Como anteriormente disse, essa é só a primeira parte do primeiro conto. Espero que gostem.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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