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UM TOURO QUE É BOI E NÃO SABE — Naldo – me diz o Carlão, o gerente do gado – o Lula não está cobrindo vaca nenhuma. Vamos ter que vender o bicho e comprar outro. Antes que o leitor ache que estou metido num complô político, devo deixar bem claro que o citado Lula é um touro lá da fazenda. Até aí, tudo OK. Os anteriores, mal ou bem, tendo filhos bons ou ruins, cobriam e enxertavam as vacas, mas o touro atual, de tão folgado que é, nem isso está fazendo, e só quer saber de pastar e ficar na sombra. Está muito bonito, gordinho, de pelo lustroso e sempre com cara de satisfeito com o mundo como está. Mas, pra azar dele, sendo um animal irracional, não sabe que a lei da roça é clara: Se o bicho não presta para touro, ele é boi, então, seu destino natural é a rua. Em vista disso, mesmo pesaroso porque é um touro manso, meio hippie, bonachão, que exala gostar de paz e amor, dei ordem pro Carlão vender o boi p’ro açougue. — Quanto pesa o bicho? – perguntei ao Carlão. — Acho que umas 18 arrobas – respondeu. — Também acho, e já que a arroba deve estar valendo uns cinqüenta reais ele deve estar valendo uns novecentos. Então, Carlão, tenta pegar uns novecentos paus no Lula que tá bom. E assim, depois de decidir o destino alheio – coisa que detesto, mas sei que tem gente que adora –, voltei pra São Paulo. Daí que depois de uns dias o Carlão me liga:
— Naldo, vendi o Lula, mas só deu pra pegar 800, e a prazo. — Oitocentos? Só isso, Carlão? – contrariado, perguntei o motivo. — Naldo, a cana está entrando pra tudo quanto é lado. Estão acabando com os pastos, com as lavouras de algodão, soja, milho, com tudo, e os fazendeiros estão todos arrendando pra usina de álcool. E assim estão vendendo tudo quanto é gado, e rapidinho, pra poder plantar logo a cana. O preço do boi caiu barbaridade por excesso de oferta, mas quero ver quando essa boiada daqui acabar; o boi vai ter que vir de longe e aí a arroba de carne vai subir pra burro – o Carlão me esclareceu e continuou – E o milho... O milho já subiu, porque já está vindo de longe. Aqui na região quase ninguém plantou. Vai subir o preço do frango e do leite, você sabe, já que o milho forma o grosso da ração do frango e das vacas... E por aí estão vindo enormes conseqüências que ainda ninguém prevê. Desemprego, ou emprego temporário de cortador de cana, é o destino do caipira. Tudo o que ele sabe das lides da roça, uma cultura transmitida por gerações, não lhe valerá mais nada. Os mexicanos já estão sofrendo também, e mais; estão exportando um mundaréu de milho para os Estados Unidos fazerem o seu álcool, o etanol (o inverno norte-americano é muito rigoroso, não dá pra plantar cana porque ela morre de frio, então, eles fazem álcool dos grãos de milho). Daí que o preço do milho no México praticamente dobrou e a famosa “tortilla mexicana” – feita de milho, base alimentar do mexicano pobre –, encareceu demais para os coitados. Quem ganha e quem perde. Uns poucos ganham e muitos perdem. E não se enganem, pois a cana vai lamber nosso Estado de São Paulo. Vai porque o balanço energético da produção norte-americana de álcool, a partir do milho, é de 1 para 1,5, ou seja, lá eles gastam 1 unidade de energia – provinda do diesel, gasolina, eletricidade, etc – para produzir 1,5 unidades de energia em forma de etanol. Isso é péssimo. No Brasil, fazendo álcool a partir da cana, gastamos uma unidade e produzimos oito. Lá eles gastam uma e fazem uma e meia. Uma droga a produtividade deles, inviável. Daí que o Bush veio aqui ter uma conversinha pessoal com o Lula (não com o meu boi, com o presidente). O Bush quer o nosso álcool. Os amantes do álcool adoraram. O caipira paulista que sifú, que vá procurar o MST. Pra piorar a situação, um carro movido a nossa gasolina (gasolina mais 23% de álcool) gasta 10% mais combustível que se a gasolina fosse pura. Ou seja, por exemplo, um BMW que na Alemanha faz 11 km/l usando gasolina pura, aqui faz 10 km/l. Daí, conclui-se que 42% desses 23% de álcool que foi posto na nossa gasolina é jogado fora. Além disso, os carros bi-combustíveis desperdiçam muito álcool quando abastecidos só com ele, por falta de uma taxa de compressão adequada. As fábricas de carros não confiam até agora no abastecimento de álcool (palavras ditas a mim pelo presidente de uma delas) e não fazem motores certos pra usar só álcool, o que seria um carro muito mais econômico. Daí, conclui-se que boa parte dos milhões de hectares de plantio de cana, e de todo trabalho e sofrimentos envolvidos, é, e vai continuar sendo, jogado fora, por falta de motores certos e por essa mistureba idiota de combustíveis. Mas, enquanto para um monte de gente a coisa vai mal, para alguns tudo são flores. Vejam só: colocando R$ 100,00 de gasolina, você dá R$ 10,00 para o dono do posto, R$ 43,00 para a Petrobrás, R$ 0,80 para o caminhoneiro, R$ 3,20 para a distribuidora, R$ 17,50 para o governo federal e R$ 25,50 para o governo estadual. Dentre os que receberam o seu dinheiro, muita gente ralou pra que essa gasolina fosse parar no seu tanque, enquanto outros embolsaram e nada fizeram. Tem coisa errada aí. Não pense que está tudo certo, como dizem, pois não está. Estou pensando num novo nome pro tourinho que vou comprar, já que o Carlão já se livrou do folgazão, mas tá difícil. Urra se tá!
Arnaldo Keller |