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Mais peso é mais consumo e poluição

Podem esperar que daqui pra frente o combate à poluição e ao aquecimento global será uma demanda do cidadão. Os fabricantes de veículos terão que agir, queiram ou não queiram, produzindo modelos menos poluentes. Terão que agir porque o consumidor exigirá.

E já estão exigindo. Vejamos os modelos que já estão sofrendo fortes quedas de vendas nos EUA: os SUV (Sub Urban Vehicle) – ou, como aqui os chamamos, “utilitários esportivos”, que na verdade raramente são usados como utilitários e muito menos como esportivos. Suas vendas caem porque têm tudo o que vai de encontro à economia de combustível: 1) Pesam ao redor de duas toneladas (peso de uma banheira Cadillac da década de 1950). Esse peso equivale a uma perua derivada de um sedan carregada com dez pessoas (10 pessoas x 70 kg + 1.300 kg). Mal comparando, imagine o Jô Soares fazendo marcação cerrada no Robinho num jogo de bola. Compare a energia gasta pelos dois. 2) Giram pesadas engrenagens para acionar a tração 4x4 (um 4x4 gasta em média 14% a mais que seu similar 4x2). Têm pneus pesados e enormes, por conseguinte, mais atrito. 3) Têm péssima penetração aerodinâmica. Quanto a esse item, vale ressaltar sua importância. Um bom sedan costuma ser 40% mais econômico na estrada que na cidade, ou seja, se faz 10 km/l na cidade, faz 14 km/l na estrada. As SUV são tão ruins de aerodinâmica que só rodam 20% a mais na estrada. Já o Corvette 2007, com motor V8 de 6 litros e 400 cv, faz 8 km/l na cidade e 12 km/l na estrada – um diferença de 50%, devido à boa aerodinâmica.

Por conseguinte, para as SUV se locomoverem a contento, necessitam de grandes motores V8 com potência acima de 250 cv. O resultado de toda essa soma é um consumo assombroso, que só não é maior graças ao avanço da tecnologia dos motores. Mesmo assim esses dinossauros não rodam mais que 6 km/l de gasolina na cidade e 8 km/l na estrada. E vejam, por exemplo, que hoje uma perua Renault Mégane ou uma Toyota Corolla – com tanto espaço interno quanto esses monstrões –, usam motores de 4 cilindros com metade da potência e consomem em torno da metade do combustível. E tem outra, com desempenho, estabilidade e segurança muito melhores, fora que são muito mais gostosos de dirigir.

Perfil do Consumidor

E é bom notar que o peso também é inimigo da segurança, tanto a ativa quanto a passiva. Vejamos: 1) Carro mais leve e estável é mais rápido para nos safarmos de um acidente, portanto, melhor segurança ativa. 2) Quanto menor a massa, menor a inércia, daí que um carro leve, após a primeira pancada tende a parar mais rapidamente. Esse é o motivo dos Ferrari modernos costumarem rachar ao meio logo na primeira pancada – separando o habitáculo do restante do carro.

Mas aí, na hora da compra, ainda sobra um componente meio esquisito que força certo consumidor a comprar os caros e gastões SUVs: a personalidade do seu potencial comprador. Segundo pesquisa encomendada pelos fabricantes americanos e divulgada pela TV, esse sujeito não liga para dirigir bem. Esquisito, não é? Pois é, segundo a pesquisa: 1) Ele (a) não liga para estar fazendo as coisas direito, ou seja, ele não liga para portar-se corretamente no trânsito (portanto, cuidado com eles). 2) Ele quer olhar por cima de todo mundo e não está nem aí para o coitado que está atrás dele e que não vê nada além de um vagãozão à frente. 3) Não está nem aí com a poluição. 4) É inseguro ao volante e fora dele, portanto, quer o máximo de segurança e aconchego; daí os SUVs terem bancos macios e envolventes e geladeirinha e porta-copos e televisãozinha e musiquinha lounge calminha – em suma, ele exige ter à mão tudo o que a nossa mamãe gosta de nos dar.

Agora, separem bem os consumidores dos SUV, pois dentre eles há os que realmente usam e precisam dos ótimos recursos que esses jipes oferecem. São as pessoas que por obrigação ou por diversão se aventuram no fora-de-estrada. E aí esses jipões mostram que são capazes de proezas incríveis. Testei um Grand Cherokee acompanhado de um piloto da fábrica e só me arrisquei em certas manobras depois do piloto insistir que não haveria perigo. Mesmo assim só me meti porque o carro não era meu. Outro bom exemplo é de um amigo que tem um sítio numa biboca na Serra da Canastra, MG. Ele tem uma Pajero e usa constantemente a tração 4x4. Com ela já nos aventuramos a lugares aonde nenhum sedan chegaria, e ainda levando um monte de selas, sacos de ração de cavalo, pomada hipoglós e barracas de acampamento. Aí, sim, devemos ter paciência com o SUV, por ele não ser tão bom quanto seria um sedan na estrada de asfalto até chegar à de terra, por ter estabilidade deficiente e por ele gastar muito combustível, pois sua “utilidade” e/ou sua “esportividade” justificam essas inevitáveis mazelas. Nota: esse amigo é bastante seguro ao volante, tanto que já foi vice-campeão paulista de enduro pilotando moto.

Por essas e outras é que defendo esses jipões nos seus devidos lugares, ou seja, na terra. As fábricas é que não estão gostando dessa queda nas vendas, pois esses jipões, por serem caros, geram maior lucro por unidade que os sedans, mais baratos. Tal qual uma moto-cross é mais cara que sua similar versão street, o carro-cross é mais caro que o carro-street. A estrutura é maior, mais reforçada, e portanto mais cara.

A reportagem da TV também mostrou que nos EUA esses carrões, principalmente o gigantão Hummer, estão ficando mal vistos e muitos estão sofrendo represálias. Passeatas em frente às lojas, com gente gritando e erguendo placas, essas coisas. Muitos estão sendo pichados, isso mesmo, pintados com protestos de que são nocivos ao meio ambiente. Esses exageros de extremistas amalucados mostram que as coisas estão mudando, que a consciência coletiva está mudando. Tanto está, que a cada edição das revistas estrangeiras vemos mais e mais anúncios ressaltando a economia de combustível do modelo; qualidade antes desprezada pelo consumidor americano. E todo mundo sabe que quando americano encana com uma coisa ele vai a fundo.

E eis aí a nossa chance, a do Brasil. Porquê? Porque de tão cara que é nossa gasolina, e por outros motivos conjunturais, acabamos nos especializando em produzir carros econômicos – mesmo os sedans mais luxuosos o são –, e esses modelos provavelmente terão maior demanda nas exportações.

Dois últimos dados: a cada 1 litro de gasolina queimado teremos mais 1.265 litros de gás carbônico na atmosfera, e isso, por incrível que pareça, pesa 2,3 kg. Como, então, 1 litro vira 2,3 kg? Combinações químicas entre o carbono da gasolina e o oxigênio do ar, geram essa sujeira aí; sei lá como, mas que gera, gera, segundo a Agência de Proteção Ambiental americana. Confira no site: http://epa.gov/climatechange/index.html.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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