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USADOS AINDA SÃO CAROS NO BRASIL
Numa sociedade, cada um deve ter sua função social, ou seja, se você quiser fazer parte de uma sociedade, além de cuidar do próprio traseiro você deve contribuir para o bem-estar geral de todos. A idéia de formação de um país é a mesma da de uma família, uma tribo: contribua, seja útil, e, diante disso, usufrua. Essa contribuição que cada um dá é chamada de função social. Assim como cada indivíduo deve ter sua função social, cada setor da sociedade deve ter a sua. Vejamos o caso deste jornal que tem à mão. Para ele atingir seu objetivo final, que é informá-lo sobre o mercado de veículos e atrapalhá-lo com minha coluna, alguém plantou eucaliptos, outro alguém os cortou, outro transportou, outro o transformou em papel, nós recebemos informação de todo lado e escrevemos, outro imprimiu, outro distribuiu e o jornaleiro te vendeu, e barato, um real e meio; não paga uma branquinha lá no planalto onde estão os caras esclarecidos que “organizam” tudo isso. Para você usufruir de um carro, uma máquina fantasticamente útil que essa sociedade complexa produziu, você deve pagar por isso. Há dois modos de pagar por esse produto: 1- Você tem crédito acumulado, ou seja, você já contribuiu além do que usufruiu, e a sociedade te deve. Essa dívida está em forma de dinheiro no bolso. Então você dá o dinheiro e eles te dão o carro. 2- Você não tem todo o dinheiro, então chega um sujeito que tem o dinheiro e te empresta. Mas ele vai deixar de comprar coisas úteis a ele para poder te emprestar, então é justo que você o compense por sacrificar-se por você. Essa compensação chama-se juros e esse sujeito altruísta chama-se banco. Países desenvolvidos e subdesenvolvidos
Para que todas essas engrenagens funcionem a pleno, o crédito que o banco fornece deve atuar como um lubrificante. Sem ele a economia emperra. E é aí que está uma das grandes diferenças entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos: na lubrificação, ou seja, no crédito. Uma economia para produzir bastante deve ter crédito fácil e barato; e é ele, ou melhor, a falta e o alto preço (juros) dele, que tem emperrado nossa economia. Assim sendo, constatamos que o setor financeiro não tem cumprido a contento o seu papel dentro da sociedade brasileira. Não é tanto devido à ganância do setor, mas sim devido à alta carga de impostos que o onera, e ao elevado endividamento do governo federal. Quanto mais altos os impostos incidindo sobre o crédito, mais alto o juro, pois alguém tem que pagar essa conta. Como o governo pega muito dinheiro na praça, os bancos têm pouco pra emprestar, e já que o dinheiro é uma mercadoria, quanto menos dinheiro há na praça, mais caro ele fica, mais alto os juros. Isso forma um ciclo vicioso difícil de desenrolar. A engrenagem quebrada no Brasil é o setor público. Tomemos como exemplo os Estados Unidos, uma economia destravada, que funciona, onde o crédito é farto e barato. Pra começar, lá um automóvel zero km carrega só 6% de impostos (aqui, em média é de 32%). Além disso, há grande oferta de crédito longo e barato. O resultado é que a economia americana consome mais de 20 milhões de carros novos por ano – dez vezes mais que o Brasil, e com uma população só 40% maior. Além do maior número de carros, na média esses carros são maiores, mais sofisticados, confortáveis, seguros, mais potentes, mais tudo. Daí que devido a essa facilidade na compra do zero, os usados são muito mais desvalorizados que aqui. Vejamos uns exemplos: Honda Civic completo zero km, lá: R$ 40.000,00 (Reais! Não é Dólar, não!, e aqui um similar custa mais de R$ 70.000,00 devido aos impostos). Um 2004:R$27.500,00. Um2002: R$ 20.000,00. Um 2000: R$ 14.000,00. Um 1998: R$ 9.800,00. Um 1996: R$ 6.600,00. Portanto, a cada dois anos ele desvaloriza 30% em média. O mesmo se passa com o Ford Focus, que com motor 2 litros, completo, zero km, lá custa R$ 36.000,00 (o mesmo que um Fiesta Sedan, motor mil, pelado como um frango que saiu da panela, aqui). E o mesmo com um VW Golf (R$ 43.000,00 o zero, dos bons). A média do mercado é essa: 30% de desvalorização a cada dois anos (aqui a desvalorização a partir do 2o ano é de 15 a 20% a cada dois anos). Lá, portanto, uma garçonete de MacDonald’s pode tranqüilamente comprar um Civic 1996, cheio das mumunhas, por R$ 6.000,00. E ela ainda pode financiar esses seis mil que vai pagar um juro anual de 4%, o que em 36 parcelas deve dar uma prestação de no máximo R$ 170,00 por mês, sem entrada. Moleza, né? Aqui, quem pega 4 ônibus por dia de trabalho já gasta R$ 236,00 por mês (R$ 2,30 x 4 x 26 dias). Agora, vá ver a paulada dos nossos juros; eles são os mais altos do mundo. Não é conversa, não; eles são os mais altos, mesmo! Mas a verdade não é bem essa, pois lá as garçonetes turbinam os peitos conforme a moda e andam de carro zero km. Um Civic 1996, lá, é carro de imigrante ilegal, que vive das migalhas que caem da mesa dos gringos. Aqui, portanto, já que o carro novo e o financiamento são bem mais caros, o brasileiro médio tem duas opções: ou compra carros novos com motor de motocicleta (1.000 cmÅ), ou carros usados. Mas esses carros ditos populares oferecem pouco conforto, muito pouco, são carros que só satisfazem religiosos da Ordem Franciscana, então a procura por carros usados com mais recursos é bem elevada, o que os torna também caros, com menor desvalorização do que deveriam ter. Outro ciclo vicioso que se forma, prejudicando o brasileiro, que ou topa essa jogada ou anda de buzão lotado. Ponto G
Então, como diria o nosso presidente, vamos ao “Ponto G” da questão: o que fazer? Nada! O problema não está na nossa eficiente indústria automobilística nem no também eficiente setor bancário, e muito menos no brasileiro que se vira como pode. O “Ponto G” é a ineficiência do setor público, que não cumpre com sua função social, fazendo com que nós paguemos o pato e não o comamos. Eu, se fosse eleito presidente, pra começar, tranqüilizaria os moços que ainda não sabem descobrir onde ficam os misteriosos “Pontos Gês” das mulheres. Decretaria que tatuassem em todas uma flecha indicativa com as devidas orientações. Com essa medida nossos homens não passarão vergonha por fazer besteira na juventude e nem por falar besteira na maturidade.
Arnaldo Keller |