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FIESTA SEDAN: MUDANÇAS QUE NÃO MUDAM
Todo mundo ficou sabendo das mudanças ocorridas no Ford Fiesta Sedan. A campanha publicitária foi maciça. Estando em Pirassununga, resolvi ir a uma revendedora pra conferir, já que tenho simpatia pelo modelo. Essa simpatia veio após uma viagem que, anos atrás, sozinho, fiz a Belo Horizonte e cidades históricas, a trabalho. Lá estando, me telefonaram que havia problema de saúde na família, e assim voltei correndo, e correndo mesmo. Era um Fiesta 1000 Supercharger e ele mostrou-se valente e confiável, apesar de gastão quando posto pra correr (8 km/l gasolina). Suspensão boa, espaçoso, ergonomia boa – o carro me tratou bem durante a longa viagem. Bom, então, quem sabe um Fiesta desses, motor 1000, com ar-condicionado, não seria um bom carro zero-km para comprar? Faz mais de dez anos que não compro carro zero. Fui fazer um test-drive. Mudou o desenho dos faróis, a grade dianteira, a entrada de ar para o radiador e mostradores do painel – mudanças tão pífias que era melhor não terem feito tanto alarde.
Osso com quina O que chateia é que, mesmo passados vários anos em linha de produção, o que era realmente necessário mudar, não mudaram. O painel continua com uma quina pontiaguda que parece que foi cuidadosamente posicionada para deslocar o joelho do motorista. Dirigindo, não podemos descansar a perna direita, apoiando-a à direita, no painel, pois deixá-la ali, além de incômodo, é perigoso. É osso com quina. No caso da mais leve batidinha com o carro, mesmo a uns 10 km/h, está arriscado o motorista engolir a própria rótula, pois a tal quina vai sacá-la com perfeição cirúrgica... Clóck! Já para quem vai no banco traseiro, este deve cuidar para deixar os tornozelos longe dos trilhos dos bancos dianteiros, pois eles são também incômodos e perigosos. Basta mexer os pés pra lá e pra cá para damos topadas doloridas com as juntas dos tornozelos nessas quinas de ferro. Também, mesmo em caso de pequenos acidentes, teremos essas quinas que podem causar um belo estrago. Uma lástima. Lástima maior é que seriam providências que não acarretariam em custo algum ao fabricante, só mais atenção, cuidado, ou seja, mais consideração do responsável. Isso me faz lembrar certo dia, quando viajava com meu pai, que era arquiteto. Fazia um calor senegalesco e passávamos por um conjunto residencial tipo BNH, na região de Campinas. Vi que os apartamentos não tinham um mínimo de arquitetura estudada para amenizar nosso clima tropical. Eles tomavam um sol de chapa e eram tapados, com janelas pequenas e sem ventilação – deveriam estar quentes como um forno de assar pão. Comentei com meu pai, dizendo-lhe que quem os projetara deveria ter tomado maiores cuidados com o bem-estar dos futuros moradores. Sua resposta, devido à larga experiência de vida, foi rápida e conclusiva: – Quem os projetou, na certa, não ia morar lá, pois, se fosse morar, cuidaria de fazer coisa melhor! – ele afirmou. – Sacanagem, pai! – comentei, assustado com a realidade crua.
– Pois é, filho. Podemos separar todos os homens em somente duas categorias: os que se preocupam com os outros e os que não estão nem aí com os outros. E isso serve pra tudo, para educação no trânsito, para política, para relações familiares e sociais, para o trabalho. O homem correto, educado, cordial, esse, em suma, é um sujeito que, por princípio, se preocupa com os outros. Uma categoria de gente que está meio fora de moda, infelizmente. De vez em quando não sei bem porque lembro de certas coisas... Estabilidade nas curvas Mas, afora esses pequenos detalhes, o Fiesta Sedan me pareceu um bom carro. Boa suspensão, silenciosa, que absorve bem as irregularidades do piso. Estável em curvas de baixa velocidade, apesar da carroceria alta adernar além do agradável. Em curvas de alta velocidade já não passa tanta segurança, mas isso é inevitável nesses modelos mais altinhos, tal qual o VW Fox, Fiat Idea, etc, que andam na moda ultimamente. São carros mais próprios ao uso urbano. O motor de 1000 cmÅ dá conta do recado, na cidade; já na estrada, creio que pela aerodinâmica não ser das melhores, falta potência (tem 71 cv a 6.000 rpm usando álcool e 65 cv quando gasolina). Tanto é que a 5a marcha é curta – a 120 km/h o giro está por volta das 4.300 rpm, rotação alta para que produza potência necessária para vencer o grande arrasto aerodinâmico. Fazendo as contas, conclui-se que o motor precisa produzir uns 52 cv para manter o carro a 120 km/h, e isso denota uma aerodinâmica ruim. Nem é preciso saber o seu coeficiente aerodinâmico (Cx) para concluir isso. Mas, como já disse, essa é mais uma característica de todos esses carros altinhos e urbanos. Sempre é assim, sacrifica-se uma coisa em prol de outra; não dá para ter tudo de bom num só carro. O funcionamento do motor 1000 é um pouco áspero, já o 1600 (105 cv a 5.500 usando álcool) é bem mais liso e passa melhor desapercebido. Portanto, para quem pretende usar o Fiesta na cidade, mesmo usando ar-condicionado, basta o 1000. Para quem pretende viajar bastante, o 1600 torna-se necessário, além de mais econômico na estrada, provavelmente.
Pontos altos são o bom espaço para os passageiros e o acionamento das trocas de marchas – um dos melhores, pois o trambulador é leve e preciso, com movimentos curtos e justos. Acionar a alavanca é um prazer. Não é sem susto que ouvimos o preço do modelo motor 1000 testado: – 37 mil reais – a moça informa, tranqüilamente. – Quanto?? Mas, pelo qual? Pelo com motor mil? – arregalo os olhos, boquiaberto.
– É, pelo mil, mas ele vem com vidros elétricos, ar-condicionado e travas elétricas e pititi e pototó... – pondera a simpática vendedora, piscando os olhos, já meio desconcertada com minha estupefação. – Minha simpática senhorita – lhe digo. Então não será dessa vez que volto a comprar um carro zero-km, pois minha razão não permite. Tenho certeza que abrindo o Jornal SuperAuto faço um negócio muito mais inteligente com um semi-novo. Obrigado pela volta e pelo café, mas agora vou tomar banho de piscina porque já trabalhei demais por um dia. Boas vendas. Não estou puxando a sardinha pro nosso lado, não. Só estou afirmando que quero mais pelo meu suado dinheirinho.
Arnaldo Keller |