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T-BUCKET 1923: O BALDE VOADOR

O“T” vem do Ford modelo T, pois a origem desse carro da foto é esse Fordinho T, que foi fabricado até 1926. Lá pelos idos de 1930 uns americanos malucos começaram a pegar caminhonetes do Ford T, tiravam tudo que pesasse e não servisse p’ra correr e mexiam no motor e punham p’ra rachar. Com a Ford lançando seu primeiro motor V8 em 1932, o conhecido “Flathead” (cabeça-chata), os gringos instalavam esse motor nas suas casquinhas de noz, preparavam o bicho e mandavam a lenha.

Bucket significa balde. Balde porque eles soldavam as portas p’ra ganhar rigidez e porque também eram desnecessárias, e daí a cabine virava um autêntico balde. Se chovesse a água ficava presa, refrescando os pés. Então, daí veio o apelido de T-Bucket.

O motor costumava ficar exposto pra facilitar o trabalho de apagar o fogo que costumava inflamá-lo, já que as coisas eram amarradas com arame e tudo na pressa regada a cerveja e uísque de milho feito pelo avô bêbado e apalermado no porão de casa. As pinturas imitando labaredas vêm daí.

Eles traziam o eixo traseiro pra frente, para que o motor pesasse mais sobre os pneus traseiros e com isso ganhar tração, daí que alongavam o chassi adiante do motor para evitar que o carro empinasse. Os dragsters, fininhos e compridos, são o exagero desse princípio de construção. Rodas finas na dianteira bastam para direcionar essa máquina de doidos, na reta... Curvas? Meu chapa! Forget it! Esqueça! O negócio é arrancar com tudo pra frente numa trancada de fazer parar o coração e isso basta, ôô se basta.

O banco é inteiriço, pra poder trazer a gata mais pra perto e porque os carros já eram assim mesmo. Ele tem uma acentuada elevação em seu bordo frontal, onde apoiamos as coxas. Esse apoio evita que sejamos jogados pra frente durante as freadas. Ficamos meio acocorados, com as costas na vertical. O volante é quase horizontal, daí que não serve de apoio na freada, pois, se apoiássemos nele poderíamos virá-lo, tirando o carro da rota. E esse carro é pra ficar na rota reta; não é aconselhável ficar inventando. Cinto de segurança? Isso só existia em avião. Melhor até não ter, pois se essa m... capotar é melhor sair voando que ficar rolando junto com os ferros. Em suma: carro de macho.

Marchas acabam em lapsos de segundos

Este já o terceiro T-Bucket que guio, e foi o melhor dos três, o mais equilibrado, a ponto de permitir umas brincadinhas em saídas de curvas de baixa velocidade, estando em 1a ou 2a marcha. E estabilidade direcional é boa, pelo menos até o final da 3a marcha. Daí pra frente não sei, pois não havia espaço nas ruas paulistanas no sábado pela manhã. Por sinal, creio que muitos dorminhocos devem ter acordado nos xingando, pois o V8 Ford 302 tem duas enormes bocas de escapes diretos que são de matar cachorro de susto na calçada. Um desses cães, um rechonchudo Labrador que regava um poste, ao sobressaltar-se com o barulho da acelerada deu um salto que o fez molhar as canelas finas e peludas do dono com sua urina quente. Não esperamos para escutar o que tanto o rapaz nos tinha a dizer e fomos embora tão rápido quanto possível.

E olha que este T-Bucket é rápido pra bedéu! Calculamos o zero a cem abaixo dos 5 segundos. Um tranco! As marchas acabam em lapsos de segundos. O carro é levíssimo – deve pesar por volta de uns 650 quilos (meu Fusca 66 pesa 760 kg). Dá pra sair em 2a marcha e acho assim é até mais rápido pra arrancar pra valer. Manobrando-o empurrando, sem ligar o motor dentro da loja do André – a Prestige Motors, na esquina da Rua Estados Unidos com a Campinas –, deu pra sentir o quanto esse T-Bucket é leve. Com esses magros 650 kg e esse V8 302 muito bem preparado – comando de válvulas brabo, cabeçotes trabalhados, taxa alta, carburador Holley quadrijet 750 cfm –, que deve estar gerando perto dos 300 cv, temos uma relação peso:potência ao redor dos 2 kg:cv ou pouco mais. Uma estupidez de peso:potência das mais gostosas.

Pneus traseiros do Dodje Viper garantem boa tração. São Michelin 335/35R17. Os dianteiros são BF Goodrich 165/15 mais finos que os do Fusca. A direção é rápida, e esses T-Buckets devem ter direção de reações rápidas. Já peguei um com relação muito desmultiplicada e isso foi péssimo, pois o carro quando no cacete, exige correções constantes e instantâneas.

A banheirinha, ou seja, o balde onde ficamos, é feito em plástico reforçado com fibra de vidro, nos moldes da carroceria cortada da picape Ford 1923. A suspensão traseira está dura, com curso curto, ótima para arrancadas em piso liso estilo gringo, mas um tanto saltitante para a buraqueira paulistana, daí que o local da acelerada deve ser bem escolhido. Toda a “pista” deve estar no campo visual. Não se deve andar rápido arriscando que à frente vá estar liso. Tem que olhar onde pisa. Isso pode ser bem melhorado. Acelerar forte em saída de curva faz o carro tender a seguir reto, creio que devido a dois fatores: 1- frente leve, pois ela levanta um pouco com o torque aplicado pelo eixo traseiro, e 2- Pneus finos na dianteira.

Só sei que afora esse rapaz fedorento de urina de cachorro, as manifestações dos passantes e motoristas que emparelhavam eram das mais agradáveis, com “Bárbaro!” “Esse carro tá demais!” “Dá mais uma acelerada aí pra gente ver!” Não tem esse clima de inveja mordaz que alguns carrões muitas vezes provocam. Ao contrário, o carro atrai amizades e sorrisos num puro clima esportivo. Gostei. Tanto gostei que bolei um T-Bucket baseado num Jeep Cherokee. Esse Cherokee tem tração constante nas quatro rodas, motor V8 que, de saída, sem preparo, já dá uns 215 cv, e o jipão mesmo pesando mais de duas toneladas já anda forte. Então... fiquei pensando em pegar um jipe desses que tenha porrado e fazer um T-Bucket levinho com tração nas quatro e.... bom... imagine você aí daqui pra frente como você quer o seu que eu imagino aqui o meu. E imagine o seu direitinho porque senão vai levar pau!


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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