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RECLAMAÇÕES DE UM CARA QUE GOSTA DE CARROS: EU

São seis horas da manhã de Domingo, estamos na praia e minha filha ainda não chegou da balada no Sirena onde foi com as amigas. Preocupado, nada como estar de mau humor pra soltar os cachorros.

Outro dia, no agradável galpão da coleção de carros do Alexandre, onde tomávamos cerveja com o Jorge Lettry, ou melhor, nós na cerveja e ele na Coca-Cola, o Lettry contou sobre o fim da DKW no Brasil. Refutou o que dizem por aí, que a Volkswagen tenha comprado a fábrica DKW e fechado suas portas com a intenção de tirar do mercado um concorrente para a linha Zé do Caixão, Variant e TL, que em breve lançaria. Disse que ela pifou por si só; devido à direção da fábrica não estar constituída de gente do ramo, mas sim de investidores; puros e simples investidores que não entendiam bulhufas de carro e só pensavam em lucros imediatos.

O golpe de misericórdia veio com o lançamento do Fissore, que era uma porcaria de carro. Mandaram um diretor à Europa para escolher um carro com um jeitão mais esportivo, pois achavam que ele atrairia os olhos do consumidor para a marca. Esse diretor, claro, não manjava nada (são seis e meia, minha filha chegou, ufa!, mas os cães já se espalharam com os dentes arreganhados; portanto, sigo) e o songamonga metido a bacana trouxe o Fissore desmontado dentro de caixas. Sobrou pro Lettry e seu pessoal montar o carro. Abriu as caixas e viu vidros enormes. Não gostou, pois vidro pesa muito e esportivo deve ser leve.

Eraquatroportas...Esportivo?... De qualquer modo, o montou e foi testá-lo. Ao final do teste sobrou o veredicto: uma bosta de carro! “Mas, como assim?” – a diretoria questionou. “O carro é muito pesado. O motor que temos não dá conta de o fazer andar decentemente e os freios não dão conta de o frear. Uma bosta” — foi a resposta. E o que a diretoria decidiu? A fábrica “envenenou” o velocímetro, ou seja, o fez marcar muito mais do que a velocidade real. Desse modo o comprador achava que o carro corria bastante e era tão estável que nem parecia que corria. “A cem parece que está a oitenta!” — entusiasmavam-se.

O diferencial foi encurtado, deixaram-no mais reduzido para o carro ficar menos letárgico. Mas isso não deu certo e a primeira série teve todos os motores fundidos, ou quase todos. Resolveram isso regulando o injetor de óleo dois tempos para deixar a gasolina mais rica em óleo. E aí o animado comprador do belo Fissore aboletava sua animada família no carro novo e resolvia ir pra Santos tomar banho de mar. Mas os guardas rodoviários do alto da serra o paravam, impedindo-o de descer, pois tudo quanto é Fissore que descia a serra perdia os freios por super-aquecimento e se acidentava. Vejam bem, os guardas daquele tempo também tinham a função de prevenir acidentes e também quando paravam um sujeito que corria demais passavam-lhe um belo sabão envergonhante, e assim, educavam.

Hoje nem sabemos porque fomos multados e toca a tentar lembrar daquele dia, lugar e hora. A gente é que nem cachorro: tem que levar a carraspana no momento da besteira senão não aprende.

Pau que nasce torto não tem jeito, morre torto, e a DKW não ouviu quem entendia, insistiu no carro, e por mais que tentassem o carro nunca ficou bom e deu um prejuízo do caramba e o Fissore acabou de enterrar a DKW. Então é isso: o Fissore era uma bosta, e acho gozado um colecionador atual se preocupar em achar o friso certinho e original ou o miolo da buzina de um Fissore. Acho gozado porque se esmera em reconstituir uma bosta à perfeição. Mas talvez ele goste de rememorar bons momentos que teve com a família num Fissore, desde que ele não tenha sido um dos que desbarracaram pela serra de Santos...

Carros Clássicos e colecionadores

Também ando contrariado com colecionadores que têm muitos carros. No Brasil está havendo uma concentração de carros clássicos nas mãos de poucos. Desse modo a maioria dos carros nunca anda e fica sobre cavaletes ou de pneus murchos e cheios de problemas por falta de uso. É que nem cavalo. Quem tem um ou dois cavalos está sempre montando, os ama, e os mantêm nas pontas dos cascos, treinados, sem vícios e com saúde. A maioria dos que têm um monte de cavalos nem montar monta – tem os bichos por compulsão de ter ou para ganhar o bizarro status; tal qual se passa com carros. Desse modo, só sendo convidado para visitar coleções para saber que os carros existem, pois a maioria nunca sai às ruas e nem mesmo vai a exposições. Tipo “Sou o dono da bola e ninguém joga!” Conseqüência: a maioria dos carros antigos não tem condições de dar duas voltas no quarteirão, nem mesmo após dois dias de reanimação na UTI, enchendo pneus, limpando carburador e velas e botando gasolina e tudo o mais. É triste.

Em países desenvolvidos, os carros antigos, assim como a renda, estão mais pulverizados e sempre estão andando pelas ruas, ou pistas, ou ralis. Talvez, se a America Latina virar uma Cuba, como querem seus líderes, esses carros voltem à ativa. Teremos taxis Galaxie a biodiesel, Fusca sem o banco da frente, como os taxis-mirins de antigamente, e Opala seis canecos a gás venezuelano.

E os esportivos? Porque que nenhuma multinacional com fábrica no Brasil constrói aqui um raio de um esportivo, tal qual fizeram em décadas passadas? O máximo que atualmente fazem é grudar em seus carros comuns uns adesivos de GT, RS, e colocarem outros apetrechos dublando esportivos. Porque não? Se a GM tem tantos bons esportivos nos EUA, como o Corvette, o Solstice, etc. A Ford outros tantos, como o Mustang, o GT40, etc. Honda, Toyota, Renault, etc, todos têm esportivos lá fora e nenhum se toca que fabricar um esportivo aqui será ótima propaganda, trazendo prestígio e simpatia pela marca; pois um esportivo é objeto de desejo e uma ótima vitrine da capacidade tecnológica do fabricante. As fábricas daqui têm a missão de ganhar dinheiro o mais rápido possível, e só. E o duro é que sei que nelas trabalham excelentes engenheiros que amam carros, tal qual Jorge Lettry, você e eu.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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