Primeiramão

Anunciar Meu Cadastro Acesso Integral Loja Virtual Mapas Notícias Ajuda
Escolha sua região:
Buscar:
Assista o nosso vídeo

Ferrari Testarossa 1958

Então, já que o Riley Treen 1930 estava empacado feito um jumento emburrado no box 22, com seu disco de embreagem colado no platô por falta de uso, fiquei também emburrado ao seu lado porque não poderia sair com ele. Aí veio o dono dos Ferrari que estavam no box 20 me convidar p´ra guiar o Testarossa 1958. Ele iria com o Ferrari GTO 1962, o veterano piloto Jan Balder iria num Malzoni GT, e eu no Testarossa com o André.

O Rubens Duailib, no seu BMW 3.0 1974 (o ano é por aí e é um carro delicioso de bom), iria atrás nos filmando pro seu programa Motor Day. Acabara de chover e o asfalto estava escorregadio. O Testarossa eu já havia guiado há anos numa estradinha do interior, portanto, mais ou menos já o conhecia.

Tentei enrolar um pouco pra sair, pra esquentar direito os ferros. Um carro de corridas antigo, motor V12, carter seco, leva um monte de óleo de carter no sistema – ao redor de uns 20 litros –; isso para que haja uma boa refrigeração do óleo. Daí que o motor demora a esquentar. O mesmo se passa com o óleo de câmbio, que também é bastante, portanto, o certo é esquentar bem a máquina antes de sair e, saindo, no começo devemos ir devagar.

Saímos pela descidinha dos boxes. O GTO na frente, eu logo atrás em 2a marcha e o Jan Balder na minha cola. Ao entrar na Reta Oposta o GTO logo deu uma sentadinha com a traseira e saiu em disparada. Não deu pra segurar e acelerei um pouquinho mais forte do que acho que seria o certo, mas só por pouco tempo, pois às 5.500 rpm (faixa vermelha a 7 mil) já engatei 3a, puxei um pouco e engatei a 4a e última marcha. Nessa esticadinha percebi que as velas estavam ainda sujas, pois o carro deu uma embaralhadinha.

Ao final da Reta Oposta, freei, reduzi para 3a, os Weber gargarejaram fazendo um som gostoso de gróóóll, e tentei engatar 2a... rrécc! O sincronizado da 2a não estava perfeito como o das outras marchas e arranhava. O óleo do câmbio também estava frio e tive esperanças de que, com o câmbio quente, ela deixaria de arranhar, o que veio a confirmar-se mais tarde.

Mesmo assim, arranhando, fiz dupla-embreagem, engatei-a e acelerei na saída do Curva do Lago. As marchas são longas, muito longas. O carro é todo feito pra alta velocidade; carroceria de alumínio, 750 kg, suas linhas fluidas, cheio de flechas penetrantes do ar, o motor de três litros que sobe a alto giro, rotação na qual atinge 300 cv e seus seis Weber duplos – uma boca para cada cilindro – respirando a pleno, as rodas e pneus grandes... é um carro pra andar a mais de 250 km/h e beirar os 290 km/h.

Por enquanto eu só acelerava de mansinho, progressivamente, dando gasolina aos poucos para que o V12 fosse limpando suas entranhas com bastante ar. Só vim a engatar 3a já perto da Curva do Laranja. Piso molhado, tomar cuidado, ainda mais quando se tem nas mãos uma máquina que vale uns 800 mil dólares. Meu Fusca 66 parado no estacionamento não era garantia nem pra uma roda do Ferrari, e minha conta esfrangalhada do Bradesco muito menos....

Chegando à curva à direita que entra no Miolo, reduzi pra 2a marcha, de novo arranhando um pouquinho, e fizemos o miolo onde o Ferrari mostrou um delicioso equilíbrio nas curvas e a grande elasticidade que os V12 costumam ter. Antes da Bico de Pato o Jan Balder perdeu a paciência de andar atrás de um carro ainda se esquentando e me papou por fora e, despinguelando pelo Mergulho, foi atrás do GTO.

Passou o GTO, por dentro, na Curva da Junção. Mas já na Subida do Café o GTO deu o troco e se mandou. Acelerei 2a marcha, empurrei 3a – por sinal, a alavanca de câmbio é tão alta e próxima da direção que podemos cambiar mantendo o dedão no volante – e fui fácil buscar o Jan. Para passá-lo tive que fazê-lo por dentro, pela esquerda, na curva aberta que antecede a reta dos Boxes. Ali estava bem molhado, então o passei com cuidado, sem acelerar muito forte, porém, assim que pude buscar um chão mais seco acelerei gostoso e o Testarossa pôde abrir as pernas num galopão mais esticado. Até aí o André, que ia comigo, filmou com sua câmera fotográfica digital (o filminho está no site). Depois ele desligou a máquina, já que resolveu só curtir.

Pista de Comadre

O circuito de Interlagos de hoje é muito travado. Não há espaço pra uma máquina como o Testarossa mostrar seus devidos dotes, que aparecem mesmo acima dos 200 km/h. Eu e o carro queríamos mesmo era pegar a pista antiga, onde as antigas Curva 1 e 2 eram feitas de pé colado no talo. Aí sim é que o bicho pegaria. Paciência. Países desenvolvidos não jogam fora um circuito de alto nível como Interlagos antigo era. Agora virou pista de comadre, com pouco desafio.

Na 2a volta andamos mais forte. Com o carro mais quente e conhecendo o estado do piso e as reações da máquina, pude fazê-la correr mais gostoso. As arranhadelas da 2a acabaram e deu pra fazer o V12 cantar gostoso. Um carro maravilhoso. O GTO que ia à frente tem motor V12 de 4 litros e 400 cv. Carroceria de alumínio, pesa só 800 kg. Um comando bem mais bravo, que embaralha em baixa e, quando limpa, estilinga feito um canhão. Câmbio de cinco marchas, todas próximas, com pouca diferença de giro quando as trocamos, o que dá uma seqüência alucinante na aceleração.

Conheço o GTO porque já o guiei em outras duas ocasiões, e até agora é o carro que mais gostei de guiar. Esse carro deve passar do 300 km/h, certamente.

No sábado pude colocar o Riley na pista. O empurramos até a descidinha da saída dos boxes. Desligado, engatei 3a marcha e, com o empurrão de uns amigos dei na partida e o carro pegou e já saiu andando. Fiquei, portanto, só na 3a marcha e, com o pé esquerdo atolado na embreagem, fui acelerando e tirando pra ver se forçando o disco ele descolava.

Atrás de mim Alfa Romeo GTA, Mustang com cabeçotes Gurney e 550 cv, K.G. Dacon e mais um monte de carros de corrida. E assim fizemos a 1a volta e passamos pela Reta dos Boxes com o público incentivando o danado do Rileyzinho porque ele é simpático mesmo, o danado. Até que ao sair da Curva do Sol dei passagem pros outros passarem babando e acelerando na minha orelha e só vi poeira levantando e os caras sumindo na reta e quando cheguei à Curva do Lago eles já estavam dando seus currupios pelo Miolo. Restou-me acender um cigarro – o que fez muita gente rachar de rir – e dar mais duas voltas pra ver se soltava o disco da embreagem, mas, nadicas. Então, pra não forçar a barra, entrei nos boxes.

Depois disso ainda levei o Jorge Lettry, antigo chefe de competições da Equipe Vemag, e o Ricardo Bock, o professor sabe-tudo da FEI, para verem o Riley. Eles então falaram que só abrindo o bicho. E é isso o que o Eduardo Lambiasi está fazendo a estas horas.

O Riley vai pro Guiness como o mais bem consultado carro. Luiz Pereira Bueno, Chico Lameirão, Paolo da Copersucar, Bob Sharp, Jorge Lettry, Ricardo Bock.

Quer mais?


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

<<voltar

 Envie esta página para seus amigos


Enviar