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RILEY TREEN 1930 EM INTERLAGOS
Era 5a feira, deste último feriado do aniversário de São Paulo. Às oito da manhã os boxes de Interlagos já ferviam. Uma manhã ensolarada, mas ainda fresca. O autódromo estava lindo, com a grama verde do verão e a névoa fina se dissipando. Mas o pessoal da Super Classic, que ocupava os primeiros boxes, não tinha tempo para essa visão bucólica que Interlagos proporciona nas suas manhãs, já que estava no costumeiro frenesi que antecede os treinos. Uns mais frenéticos e outros mais calmos. Uns carros já prontinhos, na ponta dos cascos, e outros com mecânicos e pilotos ao seu redor tentando resolver problemas de última hora. Chevettes, Pumas, Zé do Caixão, Passats, Corcéis, Fiats 147, Fuscas, Karmann Ghias, JKs, e mais um monte de outros carros, todos com fabricação anterior a 1975. A potência varia de uns 100 a uns 200 cv, dependendo da categoria, pois na corrida entram três categorias. Fui xeretar tudo, pois estou na pilha de entrar no campeonato e correr com um Chevette com motor AP 2000, preparado. Só dependo de um patrociniozinho que tem condições de vingar. Veremos. Eles saíram para a pista fazendo a barulheira de carro mexido e escapes diretos e fiquei lá me remoendo com as tripas sendo torcidas por vermes furiosos. Mas eu tinha que ver se os carros que eu convidara para o evento Clássicos de Competição estavam bem cuidados, e trotei para os boxes dos carros de corridas antigos. Do box 11 ao 23 estavam estacionados uns 50 carros que já correram em outras décadas. Maverick Berta, Porsche 908, os dois da Equipe Hollywood e que nas mágicas mãos do Luiz Pereira Bueno eram imbatíveis, Fórmula Vê, Interlagos, carretera DKW, carretera do Camilo Cristópharo, carretera do Catarino Andreatta, Porsche Dacon que foi do Chico Lameirão e do Moco... e por ai estava a coisa e eu não sabia pra onde olhar. Um menino adolescente no camarim de um concurso “Garota do Biquíni” não teria excitação maior. Bom, pensando bem... teria. jóias convidadas
A organização me pedira para convidar uns carros de uns conhecidos meus e arrumei umas belas jóias. O já citado Porsche 908, um charuto Chrysler Daytona de 1930, um Riley Treen, um xuxuzinho, também de 1930, um Ferrari GTO 1962, um Ferrari Testarossa 1958, um Mercedes Asa de Gaivota, um charuto maluco da década de 1950 que me parece ser um Alfa Romeo, motor seis em linha e três carburadores SU Chevrolet Brasil e suspensão traseira de sei lá que bicho, mas esse charuto correu e há fotos antigas dele em Interlagos e ele até hoje não matou ninguém apesar de todos os prognósticos indicarem que mataria. Fui esquentar o Riley, que recentemente foi capa de revista e anda meio metido a gostoso. Ele tem pouca restauração estética, tem bastantes machucadinhos e é assim que vai ficar, mostrando suas cicatrizes de gladiador, guerreiro. Sua mecânica está o fino. O dono estava viajando e me pedira pra dar umas voltas com o bichinho na pista pra ele não perder o costume. Conheço bem o carro e já sabemos “dançar juntos”; sabemos o que o outro vai fazer. E ele é realmente bom. Anda direitinho e faz curvas agarradinho que é uma beleza. Ele é muito melhor do que imagina quem nunca o guiou. Muito melhor. Ao chegar ao box do Riley ele estava dando uns autógrafos pra umas peruas Corolla, Parati e Belina e o danado já ia levando com a roda na cintura uma Fiat Adventure pra uma aventura amorosa quando eu dei uma bronca e espalhei a peruada. “Vem cá, rapaz! Vamos ver como você está, seu vagabundo duma figa!” Mecânico-geriatra Chequei água, óleo, gasolina, pneus. Fios e mangueiras tudo no lugar. Tudo OK. Tirei o tunneau-cover, aquela lona que envolve só o habitáculo, e me ajeitei no assento gostosinho de couro com o volantão próximo do peito. Liguei a chave geral atrás do banco do passageiro, senti os pedais finos e apertados, liguei a chave de ignição do painel, liguei e desliguei o ventilador elétrico do radiador pra ver se funcionava, puxei o afogador e dei um toque no botão da partida... Pegou de pronto; mais rápido que um carro zero com injeção eletrônica. Ele sempre faz assim, acorda rápido. Esquentei o motorzinho 1.100 cmÅ, dois carburadores SU, 4 cilindros em linha, cabeçote com câmaras hemisféricas, uns 50 cv. Chequei pressão do óleo e quando a temperatura já estava acima de 140 fahrenheit, uns 60o C, apertei a embreagem e tentei engatar 1a marcha... Rrrác. Êpa! Parece disco de embreagem colado, pensei. Resolvi pedir ajuda aos mestres e fui chamar o Luiz Pereira Bueno, que sabe tudo. Ele imediatamente foi, pois além de amigo também tem uma paixãozinha pelo danadinho do Riley, um conquistador esse carro. “Embréie, engate 1a e dê um toque na partida com o pé no freio. Mas um só toque. Vamos ver se descola com o tranquinho” – ele recomendou. Tentamos umas quatro ou seis vezes e nada de descolar. Melhor deixar quieto e esperar pelo mecânico que cuida dele. Mas era feriado e só o acharia no dia seguinte na oficina. Tristes, repusemos o tunneau-cover e o safadinho do Riley deve ter assobiado pra peruinha Adventure pra fazer as safadezas que um experiente coroa que nasceu em 1930 sabe fazer e a peruinha Fiat deve ter aprendido muita coisa e fumado um cigarrinho depois. Mas eis que à tarde encontrei o seu mecânico que passeava por ali. O Eduardo Lambiasi é mais um mecânico-geriatra que restaura carros clássicos e os deixa zerados. Fomos ver o safado. Abrimos sua caixa-seca com as ferramentas inglesas do Paolo, o mecânico-chefe do Copersucar-Fittipaldi, mecânico-chefe na época e mecânico-chefe hoje. A embreagem acionava, ia e vinha, então era disco colado mesmo. Esquentamos ainda mais o motor, até uns 90o C, e tentamos outras vezes no sistema do Luiz. Nada. Fui devolver as ferramentas ao Paolo. Perguntei-lhe o que fazer (Olhe como eu estava bem assessorado!). Ele mandou empurrá-lo até a descidinha da saída dos boxes, engatar 3a marcha (ele tem 4), dar na partida e ele pegando dar uma volta pelo circuito com o pé na embreagem e dar umas aceleradas e tiradas fortes, que assim, descolava. Bom, então choveu e o jeito era esperar. Chovendo, fui conversar com o dono dos Ferrari Tetstarossa e GTO, e recebo um convite, irrecusável: E assim foi que o Riley escapou dessa vez, por ontem, e deve ter se esbaldado com sua legião de fãs, o malandro. Mas hoje à tarde, 6a feira, ele não me escapa e vou fazer o que o Paolo mandou. As voltas e aceleradas que dei com o Testarossa vou ter que contar na semana que vem. Assim conto o que aconteceu com o Riley.
Arnaldo Keller |