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ERWIN CANNON BALL BAKER
Um assunto puxa outro. Semana passada contei que entrando num Ferrari Daytona lembrei da corrida maluca Cannonball Run – Nova Iorque a Los Angeles, sem paradas –, inventada em 1971 pelo jornalista americano Brock Yates, pois ele correra com um Daytona. Lembrei que o nome dado à corrida era em homenagem ao lendário motociclista e caçador de recordes Erwin Cannon Ball Baker. O amigo-leitor Rogério foi atrás da história do tresloucado Cannon Ball Baker e deu a dica para que eu escrevesse sobre o fera. Obrigado, Rogério. As aventuras desse sujeito valem ser contadas. Erwin Baker (baker = padeiro) nasceu em Dearborn, Indiana, EUA, em 1882 e ainda criança mudou-se com a família para a cidade de Indianápolis. Alto, magro e atlético – um camarada osso-duro –, desde cedo praticou boxe e atletismo. Aos 16 anos, em 1908, comprou uma motocicleta e começou a participar e vencer corridas locais. Sua fama nacional viria a partir de 1909, quando venceu a primeira corrida de motos do circuito Indianápolis Speedway, em sua inauguração. Correr de moto num circuito oval não deve ser mole. Daí em diante passou a ser requisitado pelas fábricas de motos para que realizasse façanhas pilotando seus produtos. Numa época em que as estradas americanas eram de terra, esburacadas, enlameadas (mais ou menos como estão hoje as brasileiras após a ridícula Operação Tapa-Buraco), Erwin passou a apostar corridas contra trens de passageiros (então o meio de transporte mais rápido) e a estabelecer recordes nas ligações entre cidades.
Mas não pense que eram cidades, ou mesmo estados, vizinhos; os caras, por exemplo, soltavam o marrudo do Erwin no escaldante deserto do Arizona e mandavam ele largar o cacête até Nova Iorque. E ele que se lascasse até lá. E com o seguinte trato: No record, no money, ou seja, se não estabelecesse um recorde não recebia um tostão. Na maioria das vezes pilotou para a fabricante Indian. Pela marca também buscou e conseguiu recordes de velocidade no deserto de sal de Boneville. E lá ia ele em motos desengonçadas, por estradas próprias aos carroções dos colonizadores (aqueles que os índios gostavam de perseguir e mandar a flecha). Ganhou dos amigos um revólver 38 cano longo e com ele se livrava dos salteadores e dos ataques de matilhas de cães sanguinários. Para mitigar a sede usava um truque índio: punha debaixo da língua uma pedrinha do tamanho de uma moeda de dez centavos, e assim, segundo ele, agüentava mandar a lenha por mais tempo sem parar para beber água. Suas viagens alucinadas passaram a ser acompanhadas pelos jornais – e era isso mesmo que os fabricantes queriam. A população das cidades pelas quais passava já o recebia e apoiava. Alguns malucos motociclistas das regiões o acompanhavam pelo caminho para lhe indicar as melhores estradas, pois não havia mapas detalhados como hoje, e forneciam-lhe combustível e comida. E lá ia Erwin Baker zunindo à toda pelas estradas poeirentas. Um jornalista entusiasta afirmou que Baker era mais rápido que o então famoso trem “Cannon Ball Express”. E foi daí que o apelidou de Cannon Ball (Bala de Canhão), e o apelido pegou. E o Bala de Canhão vinha lascado numa curva quando se deparou com um rebanho de vacas à frente fechando a estrada. Desviando das vacas caiu num buraco, saiu voando e foi jogado de encontro aos arames farpados de uma cerca. A cerca esticou feito um estilingue e mandou-o de volta de encontro aos pés de uma vaca ligeira que mandou-lhe um coice bem dado jogando-o numa poça de lama. Num outro fim de mundo um cachorrão cruzado com lobo cismou de comer-lhe o pneu dianteiro. Mandou uma dentada no pneu, a moto capotou por cima do animal e mais uma vez o Bala de Canhão alçou vôo. O cão-lobo morreu mas deixou o pneu cravado com seus dentes arrancados com raiz e tudo.
Em 1912, da Flórida pegou um vapor para Cuba. Rodou Cuba inteira. Pegou outro vapor pra Jamaica, rodou Jamaica inteira, pegou outro pro Panamá e dali subiu a América Central até os EUA. Só nessa ele rodou 21 mil km. Moto Indian, 1.000 cm3, 2 cilindros em V, com 7 cv e duas marchas. Ao todo, ao longo de sua vida, calculam que deva ter rodado uns 8 a 9 milhões de km nas suas andanças de cabo enrolado. Cruzou os EUA 143 vêzes. Estabeleceu o primeiro recorde da Corrida das Três Bandeiras, partindo do Canadá cruzou os EUA e foi parar no México. Um sujeito infatigável. O que ele perseguia? Ou será,... do que fugia? Talvez fugisse da mesmice. Passaram a convocá-lo para corridas de automóveis. Em 1922 correu a 500 Milhas de Indianápolis e, devido a problemas mecânicos só conseguiu a 11a colocação. Ao ficar meio velhusco passou a ser consultor da NASCAR. Por incrível que pareça, morreu de velho, em 1960. Sua mais famosa corrida foi quando, em 1933, dirigindo um Graham-Page partiu de Nova Iorque em direção a Los Angeles. Completou o percurso num tempo total de 53 horas e meia, o que dava uma velocidade média de uns 100 km/h; recorde que só foi batido 38 anos depois pela dupla Yates/Gurney, a bordo do tal Ferrari Daytona do começo da nossa conversa. Pois é, um assunto puxa outro... Abraço,Arnaldo
Arnaldo Keller |