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O Cannonball Run e o Ferrari Daytona

DaytonaOutro dia fui conhecer uma coleção de carros clássicos. Maravilhosa, de um senhor que entende pacas e que ele mesmo trabalha nos carros, restaurando-os de fio a pavio. Dentre os carros, todos esportivos, tinha um Ferrari 365 GTB Berlinetta, vermelho, um modelo que ficou conhecido pelo apelido de Daytona. Foi fabricado de 1968 a 1973. Motor dianteiro, V12 de 4,4 litros de cilindrada, 365 cv, cárter seco, 4 válvulas por cilindro, seis carburadores Weber duplos, ou seja, uma boca pra cada um dos 12 cilindros. Caixa de câmbio de 5 marchas no eixo traseiro, conjugada ao diferencial, para que o carro tenha a ótima distribuição de peso de 50/50. Só 1.400 berlinetas e 125 spiders (conversíveis) foram construídas. 0 a 100 em 5,4 seg. Vel. Máx: 280 km/h. O nome Daytona viria em comemoração à vitória da Ferrari na prova 24 Horas de Daytona de 1967, quando a equipe levou os três primeiros lugares; mas antes de lançá-lo, Don Enzo Ferrari não quis mais o nome, e oficialmente ficou 365 GTB (Gran Turismo Berlinetta).

Claro que pedi para sentar no banco do motorista, e me encaixei direitinho no assento em couro preto. Painel preto. Tudo ao alcance fácil. A alavanca de câmbio não fica no eixo longitudinal do carro, mas um pouco deslocada para a esquerda, mais perto do motorista. Fui cheirando a cabine e lembrando que o recém-falecido piloto Clay Regazzoni tinha um destes na época em que se acidentou na F1. Ficando semi-paralítico, mandou adaptar seu Daytona para que pudesse continuar a dirigi-lo. E foi quando veio um estalo nesta cabeça desbalanceada: o Cannonball Run! Lembrei-me que o primeiro recorde do Cannonball Run foi estabelecido por um Daytona igual ao que eu estava, só que azul. Dois grandes da época o dirigiram: Dan Gurney, um ex-piloto de F1 e Indy, e vencedor de uma 24 Horas de Le Mans a bordo de um Ford GT40, e o jornalista automobilístico Brock Yates, que trabalhava na revista Car and Driver. Brock Yates é um tipo irreverente, excelente jornalista, manja pra burro de carro e pilota o fino.

Yates reclamava que o motorista americano era tratado como imbecil por ter o limite máximo de velocidade limitado a 55 milhas/hora (88 km/h), enquanto os alemães podiam pisar tudo nas autobahn. Proclamava ele que em estradas boas esse limite deveria ser aumentado lá pra cima, e então, num ato de rebeldia, em 1971 inventou o Cannonball Run, que era uma corrida coast-to-coast, ou seja, ia da costa oeste dos EUA à costa leste – partia de Nova Iorque e chegava em Los Angeles. Tanto fazia o caminho, tanto fazia quanto tempo teve de paradas, etc. Nada interessava, o que valia era o tempo de sair daqui e chegar ali, e boa. O melhor caminho dava 4.630 km.

“Modelos” pistoleiras e Ambulância

Ele divulgou um pouco a corrida, e uns poucos entraram. Nada de inscrição. O negócio era estar ali na hora da largada. Apareceram uns doidos, dentre eles três molecões que tinham pego um anúncio de jornal onde o dono de um Cadillac, que mudava-se para a Califórnia, pagaria quem levasse seu carro de Nova Iorque para Los Angeles (bem oportuno, não é?) sob as seguintes condições: não poderiam nunca passar de 120 km/h, não poderiam andar sob chuva e nem à noite. Os três rapazes pegaram o carro do homem e foram pra corrida. Moral: chegaram em 3o lugar fazendo uma média de 125 km/h de ponto a ponto, sem descontar as paradas que somaram 3 horas e meia.

Em segundo lugar chegou a equipe dos intitulados “Pilotos Poloneses na América”, pilotando uma perua Chevrolet preparada, com 37 horas de ponto a ponto. Em primeiro, como já disse, o Ferrari Daytona de Gurney/Yates com 35 horas e 54 minutos para cobrir os 4.630 km. Ao chegar e dar entrevistas aos jornalistas, Gurney, ainda meio enjoado de tanto queijo suíço que comera ao longo da viagem (Yates comia chocolate), fez questão de enfatizar o caráter de segurança que imperou durante a corrida, dizendo: “Em momento algum ultrapassamos 285 km/h, pois, afinal, o Ferrari só atingia 280 km/h....”

Essa corrida fora-da-lei ficou famosa. Outras foram editadas e nunca houve acidentes graves. O mais grave foi quando o competidor motorista de uma limusine, que levava três “modelos” pistoleiras, dormiu ao volante. Desceram ribanceira abaixo, capotaram, mas nenhuma das moças se machucou a ponto de deixarem de ter condições de exercer a profissão ao longo da prova.

Outra atração foi uma ambulância de corridas. A ambulância levava um médico e a esposa de Yates, que se fingia de doente grave. Passavam a conversa aos policiais que ela tinha que ir urgentemente a Los Angeles ser operada e que, devido às suas condições físicas, não poderia voar de avião. Por isso é que corriam tanto...

O recorde do Ferrari Daytona só foi batido em 1975 por outro Ferrari, um Dino, que chegou um minuto mais cedo.

E assim foi até que Yates escreveu um roteiro para um filme, que seria estrelado por Steve McQueen, mas Steve ficou doente, câncer, e não pode trabalhar no filme, então escalaram o pastelão Burt Reynolds. O filme não ficou do jeito que Yates queria, ficou meio ridículo, mas Yates ficou rico com os direitos autorais.

Por fim, acabou-se o que era doce, e a polícia passou a bater em cima dos malucos e a coisa acabou. Hoje fazem por lá uma corridinha frouxa rememorando as maluquices que outros cometeram no passado.

O nome Cannonbal (bala de canhão) dado à corrida vinha em homenagem a Erwin G. “Cannon Ball” Baker, que a partir de 1914 fez 143 viagens cruzando os EUA. A primeira foi numa moto Indian. Ele morreu em 1960. E morreu estando vivo.


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br

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