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ALGUMAS PREVISÕES PARA O AUTOMÓVEL DO FUTURO
Após uns dez anos de serviços prestados, meu relógio Technos pifou. O jeito foi comprar outro. Fui a uma loja de relógios e fiquei atrapalhado com a quantidade e variedade de opções. Antigamente não havia tanta. Sou conversador e fui batendo um papo com o relojoeiro. Descobri, para meu espanto, que a maioria dos relógios tem a mesma máquina, ou seja, há uma fábrica enorme que fornece as mesmas máquinas a inúmeros fabricantes de relógios. Somente marcas mais caras, como Rolex, Vacheron e mesmo outras não tão caras, como Seiko e Citizen, fabricam suas máquinas, mas cada vez mais marcas aderem ao esquemão. Muitas só fazem o seu design e aproveitam de suas grifes famosas, como Lacoste, Yves Saint Laurent, e lançam o relógio que, na verdade, outra fábrica fabricou. Conclusão: hoje, com a tecnologia do quartzo, praticamente todos os relógios cumprem bem sua função, então o comprador mediano só tem que optar pelo design, características se é a prova d’água ou não, e grife. Antigamente, se quiséssemos um relógio que trabalhasse direitinho e agüentasse um bom tempo, tínhamos que comprar um relógio melhor e conseqüentemente mais caro. Hoje, não, pois um Technos trabalha tão bem quanto um Rolex. Agüenta menos, é verdade, mas seu preço é centesimamente menor. Ah! E falta a grife, o status proporcionado, essa coisa que desprezo mas que importa a muita gente. Mas minha cabeça não conta porque ela é fora de eixo e puxa pros lados. O que conta é a cabeça da massa consumidora, que vai reto.
Creio que os carros caminham para o mesmo esquema que o tomado pelos relógios. Hoje praticamente todos os carros zero-km estão bons. Uns um pouco melhores, sem dúvida, mas todos funcionam satisfatoriamente bem e duram bastante. A escolha hoje é mais pelo design, espaço interno, segurança, ergonomia, características como se é um “valente fora-de-estrada”, esportivo, e, importante, o status. O Status é importantíssimo. Mas já não há mais a preocupação de pegarmos bombas tais quais o Dodginho Polara ou coisa parecida. Antigamente, um carro com cem mil km já estava um lixo. Hoje, cem mil km para qualquer carro não é nada.
As fábricas, para redução de custos, já começaram a fazer trocas constantes de componentes entre si. Produzindo mais sai mais barato. Nada impede que todas as fábricas brasileiras venham a usar um mesmo motor 1000, por exemplo, para todos os da categoria. Todos esses motores são bons, uns um pouco melhores que os outros, mas todos são satisfatórios. Com a tecnologia computacional atual, projetar um bom conjunto mecânico está fácil. Antes de fazerem sequer uma peça os engenheiros simulam tudo em seus programas e sabem exatamente o que será aquela máquina. Com a tecnologia moderna há infinitamente menos erros. Pena é ainda não terem desenvolvido o carro elétrico, principalmente para o Brasil, país com energia elétrica barata e não poluidora. É estranho isso, pois cem anos atrás Santos-Dumont usava um Peugeot para rodar por Paris e transportar seu ultraleve Demoiselle. Será que ainda não souberam melhorar? Uma das vantagens do carro elétrico é que ele não gasta energia quando parado no trânsito, já que o motor não precisa ficar ligado em marcha lenta. O IMPERADOR CHINÊS Mas os Rolex, os Ferrari, etc, continuarão na frente. Eram, são e serão melhores, mais requintados, e portanto mais caros. Continuarão a ser exclusivos. Mas eu diria que estes já estão na categoria dos “Mais Que Plenamente Satisfatórios”, cuja compra só se justificará por puro capricho. Não sou contra satisfazer um capricho, pelo contrário, mas devemos saber separar e deixar isso claro para nós mesmos. Um amigo meu, que sempre foi rico e teve carrões, tinha um BMW série 3 para o dia a dia. Achava que necessitava de todos os requintes do carro. Com o advento do rodízio de veículos em São Paulo, comprou um Ford KA 1.6 com ar condicionado para usá-lo no dia da semana em que seu BMW não poderia sair. Final da história: hoje ele só anda de KA e só usa o BMW nos finais de semana e no dia em que o KA não pode sair... Ele chegou à conclusão que não “precisava” de mais que o KA para rodar por aí. Antigamente, bem antigamente, para uma pessoa poder tomar um sorvete ela tinha que ser o imperador da China, que mandava trazer neve dos picos das montanhas a centenas de quilômetros. Da montanha saía uma tonelada de neve que derretendo pelo caminho só chegava um picolé. Hoje, pensando bem, no âmbito de comodidades e satisfações de necessidades, um homem classe média tem mais confortos que esse tal imperador chinês – e olhe que esse imperador era cheio de frescuras. Conclusão: já que o que é racional mais dia ou menos dia acaba vingando, a tendência para os automóveis é cada vez mais usarem em comum os mesmos componentes mecânicos, além de baixarem a potência média, que está muito alta, desnecessária e consumidora. Potência alta é para esportivos, mas isso é para esporte de fim de semana, não é para o dia a dia. Devem dar uma brecada também na parafernália maluca que nos estão impingindo, dizendo que “necessitamos disso e daquilo”, pois já chega, não precisamos de tanto, obrigado. É tanto que chega atrapalhar, requerendo muita atenção. Hoje há requintes demais nos carros, mais até que nas residências. Ninguém tem uma sala onde se pode optar para que numa metade a temperatura seja constante em 21o C e na outra 24o C – tal qual hoje muitos carros oferecem. Talvez só no palácio do imperador chinês, para que ele tenha controle dos ânimos do seu harém – mas isso seria por esporte.
Arnaldo Keller apoio |